Retiro - Só o Amor é digno de fé: «Filho, tudo o que é meu é teu!»



Bom dia Pai! Bom dia Jesus! Bom dia Espírito Santo!

Muito obrigada por podermos estar aqui, unidos no vosso Amor, por podermos viver estes dias dedicando-os mais a descobrir esse mesmo Amor, no encontro com cada um de Vocês, nossa primeira família!
Ajuda-nos Senhor a abrir o coração à novidade da Tua Palavra, a deixarmo-nos amar por Ti, a fazer a experiência de filhos queridos, a escutar o convite de amar à Tua semelhança! Só o Amor é digno de fé, mas a fé só é genuína se tiver como fruto o amor.
Um bom dia de retiro para todos, que nos possamos sentir unidos a Deus nesta oração e uns aos outros.
Que Maria, nossa Mãe nos acompanhe e nos ensine a escutar a Palavra de Deus e a fazê-la vida em nós!
Podem ouvir aqui a Palavra de Deus e as pistas para o dia de hoje:

A Palavra de Deus

Jesus disse ainda: «Um homem tinha dois filhos.
O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde.’ E o pai repartiu os bens entre os dois.
Poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua e por lá esbanjou tudo quanto possuía, numa vida desregrada.
Depois de gastar tudo, houve grande fome nesse país e ele começou a passar privações.
Então, foi colocar-se ao serviço de um dos habitantes daquela terra, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos.
Bem desejava ele encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava.
E, caindo em si, disse: ‘Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome!
Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e vou dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti;
já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros.’
E, levantando-se, foi ter com o pai.
Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos.
O filho disse-lhe: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho.’
Mas o pai disse aos seus servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés.
Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos,
porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.’ E a festa principiou.
Ora, o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se de casa ouviu a música e as danças.
Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo.
Disse-lhe ele: ‘O teu irmão voltou e o teu pai matou o vitelo gordo, porque chegou são e salvo.’
Encolerizado, não queria entrar; mas o seu pai, saindo, suplicava-lhe que entrasse.
Respondendo ao pai, disse-lhe: ‘Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos;
e agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo.’
O pai respondeu-lhe: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu.
Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.’»  Lc 15, 11-32


Pistas de Oração:

A Quaresma oferece-nos a oportunidade de nos voltarmos para Deus com todo o nosso ser (é isso que significa “conversão”) e de experimentarmos o seu Amor generoso e misericordioso. É em Jesus onde melhor se manifesta esse Amor e, assim, nestes dias de retiro de Quaresma, vamos olhar muito para Jesus para tentar penetrar no seu Amor e perceber que só este Amor é digno de fé.

Amor generoso (de partilha)

Nesta parábola que Jesus conta, vê-se desde logo o amor generoso do Pai, que, ao pedido do filho mais novo, reparte a herança pelos filhos. Deus não faz contas para dar, não dá só até um certo ponto ou a partir de uma certa altura, quando já não precisa. Deus é aquele que sempre nos surpreende porque dá tudo e dá quando lhe pedimos. Não guarda nada para si. Nós normalmente guardamos alguma coisa porque podemos vir a precisar ou só damos quando já não nos faz falta. Temos medo de dar muito e de que não nos retribuam ou de não sermos reconhecidos. Por isso damos com limites, damos às gotas; e não só no que toca a bens materiais, mas em tempo, atenção ao outro, escuta, entrega, amor, etc.

Deus dá tudo porque dá-se a Ele próprio e fá-lo de uma maneira magistral enviando o seu próprio Filho como homem, Jesus. E este dá-se totalmente em Vida e em Amor, até ao fim, até ao extremo.

Infelizmente este amor continua a ser estranho para nós, porque não o conseguimos viver, apesar de estarmos feitos para ele e de, por isso, nos atrair tanto!

O segredo de Jesus é este: viver descentrado de si mesmo. O seu centro é o Pai e a partir dele, os irmãos. Jesus disse: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz dia após dia, e siga-me… que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, perdendo-se ou condenando-se a si mesmo?” (Lc 9, 23-25).

Na mesma linha nos diz S. Paulo: “Procurai ter os mesmos sentimentos que Cristo, assumindo o mesmo amor… não tendo cada um em mira os próprios interesses, mas todos e cada um exactamente os interesses dos outros” (Fl 2, 2.4).

Amor misericordioso

O filho mais novo quando está longe de casa e a passar mal, pensa que, ao voltar, o Pai o poderá acolher e tratar pelo menos como um dos outros trabalhadores. Nós também temos este tipo de pensamentos, fazemos Deus à nossa imagem, com um amor limitado. Mas Deus quando perdoa fá-lo na totalidade, esquece, apaga tudo, devolve a pessoa ao que ela era e que para Ele nunca deixou de ser: filha! Essa é a dignidade inalienável de cada pessoa.

