O Evangelho que a Igreja nos propõe para este Domingo
descreve um dos traços mais característicos da pessoa de Jesus: a misericórdia.
Enquanto os escribas e fariseus lhe armam uma cilada, Ele pensa somente em
salvar, em perdoar, recuperar o que estava perdido. Chamam-n’o para que possa
dar a Sua opinião numa clássica controvérsia resultado da aplicação da Lei de
Moisés. Jesus não desbobina um código, mas apela à consciência de cada um,
interpela e provoca. Ele que poderia julgar a realidade, ao contrário,
reabilita-a, mostrando a mãos largas como é grande o Seu coração.
O texto mostra a predilecção de Jesus pelos pecadores: esses
são os seus predilectos, os seus amigos. Para Jesus, o pecado é janela que
escancara a porta do coração do homem. Salvo pela força do Seu amor, o coração
humano, por sua vez, é capaz de amar de verdade.
A cena evangélica, no seu desenrolar, leva-nos a um lugar de
oração solitária, ao centro do Templo de Jerusalém, da violência dos factos
humanos, da delicadeza dos gestos de Jesus, num cenário super lotado, sufocante
pelos tons e modos das autoridades, a um final em que a pessoa sozinha,
permanece tu a tu com o Salvador, saboreando a docilidade e o perdão.
É neste lugar e dentro desta relação que podemos viver todo
o caminho da Quaresma.
Evangelho segundo S. João 8, 1-11
«Naquele tempo, Jesus foi para o Monte das Oliveiras. Mas de
manhã cedo, apareceu outra vez no templo e todo o povo se aproximou d’Ele.
Então sentou-se e começou a ensinar. Os escribas e os fariseus apresentaram a
Jesus uma mulher surpreendida em adultério, colocaram-na no meio dos presentes
e disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante
adultério. Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?”
Falavam assim para lhe armarem uma cilada e terem pretexto para O acusar. Mas
Jesus inclinou-se e começou a escrever com o dedo no chão. Como persistiam em
interrogá-l’o, ergeu-se e dissse-lhes: “Quem de entre vós estiver sem pecado
atire a primeira pedra.” Inclinou-se novamente e continuou a escrever no chão.
Eles, porém, quando ouviram tais palavras, foram saindo um após outro, a
começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher, que estava no meio.
Jesus ergueu-se e disse-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?”
Ela respondeu: “Ninguém, Senhor.” Disse então Jesus: “ Nem Eu te condeno. Vai e
não tornes a pecar.”»
Segunda-feira
Palavra
Naquele tempo, Jesus foi para o Monte das Oliveiras.
Encontramos Jesus num lugar que Ele bem conhece e para onde
se dirigia cada vez que ia a Jerusalém. Ali sentia a necessidade de rezar e de
estar sozinho em profunda intimidade com o Pai. João faz apenas uma breve
alusão ao Monte das Oliveiras para concluir toda uma série de acontecimentos
que Jesus teve com as autoridades judaicas: acontecimentos que abordavam
aspectos relacionados com a Sua proveniência, a doutrina.. E que termina numa
noite solitária.
Meditação
Compreende-se esta necessidade de Jesus em retirar-se. Ao
longo de um caminho de revelação surgem os “porquês” da Sua vinda. Retirar-se
reforça a comunhão com Deus, com o Pai que O enviou; revitaliza a coragem e a
confiança, a força para proclamar a Verdade a um povo, em que a maioria das
pessoas, é hostil à mensagem.
Monte das Oliveiras: espaço da imersão em Deus onde age
também Satanás. Mas se em primeiro lugar está a vontade de Deus e o Seu
projecto de Salvação, com Jesus venceremos as forças malignas. Nos tempos de
hoje, temos necessidade de um Monte das Oliveiras, não para recordarmos a
tentação e o sofrimento, mas para sentirmos o Amor infinito de Deus na nossa
existência.
Oração
Senhor, faz-me sentir a alegria da Tua presença.
Faz, que entre a mesquinhez que sufoca a vida quotidiana,
Possa entrar em relação Contigo e gerar vida em mim.
Tu comigo e eu Contigo,
Quero ser gerador/a de Vida e de Amor.
Acção
Procurarei ao longo do dia de hoje distanciar-me um pouco da
balbúrdia, dos discursos e mais discursos da sociedade, para repensar aspectos
do meu projecto de vida cristã.
