(foto: Rádio Vaticana)
SOFIA LORENA, EM ROMA|Público|28/02/2013
28 de Fevereiro de 2013
Bento XVI despediu-se de
uma “Igreja viva”, numa praça cheia de emoção contida. Lembrou os momentos “de
alegria e de luz” e as “águas agitadas” dos seus oito anos de pontificado
Luisa Borgia já tinha
estado em São Pedro no funeral de João Paulo II e na sua beatificação. Já tinha
visto Bento XVI à janela e naquela mesma cadeira, no altar diante da basílica. Gostou
de ter vindo à sua despedida. “O povo católico sabe unir-se quando é preciso. Estivemos
nós aqui e sei que estiveram tantos em oração com ele, em todos os cantos do
mundo”, diz a professora de Bioética, ao lado do marido e do filho.
Este Papa não voltará a
acenar aos fiéis da varanda, não voltará a percorrer a Praça de São Pedro no
Papamóvel, acenando com tempo e sorrindo aos que o queiram saudar. Não mais se
sentará na cadeira ao centro do altar para falar ao mundo católico nem voltará
a erguer-se, de braços levantados e sorriso franco e agradecido, a saborear um
longo aplauso.
“Não o vi cansado nem
curvado pela idade ou pelo frio. Vi-o abalado, mas pela emoção. É um Papa muito
reservado. Mas hoje custou-lhe esconder os sentimentos”, diz Luisa.
Os fiéis viram que se
emocionava e emocionaram-se com ele. O último acto público do Papa Bento XVI
foi a audiência geral aos bispos de ontem de manhã. Os bispos ocuparam os seus
lugares nas escadarias, mas quem encheu a praça de sorrisos e suspiros, de
olhares e de silêncios cúmplices, foram dezenas e dezenas de milhares de fiéis
comuns, homens de batina e gente só de fé.
“Estou realmente
comovido”, disse Bento XVI. “Obrigado, obrigado”, “Obrigado, Santidade”, assim
o receberam os fiéis, entre aplausos e agitar de bandeiras, de Itália, do
Vaticano, de Portugal, dos Estados Unidos, da Índia, da África do Sul, da
Alemanha, de Espanha, do Brasil… “Viva o Papa, viva o Papa!”, assim se
despediram, uma hora e meia depois da chegada a São Pedro, que pela última vez
percorreu no interior do Papamóvel.
“Não creio que possamos
compreender os motivos da sua decisão. Renunciar foi algo que ele teve de
fazer… E que nós aceitamos. É um momento profundamente difícil, para o Papa e
para o homem”, afirma Luisa.
“Agradeço a todos o
respeito e a compreensão com que acolhestes a minha decisão”, ouvira antes
Luisa a Bento XVI. Uma escolha “grave” e “rara”, admitiu Ratzinger, mas tomada
“com profunda serenidade de espírito”, disse o Papa, que partilhou ter pedido
“com insistência a Deus” que o iluminasse para o “fazer tomar a decisão mais
justa”. “Não para o meu bem, mas para o bem da Igreja.”
Os homens de fé não estão
livres de dúvidas e Ratzginer recordou que já antes duvidara e rezara, a 19 de
Abril de 2005. “Senhor, por que me pedes isto? É um grande peso que coloco
sobre os ombros. Mas, se me pedes, confio em ti.”
A praça, que o escutou
sempre no silêncio quase absoluto, interrompeu para o aplaudir. E de novo, mais
à frente, quando disse: “Amar a Igreja significa ter a coragem de fazer
escolhas difíceis, sofridas”, disse, antes de evocar “os momentos de alegria e
de luz” “e os “momentos não-fáceis” que marcaram o seu pontificado. As “águas
agitadas” que também experimentou aos comandos da barca de São Pedro, oito anos
de intervenções teóricas e encíclicas sem poder ignorar os escândalos de
corrupção e as denúncias de abusos sexuais, a terminarem na explosão da
polémica dos documentos roubados que fazem o retrato de uma Cúria dominada por
lobbys de interesses antagónicos.
Permanecer na cruz
Eram 10h35 quando o Papa
chegou à Praça de São Pedro. Doze horas em ponto em Roma (uma hora a menos em
Lisboa) quando desceu do altar e entrou de novo no Papamóvel. Entre a chegada e
a partida, foi tempo de comunhão. “O Papa pertence a todos e todos lhe
pertencem”, disse. “A minha decisão de renunciar não muda isto. Não abandono a
cruz, permaneço nela. Continuarei a dedicar-me à Igreja.”
O guião estava escrito:
percorrer a praça no Papamóvel, saudar os fiéis, caminhar até ao altar,
sentar-se, ouvir os bispos lerem a Carta de São Paulo aos Colossenses em oito
línguas, incluindo o português, discursar aos fiéis, ler a catequese em várias
línguas e ouvir, de novo em várias línguas, os agradecimentos dos peregrinos de
todo o mundo, rezar o Pai Nosso em latim, pela última vez, regressar ao
Papamóvel para as despedidas finais.
O guião não dizia que
Bento XVI tivesse de sorrir tanto, que os fiéis que o ouviam de olhos marejados
contivessem as lágrimas, que o Papa se demorasse tanto nos acenos, que
estivesse comovido e ao mesmo tempo de mãos tão firmes, enquanto segurava as
páginas do seu último discurso. O guião até previa a multidão e o céu de
azul-claro e manso, o sol quente a temperar o frio de fim de Fevereiro em Roma.
As palavras de agradecimento trocadas. Mas não podia prever tantos sorrisos e
emoções partilhadas em silêncio.
