P.e Vitor Gonçalves
in Voz da Verdade | 03.02.2012
Porque foi tão difícil aos conterrâneos de Jesus acreditarem
nele? Seria esta ideia arreigada de que “o que vem de for é que é que é bom” ou
a memória daquele menino que cresceu tão igual aos outros, e agora deslumbrava todos
com as suas palavras? Seria a fama que chegava aos seus ouvidos dos milagres
que tinha feito em Cafarnaum e que julgariam ser seu dever fazer agora ali,
qual mágico de um espectáculo gratuito? É verdade que Jesus põe “mais lenha na
fogueira” e fala-lhes de milagres feitos, no passado, a estrangeiros e não ao
Povo de Israel. É preciso ter um coração humilde, e fé como um abandono nas
mãos de Deus, para ver o milagre. E isso não conseguem.
Porque o milagre está diante dos olhos mas teimam em não
querer ver. E, como todas as multidões, quando não querem ver, procuram
assassinar quem põe em causa a sua cegueira!
Ver mais fundo e mais longe, ver como o próprio Deus vê, é
também a identidade de um profeta. E porque vê, não pode calar, não pode deixar
tudo na mesma, como se nada se pudesse fazer para mudar o que está mal. Mas
isso incomoda, provoca rejeição, abala as falsidades instaladas, e põe em causa
o viver arrumadinho e calculista, religiosamente satisfatório e injustamente acomodado.
“Há tanto tempo que é assim!”, “são direitos e regalias estabelecidos há
muito”, “para quê mudar?”, são algumas das objecções imediatas. Porque é fácil
habituarmo-nos ao injusto e ao desumano quando até a religião, que devia
fazer-nos ouvintes e porta-vozes de Deus, se torna anestesia ou analgésico, e
nos destitui dessa missão profética. A promoção de um mundo mais humano (e por
isso mais divino!) implica vozes e atitudes que se comprometem com a mesma
missão libertadora de Jesus. A fazer que se cumpra “hoje” a mesma
responsabilidade pelo destino de todos, o compromisso pela libertação dos
oprimidos, o empenho no justo acesso de todos ao trabalho e aos bens, a
promoção da dignidade que cada pessoa merece, que levaram Jesus a dar a sua
vida.
Podemos ficar numa imagem “açucarada” de profeta,
servindo-se mais do que servindo, pactuando numa fé que não muda o pensar e o
agir, sem assumirmos a fundo a causa de Deus amar a humanidade até ao fim.
Podemos refugiar-nos num retorno ao religioso como grande testemunho perante o
secularismo, com o risco de nos fechamos numa nuvem de incenso, passando Jesus
pelo meio de nós para seguir o seu caminho. Mas podemos também rever com Jesus
ao lado, o nosso ser com os outros e com Deus. E encontrar n’ Ele a coragem de
encetar pequenas e grandes mudanças, que são o caminho de Jesus!

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