Um pouco do Pontificado de Bento XVI




(Zenit.orgVanderlei de Lima 



O Papa Bento XVI é um grande escritor, embora, ao contrário de João Paulo II, tenha preferido publicar, às vezes, como teólogo independente e não na condição de Papa, sucessor de Pedro. Tal é o caso da trilogia Jesus de Nazaré que ele escreveu fazendo uma análise da vida de Cristo, Nosso Senhor, à luz da fé ou da chamada exegese canônica.

Contudo, indo ao cerne da colocação, Ratzinger também escreveu bastante na condição de Bispo de Roma e sucessor de Pedro. Além das encíclicas, que tentaremos sintetizar, publicou quatro exortações apostólicas "Ecclesia in Medio Oriente" (A Igreja no Oriente Médio), "Africae munus" (A missão da África), "Verbum Domini" (A Palavra do Senhor) e "Sacramentum Caritatis" (O Sacramento do Amor), mais de cem cartas apostólicas e também mais de cem constituições apostólicas.

A primeira encíclica de Bento XVI foi assinada em 25 de dezembro de 2005 e se inicia com as palavras “Deus caritas est” (Deus é amor). Trata-se, assim como outras atitudes desse Papa, de um corajoso documento, pois focaliza o verdadeiro sentido do amor num mundo que cada vez mais fala em amar e cada vez menos sabe o que esse verbo realmente significa. Reduz-se, não raras vezes, o amor ao ato sexual quase sempre mantido em relacionamentos extraconjugais.

Ora, o Santo Padre mostra que o ser humano, em seu corpo, deseja o Eros (amor carnal), mas o espírito precisa do  Ágape (amor espiritual/fraternal/desinteressado). Este segundo tipo de amor deve complementar o primeiro a fim de assegurar ao homem a superação de sua animalidade garantindo a sua racionalidade e espiritualidade.

Nesse sentido, Jesus Cristo, Nosso Senhor, é o exemplo maior do ágape, pois foi Ele quem primeiro nos amou e nos ensinou, enquanto Igreja, a testemunhar esse amor ao mundo de hoje. A fim de demonstrar que é plenamente possível viver o ágape, Bento XVI termina a sua encíclica citando o exemplo de vários santos que souberam servir desinteressadamente a Cristo e aos irmãos mais necessitados: São Vicente de Paula, São José de Cotolengo, São João Bosco, Santa Luisa Marilac, Madre Teresa de Calcutá etc.

Em 30 de novembro de 2007, quase dois anos depois de “Deus caritas est”, o Papa apresentou a sua segunda encíclica iniciada com as palavras latinas “Spe Salvi” (Na esperança fomos salvos, de Romanos 8,24). Nela, faz uma grande retrospectiva histórica. Mostra que até o século XVI os homens colocavam, sem dúvidas, a sua esperança em Deus. A partir daí, porém, a descoberta de novas terras, com as grandes navegações, e o avanço das ciências fizeram o ser humano colocar Deus entre parênteses para confiar unicamente nas ciências.

Ora, essa não pôde corresponder aos mais profundos anseios humanos ou responder às suas interrogações básicas (De onde vim? Para onde vou? Que sentido tem a vida? O que há para além da morte? etc.), De modo que tivemos, a partir daquele século, o aparecimento de um homem quase sem esperanças, pois só Deus – e não a ciência, embora importante – é a plena resposta aos anseios mais íntimos e naturais do ser humano. Este foi feito para o Senhor e não descansa enquanto não repousar n’Ele, conforme nos ensina Santo Agostinho de Hipona, falecido em 430.

A terceira e última encíclica de Bento XVI, assinada em 29 de junho de 2009, versa sobre o social com título “Caritas in veritate” (A caridade na verdade) e tem, segundo o estudioso Javier Echevarria, um enfoque multidisciplinar, pois nela “se entrelaçam as dimensões da teologia e da filosofia, da antropologia e economia, da sociologia e da psicologia, para esboçar a problemática do mundo de hoje em seus aspectos externos e internos ao homem, com realce para a ética econômica” (Antônio Carlos Santini em resenha do artigo Caritas in veritate: por uma economia solidária. Atualização n. 342, jan-fev. de 2010, p. 83-88)). Sua grande mensagem é a de que amamos o próximo, mais eficazmente, na medida em que trabalhamos pelo bem dele em suas reais necessidades. Não só em nível pessoal, mas também institucional. Daí, defender o Papa uma economia solidária alicerçada na ética que leve ao bem comum do ser humano trabalhador (quase sempre visto apenas como consumidor) e não à busca insaciável de lucros por parte de grupos empresariais que, se não fiscalizados, menosprezam até certos direitos trabalhistas básicos.