Os verbos que S. Lucas utiliza aqui para descrever o encontro do filho com o Pai mostram o amor misericordioso deste, um amor impressionante que podemos vislumbrar nos pais e mães terrenos, que anseia unicamente pela felicidade de cada filho: o Pai cheio de compaixão (paixão para com…) corre, lança-se ao seu pescoço e cobre-o de beijos. Depois manda dar-lhe a melhor túnica, o anel e as sandálias, atributos que devolvem ao filho a sua dignidade.

A alegria do Pai não tem tanto a ver com a volta do filho porque assim ‘mata as saudades’ que tem dele, mas com a sua conversão: “vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado”. Mais uma vez o descentramento de Deus: a sua preocupação é que o filho viva de verdade!

O amor misericordioso do Pai manifesta-se tanto para com o filho mais novo, como para com o mais velho. Porque este também está ‘perdido’ apesar de não se ter ido embora de casa. Vive como um ‘escravo’, não como filho. Fica com inveja do outro a quem nem considera irmão. Na verdade, a inveja é um dos grandes males das relações humanas. Porque acontece? Mais uma vez por estarmos centrados em nós mesmos. Olhamos para os outros mas para ver o que têm a mais que nós, porque não somos os mais belos, os mais felizes, os mais… A comparação nesta história está muito bem feita entre dois irmãos. Porque na maioria das vezes a inveja acontece precisamente entre os mais próximos. E vê-se bem isso no momento das partilhas de heranças de família!

O filho mais velho diz ao Pai: “…há tantos anos que te sirvo… e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos”. Discutimos e zangamo-nos pelo cabrito ou até por coisas mais pequenas. Por muito que tenhamos, sempre nos vamos sentir vazios e com pouco se não nos formos enchendo daquilo que é essencial. O Pai diz ao filho mais velho: “Tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu”.

Quando é que começamos a fazer esta experiência de que com Deus temos tudo? De que com Ele, com a experiência do seu Amor, da sua presença de paz, da força e ânimo que nos dá, nada nos falta? Só seremos ricos quando percebermos que nada nos falta porque temos tudo. E isto só acontecerá se soubermos acolher cada dia esta “herança”, estes bens que Deus nos quer dar, que são, o seu amor e a vida na comunhão com Ele.

Por isso o Pai sai a buscar o filho mais velho e suplica-lhe que entre em casa e que participe da comunhão com Ele e com o seu irmão. No fundo, o Pai quer devolver à verdadeira vida, não só o filho mais novo, mas também o mais velho. E o que a ambos lhes devolve a Vida é precisamente este Amor que o Pai lhes faz sentir, um amor ilimitado na dádiva, na entrega e na compreensão, no perdão.

Só o Amor é digno de fé

Como se dizia no princípio, só este Amor é digno de fé. Porque só este salva. E salva porque, ao reconstruir-nos, nos abre a amar à Sua semelhança. Diz o Papa Na sua mensagem para a Quaresma 2013: “A fé radica no coração e na mente a firme convicção de que precisamente este Amor é a única realidade vitoriosa sobre o mal e sobre a morte”. E diz ainda: “O amor ao próximo é uma consequência resultante da fé que se torna operativa pelo amor”. Há uma relação íntima entre a fé e o amor, explica ele nesta mensagem quaresmal. O amor aparece como o fruto principal da fé. Nem faria sentido que fosse doutra maneira, já que esse é o grande mandamento de Jesus aos que acreditam nele.

Se temos fé, somos então convidados a imitar Jesus e o Pai nesse amor generoso e misericordioso, no descentramento e na entrega aos outros. Para isso, como se disse, precisamos (e este é o tempo favorável) de aprofundar a comunhão com o pai, como verdadeiros filhos e a relação de amizade com Jesus, donde nos vem tudo o que necessitamos.

Propostas para viver o dia em retiro:

- Reservar um tempo, de 30m a 1 hora em silêncio, para estar com Jesus e com o Pai. Fazer a experiência de como sou amado/a, reconhecer-me filho/a querido/a, amado/a, desejado/a.

- Pensar como tem sido a minha vida nos ultimos tempos como filho/a de Deus: reconnheço-me como tal, experimento a sua presença? Onde me encontro? Estou longe dele, mesmo estando em casa? Como faço o que me propõe? Vivo cumprindo ordens sem entusiasmo ou faço livremente a sua vontade porque é o que mais me dá Vida?

- Escutar que o pai me diz: filho/a, tudo o que é meu é teu! Sinto que com Ele tenho tudo? Sinto-me agradecido/a? Ou sinto-me vazio/a porque não aproveito o que tenho, não valorizo esse "tudo" que Deus me quer dar, essa herança que está à minha disposição? Ando a mendigar coisas e amor em outros lados?

- Pensar em alguém que se tenha afastado de Deus ou até de mim, alguém que me tenha magoado, alguém próximo que ande perdido e precise de encontrar-se. Como me posso aproximar dessa pessoa? Que gesto me pede o Senhor que tenha, para que ela se sinta amada, perdoada, acolhida? O que posso fazer para que ela reviva? Pensá-lo com o Senhor e tentar pô-lo em prática ao longo desta semana.


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