A cruz faz parte da nossa vida. E não só esta cruz que
assumimos porque queremos seguir Jesus. Também aquela cruz que a vida nos dá.
Na nossa vida há mesmo dois tipos de cruzes:
- aquelas que “nos caem do céu” e que são alheias à nossa
vontade (desemprego; pobreza; doença; morte; desastre; etc.)
- E aquelas que assumimos voluntariamente pelas escolhas que
fazemos na vida que vivemos e queremos viver. Porque não há decisão sem cruz.
Não há maternidade sem noites mal dormidas; não há opções de partilha económica
sem que tenhamos de abdicar de alguma coisa; não há vontade de viver a harmonia
sem ter de calar e/ou de ceder; etc.
Ambas fazem parte da vida e a ambas temos de assumir e
integrar se queremos seguir Jesus. É Ele quem no-lo diz: “Se alguém quiser vir
Comigo.
O que fazer para seguir Jesus?
2.º tome a sua cruz (para mim trata-se de assumir e integrar
as cruzes da minha vida, sejam elas quais forem. Sou eu que tenho de carregar a
cruz e não ela de me carregar, ou mesmo esmagar, como tantas vezes acontece, a
mim)
3.º e siga-Me (trata-se de seguir Jesus e não de seguir-me a
mim mesma, àquilo que eu quero e que acho bem, por melhor que possa ser)
Pergunto-Te, Jesus, como posso “tomar” a minha cruz?
Escreve Dario Mollá, sj, em La espiritualidade Ignaciana
como ayuda ante la dificuldad”
a) Cuidar da minha interioridade
Cultivar, constante e permanentemente, a minha interioridade
e espiritualidade para ir criando “forças de reserva”. Na verdade, o impacto de
uma mesma dificuldade numa pessoa depende muito de como esteja interiormente
essa pessoa
b) Rever o meu modo de estar e de me situar na vida
Há muitas cruzes que resultam ou são potenciadas por um
ritmo de vida inadequado, que é aquele
que valoriza umas dimensões da vida em prejuízo de outras que também precisam
de cuidado e atenção. Ex: se sou desorganizada, estou sempre atrasada e acabo
por não conseguir cumprir com aquilo a que me comprometo; se tenho uma doença
crónica e não descanso o que devo, porque a televisão ou os livros são uma
irresistível tentação, sinto-me mais cansada e com mais dores; se sou orgulhosa
e não gosto que me ponham em causa, vou criar relações difíceis e/ou
conflituosas cada vez que recebo uma critica
c) Perseverar com confiança, na cruz
Fazer memória de todos aqueles momentos em que fizemos
experiência de que Deus sempre está e nunca nos abandona. Essa memória é apoio
e segurança nos nossos momentos mais difíceis.
d) Viver a cruz como momento de auto conhecimento
Compreender que somos o que realmente somos: nem o muito que
gostaríamos de ser ou que poderíamos ter sido, nem o pouco que pensamos ser
quando nos sentimos mal. Aqui abre-se-nos o caminho da aceitação lúcida,
equilibrada e serena do que somos; aceitação esta que só é possível se
soubermos colocarmo-nos ao colo do Senhor, no enorme carinho que Ele tem por
cada um de nós.
e) Viver a cruz como um momento que nos abre a perguntas. As
perguntas são fundamentais pois são elas, quando sabemos acolhê-las e conviver
com elas, que nos conduzem à verdadeira transformação, ao Homem Novo. E essa
transformação será maior quanto menos pressa tivermos em responder às questões
que o Senhor nos coloca nestes momentos. Temos de aprender a aceitar a pergunta
e a conviver com ela todo o tempo que seja necessário, até que sintamos que a
resposta nasce verdadeiramente do coração e o pacifica.
Gosto muito deste momento de Jesus no Evangelho de S. João:
“Mas Jesus, inclinando-Se para o chão, pôs-Se a escrever com o dedo na terra.”
Jesus não responde logo. Sabemos que há muitas teorias sobre este gesto de
Jesus, o Seu silêncio e o Seu escrever no chão. Mas a mim ajuda-me pensar que
Ele não tem pressa em responder a uma pergunta fundamental e cuja resposta
acarreta uma mudança total de mentalidade.
Jesus está num momento difícil (estão sempre a procurar
apanhá-Lo), surge uma pergunta, que sabemos ser fundamental, e Ele não tem
pressa em responder. Acredito que Ele responde apenas quando a resposta vem do
Seu coração e O pacifica. Demore o tempo que demorar…
Mas, nós temos tanta pressa em sair do que nos custa, do que
nos faz sofrer.
Por isso sempre pedimos ao Pai para nos salvar destas nossas
cruzes. Mas, a verdade, é que não sabemos se foi precisamente para estas
cruzes, para estas horas, que viemos. Não sabemos o bem e a vida que podem
nascer destas nossas cruzes. Não conhecemos os caminhos do Pai – “Mas,
precisamente para esta hora é que Eu vim!”
Oração
Senhor, ajuda-nos a tomar assim as nossas cruzes.
Porque queremos seguir-Te.
Porque sabemos que senão morrermos não daremos fruto.
Porque queremos estar aí, onde Tu estás e sabemos que a cruz
é o caminho para esse lugar, a cruz é o caminho da Vida.

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