Terça-feira
Palavra
Mas de manhã cedo, apareceu outra vez no templo e todo o
povo se aproximou d’Ele. Então sentou-se e começou a ensinar.
Apenas amanhece, Jesus volta ao templo, centro da fé
hebraica. Rapidamente as pessoas aproximam-se d’Ele. Senta-se e começa a
ensinar. João não diz o que está a ensinar, mas as pessoas vêm ao seu encontro,
para O escutar, para estar com Ele, porque Ele mesmo é o “ensinamento” com tudo
o que é e faz.
Meditação
Jesus é a Palavra, o novo “lugar de culto” onde as pessoas
podem refugiar-se. A Sua presença perfuma o ar de novidade: não mais os muros
da lei de Moisés, os sacrifícios antigos… Deus está próximo na existência de Jesus.
Ele é o novo templo, o lugar do encontro com o Pai, o caminho para chegar a
Deus visto como alguém distante e agora eis a beleza em descobri-l’o no mais
íntimo de nós mesmos. Depois de uma noite, Jesus está pronto a revelar-se:
senta-se, ensina pequenos e grandes. A Sua presença é força que atrai. Ainda
hoje Ele continua a sentar-se no centro das nossas vidas e ensina. Teremos nós
a capacidade de vermos que Ele está ali ou continuaremos a deslumbrarmo-nos com
as vaidades e o orgulho da nossa frágil e pobre existência?
Oração
Deus de bondade,
Que renovas todas as coisas em Cristo,
Diante de Ti coloco a minha pobre vida.
Tu, que enviaste o Teu Filho,
Não para condenar, mas para salvar,
Abre o meu coração ao amor.
Cria em mim, Senhor,
O silêncio para escutar,
Para acolher a Palavra
Que me liberta e dá sabedoria,
Para que possa testemunhar no mundo
Que Tu vives no meio de nós. Amém.
Acção
Ao longo do meu dia procurarei não olhar tanto para o meu
“umbigo”. Tentarei ter aberto o canal da escuta e sentar-me-ei,
voluntariamente, junto de alguém para partilhar algo com ele/ela, exercitando o
meu ser altruísta.
Quarta-feira
Palavra
Os escribas e os fariseus apresentaram a Jesus uma mulher
surpreendida em adultério, colocaram-na no meio dos presentes e disseram a
Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério.
Depois de alguns confrontos, as autoridades hebraicas
interrompem a experiência do encontro, levando junto de Jesus uma mulher apanhada
em flagrante adultério. O povo que escutava Jesus, vê-se confrontado com esta
situação, e Jesus é interrompido para que possa julgar o caso.
Uma mulher posta em cheque. Não tem nome, por ela falam os
últimos factos que sucederam e aquele grupo de intervenientes parece ser
testemunha.
Meditação
Os que escutavam Jesus saem de cena. Em primeiro plano temos
os acusadores, a acusada e o Mestre, obrigado a intervir. Em segundo plano a
Casa de Deus transforma-se em tribunal, onde os acusadores querem que prevaleça
a condenação.
Não sei se esta atitude não reflecte um pouco, se não tanto,
da nossa sociedade contemporânea no pior de si mesma: da educação passa-se à
violência, da compreensão à acusação, da notícia ao escândalo. Somos impiedosos
nos nossos juízos morais, sempre prontos a mostrar que há algo de tenebroso no
outro. O outro é adversário porque diferente, não entra nos esquemas
construídos. Diferente pela raça, pela sensibilidade política, pelas escolhas
de vida, etc. Um muro divide gerações, povos, pensamentos, civilizações.
Esta mulher errou, pecou, mas quem a pode julgar? Naquele
lugar, assim como em tantos do nosso mundo, impõe-se a lei e não a presença de
Deus, uma acusação e não a procura de um pensamento de Deus, o mal feito e não
a vida que ainda se pode salvar, o desejo de condenar e não o desejo de se
fazer comunhão.
Oração
Senhor, ensina-me a bendizer.
Tenho nos lábios a crítica pronta,
Vejo de imediato as faltas alheias,
Sou como os garotos acusadores que não amam,
Em vez de ser irmão/irmã fraterno/a e que perdoa.