“Foi muito
impressionante. Ver todas estas pessoas com o coração cheio”, diz Utta Graf, ao
lado do marido, Jurgen, os dois protestantes de Hamburgo, contentes por estarem
em Roma. “É fantástico. Ele trouxe-nos aqui, juntou-nos”, afirma Jurgen. “Estamos
aqui em paz, sem pensar em dinheiro ou em problemas. Estamos todos juntos e as
caras das pessoas estão brilhantes, não estão muito sérias. Gosto disso”,
completa Utta.
O Papa usou o seu último
discurso para agradecer, “sobretudo a Deus” e aos presentes. “Eu sempre soube
que a barca da Igreja não é nossa, mas é Sua. E o Senhor não a deixa afundar. É
ele que a conduz certamente, mesmo que através dos homens que escolhe”,
afirmou, tantas vezes interrompido por aplausos. Essa é “uma certeza que nada
pode ofuscar”.
A irmã Marianela Cruces
chegou cedo, mas preferiu deixar-se ficar ao longe, debaixo das colunas
laterais da praça, ora de pé, ora sentada. Não teve de correr, como outras
freiras, pela Via della Conciliazione das lojas de recordações, entre polícias
de trânsito e voluntários da Cruz Vermelha, funcionários da protecção civil e
vendedores de jornais, guias turísticos, padres e gente de bandeira do Vaticano
ao pescoço, pessoas embrulhadas nas bandeiras dos seus países, um homem com uma
enorme cruz às costas.
A graça dele é a fé
Marianela percorreu
devagar o caminho entre a residência onde vive e o Vaticano, e esperou sem
pressas para ouvir o Papa. “É uma graça muito especial. Imagino que lhe custe
tanto… Expressar o que lhe vai na alma, os seus sentimentos”, diz, feliz por se
poder despedir dele, mas a pensar nas suas irmãs, que deixou no Peru. “Agora, é
preciso rezar, rezar muito, a pensar nesta grande missão que têm os cardeais. Não
é nada fácil, mas o Senhor também se vale dos seus instrumentos para os ajudar.”
A irmã Marianela vai
rezar, sabendo que “ninguém rezará” tanto como Bento XVI. “Ele, mais do que
ninguém, sabe a situação da Igreja. Ele é um homem santo, tão ligado ao Senhor,
tão capaz, tão profundo”, diz. “Que pena que não o podemos ter para sempre!
Sinto o desejo de lhe dizer: “Não vás, precisamos de ti”. Mas ele sabe que deve
partir. Deixa a convicção de que a Igreja é do Senhor e a graça dele é a fé.”
Marianela nem imagina
como terá sido difícil a Ratzinger escolher a renúncia, uma decisão tão pesada
que nenhum Papa a ousara desde 1415. “Que força teve até ao último momento!”,
diz a freira de 37 anos. “Mas ele está cansado e o Senhor quis que assim fossem
as coisas.”
Lembrando as viagens e os
peregrinos que encontrou e as cartas que tantos “irmãos e irmãs, e filhos e
filhas” lhe escreveram, Bento XVI disse aos fiéis que, “hoje, a Igreja está
viva” e que “a Igreja é um corpo vivo”. Um corpo que ele pôde sentir como
poucos: experimentar a Igreja deste modo é quase como poder tocar-lhe com as mãos.”
Marianela emocionou-se
com as suas palavras, André, seminarista brasileiro de 33 anos, comoveu-se ao
“ver bandeiras de todo o mundo” e “o Papa, com toda a sua humildade”. Pascal
Fomonyuy, franciscano dos Camarões a estudar em Roma, ficou com os olhos ainda
mais brilhantes e o sorriso ainda mais rasgado.
Antes de se despedir, o
homem que hoje pelas 20h deixará de ser Papa disse que rezará “pelos cardeais
chamados a uma escolha difícil” e pelo sucessor”. Depois, pediu a todos para
nunca perderem a fé. “Cada um de nós vive alegre, na certeza de que o Senhor
está por perto, nunca nos abandona, está junto de nós com o seu amor. Obrigado.”
As mãos dos fiéis, muitas
antes quietas e pousadas sobre o peito, puderam então aplaudir sem
interrupções. Até a voz do Papa se voltar a ouvir, no Pai Nosso em latim, e a
praça a rezar com ele, baixinho. Bento XVI sorriu e a praça aplaudiu de novo.
Dois minutos durou o sorriso, um pouco mais os aplausos, os cardeais de pé, o
resto da praça a gritar “Obrigado!” e “Viva o Papa!”.
“Nunca estarás sozinho”,
lia-se num dos cartazes com mensagens para o Papa. “Que viva o Papa, que viva o
Papa!”, gritou-se por fim, entre mais sorrisos e trocas de abraços. “Bento,
Bento, Bento!”
“Foi um momento muito
difícil para ele, cheio de amor e de dor”, diz Pascal. “O que posso fazer faço,
o que não posso não faço.” Foi esta, para o frade de 36 anos, a lição de
Ratzinger. Pascal vê-o “como um profeta vivo”, mas despede-se com
“tranquilidade” e cheio de “encorajamento”. Agora, resta esperar pelo sucessor:
“A Igreja é de Cristo, não é de Bento”.
Se pudesse falar-lhe na
sua última audiência, Pascal teria poucas palavras para Bento XVI. “Coragem.
Obrigado. Amo-te.” Hoje, alguns dos que ontem encheram a Praça de São Pedro
voltarão para viver de perto os últimos momentos deste pontificado. André, o
seminarista do estado da Paraíba, vai ficar em casa. “Vou subir ao terraço e
ficar lá a olhar o helicóptero e a rezar por ele. Ele disse que vai subir o
monte e nós estamos a subir o monte com ele.”

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