O mundo globalizado há de voltar o seu olhar para o homem e para a mulher do século XXI que têm fome e sede de justiça e devem encontrar na grande fonte da Doutrina Social da Igreja – e não em outras escolas – um alento e uma força transformadora, na teoria e na prática.

Eis o que, muito sinteticamente, poderia ser dito sobre as três encíclicas de Bento XVI que merecem ser lidas integralmente, no silêncio e na oração.

Podemos dizer que todos os discursos do Santo Padre são importantes, pois, mesmo quando fala apenas como grande teólogo merece muita atenção do povo de Deus pela riqueza espiritual do que ele diz.

Acreditamos, porém, que será útil notar, como, aliás, fazemos em nosso livro “Papa Bento XVI: aspectos polêmicos de seu pontificado”, a sair em abril, que Joseph Ratzinger foi muito criticado por alguns veículos de comunicação que se encarregavam de distorcer e transmitir distorcidamente as suas falas. Lembramos, em especial, de um caso, ocorrido com a Exortação Apostólica “Sacramentum Caritatis”. Nela, o Santo Padre disse, em italiano, que o divórcio é uma “piaga” na vida da sociedade. Ora, órgãos de imprensa se apressaram em dizer, estupidamente, que o Papa se referiu ao divórcio como uma “praga” na vida social.

Desmentimos isso por meio da revista Refletindo, e agora pelo livro, explicando que ao referir-se ao divórcio, o n. 29 do Documento, no original italiano, usa o termo piaga que, em português, se traduz por CHAGA e não praga que seria, no italiano, peste. Aliás, quem observa um bom dicionário de Latim encontra o substantivo feminino Plaga, AL com sentido de “golpe, pancada que fere, ferida, CHAGA” que, provavelmente, deu origem ao termo piaga no italiano (Dicionário Latino-Português. 7ª ed. José Cretella Junior e Geraldo de Ulhôa Cintra, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956).

Outros discursos de Bento XVI que também causaram polêmicas foram especialmente três, o que é bastante para cerca de oito anos de Pontificado: o primeiro foi o proferido no Campo de Concentração de Auschiwitz de em que ele repete a angustiada pergunta do povo: Onde estava Deus? – Ora, retirando o texto do contexto, acusaram o Santo Padre de ter blasfemado, pois parecia duvidar do Pai celeste.

Na verdade, o Papa repetiu o grito do povo, reproduzido por escritores diversos, para responder-lhe que não cabe a nós julgarmos a Deus, em momento algum, mas, ao contrário, nesse grito ao Senhor devemos olhar para nós mesmos a fim de tentarmos entender também a nossa responsabilidade frente aos trágicos acontecimentos da história.

A aula-magna em Regensburg foi outro motivo de ataques ao Romano Pontífice. Disseram que, ao citar um diálogo de Miguel II, o Paleólogo, com um erudito persa, Bento XVI estava desrespeitando o Islamismo e Maomé, o seu profeta. Teve o Santo Padre que explicar, em nota posterior, que ele fez apenas uma citação ilustrativa sem se comprometer com a ideia do autor citado. Os ânimos se serenaram e pouco depois, o Papa esteve na Mesquita de Istambul, na Turquia onde entrou descalço, não por relativismo religioso, mas, sim, por respeito à cultura religiosa islâmica.

Em 2007, o Papa deveria proferir também uma palestra (aula-magna) na Universidade de La Sapienza, na Itália, mas a cancelou devido a protestos de um pequeno grupo de alunos e professores contrários a todos os que pensam diferentemente deles.

A razão alegada era de que o Santo Padre tinha criticado Galileu quando cardeal-presidente da Congregação para a Doutrina da Fé. Isso era outra distorção: quem criticou Galileu não fora Ratzinger, mas, sim, o filósofo da ciência Paul Feyerabend, apenas citado pelo então cardeal. Os contestatários, professores e alunos, de La Sapienza nem sabiam o que diziam sobre Galileu Galilei, mas estavam convictos de que o Papa não poderia visitar uma universidade laica, embora tenha sido fundada pelo Papa Bonifácio VIII, em 1303. É a democracia desses radicais dos nossos dias.

Em aspecto positivo, lembramo-nos de suas verdadeiras aulas nas audiências gerais das quartas-feiras, discursos e homilias que constituem ricos mananciais de teologia e espiritualidade. Todas foram importantes e certamente estão sendo reunidas para serem publicadas em livros que devemos ler com atenção, ainda que a própria Librerie Editrice Vaticana disponibilize esses textos em português no site da Santa Sé, em ordem seqüencial, e Zenit também os tenha reproduzido, ao menos em boa parte.