Ensina-me, Senhor, a falar bem do outro,
A descobri o seu tesouro, a sua melhor parte,
A desculpar com uma ternura como a Tua,
A compreender, pondo-me no seu lugar.
Senhor, tem piedade de mim.
Acção
Hoje procurarei bendizer as pessoas que comigo se cruzarem e
tentarei fugir da rápida acusação caso surja alguma situação menos
compreensível.
Quinta-feira
Palavra
Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que
dizes?” Falavam assim para lhe armarem uma cilada e terem pretexto para O
acusar.
Segundo a lei tal mulher deve ser morta, mas surge uma
controvérsia: como efectuar esse “homicídio”? Lapidação ou homicídio? Uma
mulher sem nome. É uma mulher como outras tantas. Não tem nome nem palavra. Não
fala, não se defende nem se acusa. Permanece em silêncio, à mercê dos seus
acusadores. E Jesus que diz? Como sempre destaca-se pela diferença: não tem
medo do seu pecado, nem isso O impede de se aproximar porque sabe que a pode
renovar. E muito menos não tem medo da prepotência de quem a acusa.
Meditação
Diferente de todos os outros que a acusam, Jesus não diz
nada. Não diz nada porque conhece a fragilidade e o pecado de cada um. É
verdade que o episódio da mulher adúltera coloca-nos diante do pecado: de como
ele é visto e como Deus lida com ele. Por um lado, talvez nos ajude a acolher o
verdadeiro sentido do pecado e a sua gravidade, por outro lado a evitar
procurar fora de uma relação com Deus soluções e remédios que no fim, não tocam
a nossa profunda sede de felicidade e a nossa identidade, nem chegam a
pacificar o coração. Só diante de Deus é que cada pessoa pode ser julgada na
sua mais profunda consciência.
Quando queremos demasiado condenar e nos dirigimos a Deus
exigindo, agimos como aqueles fariseus e escribas cujo objectivo era pôr em
cheque a salvação de Deus. A falta de sinceridade no coração leva à condenação
final. A relação com Deus é uma questão de amor, é mais resposta de amor a um
amor que nos precede, que gera vida por dentro, que procura comunhão. O pecado
é recusar o Amor para encontrar segurança noutros amantes. E infelizmente isto
é de todos: para a mulher adúltera, para as autoridades judaicas e para nós.
Oração
Com confiança e serenidade rezo o salmo 14 (15)
Quem habitará, Senhor, no vosso santuário,
Quem descansará na vossa montanha sagrada?
O que vive sem mancha e pratica a justiça
E diz a verdade que tem no seu coração;
O que não usa a língua para levantar calúnias,
E não faz mal ao seu próximo
Nem ultraja o seu semelhante;
O que tem por desprezível o ímpio,
Mas estima os que temem o Senhor;
O que não falta ao juramento, mesmo em seu prejuízo,
E não empresta dinheiro com usura,
Nem aceita presentes para condenar o inocente.
Quem assim proceder
Jamais será abalado.
Acção
Hoje procurarei não utilizar medidas para julgar ou criticar
quem quer que seja. Exercitarei a paciência e a compreensão segundo o
mandamento do Amor.
Sexta-feira
Palavra
Mas Jesus inclinou-se e começou a escrever com o dedo no
chão. Como persistiam em interrogá-l’o, ergue-se e dissse-lhes: “Quem de entre
vós estiver sem pecado atire a primeira pedra.” Inclinou-se novamente e
continuou a escrever no chão. Eles, porém, quando ouviram tais palavras, foram
saindo um após outro, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher,
que estava no meio.
Perante tal cenário, Jesus opta inicialmente pelo silêncio e
por um comportamento um tanto ao quanto esquisito. Inclina-se e escreve no
chão. Possivelmente os acusadores acharam estranho e de novo voltam à carga.
Jesus levanta-se, é sintectico na sua resposta e de novo opta pelo silêncio,
inclina-se como que esperando uma reacção. No silêncio cada um, a começar pelos
mais velhos, sai e no silêncio permaneceram Jesus e a mulher.
Meditação
Como é diferente o olhar de Deus para connosco. De facto até
poderíamos cair na tentação de querer saber o que Jesus escreveu no chão, mas
não é isso o mais importante. Ele, a Palavra, não fala se não se entra em
comunicação com o seu autor. A Lei foi dada para a vida e não para a
condenação. Ela denuncia e condena o pecado mas nunca o pecador. E Jesus deseja
e quer olhar para o coração e agir a partir do Seu coração. Inclinando-se,
rejeita o papel de juiz e incarna o papel e missão de Deus misericordioso,
capaz de se inclinar sob a pobreza humana.