Bento XVI foi, mais de uma vez, acusado de cumplicidade nos casos de pedofilia dos clérigos e religiosos que abusaram de seus fiéis e chegou até a ser ameaçado de processo judicial por um advogado norte-americano sensacionalista. O fato caiu no vazio por falta de provas.

A respeito, gostaria de notar duas coisas: 1) o jornalista Leandro Sarmatz, após estudar bem o tema “pedofilia”, declara: “Nos Estados Unidos, cerca de 80% dos casos de abuso sexual de crianças ocorrem na intimidade do lar: pais, tios e padrastos são os principais agressores. O noticiário da TV alardeia o escândalo dos padres pedófilos [...], mas o grosso dos casos acontece mesmo dentro da casa”. Para ilustrar o que disse, Sarmatz cita o caso escabroso de uma menina de 13 anos abusada pelo avô. “Detalhe: suspeita-se que o avô, na verdade seja pai da menina, pois anteriormente ele mantivera relações sexuais com a mãe dela e filha dele” (Superinteressante, maio de 2002, p. 40); 2) os tão alardeados casos de pedofilia cometidos por padres nos Estados Unidos somados em várias décadas não passavam de 0,3% dos religiosos.

Na Irlanda, os padres pedófilos somam 43 em 49 anos, número insignificante (deveria ser quase nulo), embora causem alarde por serem os sacerdotes ministros de Deus e grandes responsáveis pela defesa da inocência das crianças. Tais ocorrências, devidamente comprovadas, não podem ser toleradas nem pela Igreja e nem pelo Estado.

A ocorrência de casos de pedofilia na Igreja é, portanto, real, pois, embora santa, a mãe-Igreja traz em seu seio filhos pecadores ou mesmo doentes mentais. Todavia, a solução para esses casos está na espiritualidade retamente vivenciada, na formação séria do dever assumido e na punição dos errantes, não no matrimônio do clero – até porque, como já foi visto, a vida sexual ativa não impede a prática da pedofilia. A imensa maioria dos casos ocorre nos lares.

Voltando, porém, à Ratzinger, vemos que os casos foram enfrentados, de modo sereno, mas destemido, seja enquanto ele era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, seja na condição de Papa, sucessor de Pedro. Afrontou os casos mais dolorosos e os resolveu, convocou à tolerância zero com os pedófilos, encontrou-se com vítimas de clérigos pedófilos em Malta, em 2010, e jamais deixou de tratar com severidade tal comportamento a ponto de ser elogiado pela revista Veja, de 22 de fevereiro último.

Vê-se que Joseph Ratzinger pode, a justo título, ser considerado um grande batalhador na defesa da fé e da moral católica, moral que, evidentemente, condena e combate a pedofilia e, por isso ele a seguiu à risca fazendo, como pôde, uma verdadeira faxina entre os poucos clérigos e religiosos pedófilos que mancham a maioria séria e cumpridora fiel de sua missão de anunciar o Reino de Deus entre os homens.


Gostariamos de lembrar, a título de finalização deste trabalho, um breve depoimento do cardeal-carmelengo (que cuida da Igreja na vacância da Sé de Pedro) e também secretário de Estado do Vaticano, Dom Tarcísio Bertone – bastante criticado por órgãos de imprensa –, a respeito de Bento XVI.

Com efeito, dizia ele à revista italiana Trinta Dias, de março de 2007, versão online, que Ratzinger é um homem fabricante de amigos. “A amizade com Deus, antes de tudo, e depois também a amizade humana e fraterna aprendida na escola de Santo Agostinho, para o qual a amizade deve ser cimentada ‘pela caridade difundida em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado’ (Confissões IV, 4,7)”.

Enquanto guardião da fé, Bento XVI é alguém que se deixa transparecer na clareza de sua doutrina, numa nobreza de linguagem sempre elevada e, ao mesmo tempo, numa eficaz capacidade de persuasão. Também a escolha do nome Bento é muito apropriada a Joseph Ratzinger. Afinal “Quem de fato, mais que Bento de Núrsia, encarna essa síntese entre contemplação e ação que ofereceu uma resposta válida à grande crise da passagem entre o Império Romano e o que viria a ser a Europa”.

Por isso, para conduzir a Barca de Pedro, “depois do Papa Wojtyla, que a introduziu no vasto oceano do terceiro milênio, Deus chamou, em 19 de abril de 2005, Joseph Ratzinger, humilde e corajoso ‘servidor da vinha do Senhor’, como chegou a dizer tão logo eleito, suave e forte ‘cooperador da verdade’, como reza seu brasão episcopal’.

Essas palavras do cardeal Bertone devem ficar gravadas em nossos corações para sintetizar o pontificado de Bento XVI que terminou com sua renúncia, concretizada oficialmente no dia 28 de fevereiro último, após quase oito anos de pontificado.

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