No templo paira um silêncio, que deve pesar, tanto como as
pedras que deveriam atingir a mulher: “Quem de entre vós estiver sem pecado
atire a primeira pedra.” Quantos mexericos nas nossas conversas para atormentar
a vida dos outros e quanta falta de discernimento para reconhecer os próprios
erros. Se reconhecêssemos mais os nossos erros seriamos mais compreensivos e
misericordiosos. Ninguém pode ser juiz de outro; cada um deve examinar em
profundidade o próprio coração para o apresentar diante de Deus, para que Ele o
liberte da culpa e o salve. Quem não entender o pensamento do Senhor, vai-se
retirando porque incapaz de se abrir ao amor de Deus. A mulher ficou só com
Jesus: ficou a miséria e a misericórdia. Este é também o nosso encontro com
Jesus: entre a nossa pobreza e a grandeza de Deus.
Oração
Senhor,
Eu não quero ser como os escribas e fariseus,
Acusador de meus irmãos.
Mas, muitas vezes, lanço sobre
Os outros as pedras do meu pecado.
Por amor do Teu nome,
Não recordes as coisas passadas
Mas faz nascer em mim
Uma fonte de água viva.
Pai Nosso…
Acção
Hoje farei bem o exame de consciência, meditando e rezando
os seguintes aspectos: sei o que é o pecado e quantas vezes falto à verdade
comigo mesmo e com os outros? Sei viver uma relação autêntica e serena com os
outros? Como cultivo o diálogo com Deus?
Sábado
Palavra
Jesus ergueu-se e disse-lhe: “Mulher, onde estão eles?
Ninguém te condenou?” Ela respondeu: “Ninguém, Senhor.” Disse então Jesus: “
Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar.”
Mais um cenário em que o silêncio é a chave de ouro. Jesus a
sós com a mulher, ergue-se e faz-lhe uma pergunta: afinal ninguém a condenou
com tantas certezas no início e tanta confusão. Onde estão aqueles que a
acusavam?
Só neste momento se “ouve” a voz da mulher, que levanta o olhar
porque interpelada com amor e não com agressividade e condenação. Constata-se
que os acusadores já lá não estão. Talvez ao partir continuem a esconder-se por
detrás dos seus próprios pecados.
Meditação
Num clima de silêncio e de verdade permaneceram quem perdoa
e quem precisa de perdão, quem necessita de reabilitar-se e quem a convida a
viver de um outro modo. Jesus ficou ao seu lado. A nossa miséria só é
transformada e renovada no amor porque, nos curamos no encontro com Jesus, não
como juiz, mas como Salvador e assim iniciamos uma nova vida: “ Nem Eu te
condeno. Vai e não tornes a pecar.”
No anonimato desta mulher estão simbolizadas todas as nossas
enfermidades morais, as nossas traições a Deus, as nossas fugas para bem longe
d’Ele, as nossas posições contra Ele. Somos pecadores, mas também sabemos que
onde quer que estejamos Ele nos espera. No nosso encontro com Ele, a nossa
culpa é perdoada e a sua misericórdia dá-nos energia para continuar o caminho,
em novidade de vida
Este é o Evangelho da verdade de Deus, da frescura da
Igreja. Igreja mais de perdoados do que de justos que acham que não precisam de
perdão. Igreja feita de gente que perdoa porque perdoada, que julga com amor,
sem ferir, ajudando a olhar para afrente. Quando formos capazes de viver este
perdão que nos enche o coração, seremos transparência de Deus para o homem
contemporâneo que só procura o imediato.
Oração
Senhor, quero Contigo perdoar sempre,
Dá-me capacidade de respeitar a fundo,
A empatia de ouvir o outro a partir da sua música interior
E a misericórdia de coração para acolhê-lo como é.
Senhor, quero Contigo perdoar sempre,
E entender os porquês da outra pessoa,
Compreendê-la incondicionalmente,
Devolvendo-lhe a fé em si mesma
E em nossa incondicional musica.
Acção
Deixa-te reencontrar com o amor misericordioso de Deus Pai.
Ir. Anabela Silva fma

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