Carta ao Papa Francisco da Federação Latino-Americana de Padres Casados





Estimado Papa Francisco:
Nós, sacerdotes católicos casados e/ou laicizados, juntamente com as nossas esposas, pertencentes ao continente latino-americano, dirigimo-nos a Vossa Santidade por ter sido escolhido pelo Espírito para conduzir a Igreja de Jesus, o Povo Santo de Deus.
Antes de mais, queremos cumprimentá-lo e felicitá-lo afectuosamente por ter sido eleito pelo Colégio de Cardeais como Bispo de Roma, para presidir na caridade a todo o Povo de Deus, e desejar-lhe um ministério petrino muito fecundo.
Como protagonistas da nossa história e testemunhas da Fé na América Latina, temos uma grande esperança de renovação para a nossa Igreja, da qual somos parte através do sacramento do Batismo; porém, com a consciência de que um dia também fomos ungidos com o sacramento da Ordem, vivendo-o a partir de uma vida simples, em casal ou não, formando uma família ou em solidão, assumindo, em muitos casos, a paternidade biológica, comprometidos com a nossa Fé em diversos campos da vida secular.
Sabemos que os gestos que Vossa Santidade está a realizar são sinais de uma Igreja que precisa de mudar, dando resposta aos momentos históricos que se sucedem e continuando a dar a razão da nossa esperança.
Certamente que estas mudanças propostas por Vossa Santidade aos batizados e a todo o mundo não serão uma tarefa fácil e requererão, acima de tudo, o compromisso de todos e o tempo necessário para poderem ser concretizadas.
É por isso que também queremos informar que a Federação Latino-Americana é um Movimento Profético que aspira desde a sua criação a propor mudanças nas estruturas da vida da Igreja Católica.
Este movimento de carácter internacional foi criado por um dos seus irmãos bispos já falecido, Monsenhor Jerónimo Podestá, ao qual Vossa Santidade deu assistência, quando era Cardeal na Argentina, com amor fraterno, nos últimos instantes da sua existência. Este gesto será sempre recordado, tanto pela nossa Presidente Honorária como por todos os que integramos esta Federação, por essa atitude pastoral para com um Bispo que se encontrava suspenso “a divinis” por estar comprometido em construir uma Igreja segundo as diretrizes do Concílio Vaticano II e especialmente por divulgar a Encíclica Populorum Progessio.
Queremos, de igual modo, expressar-lhe que não estamos contra o celibato, mas a favor de um celibato opcional que possa, com o tempo, ser modificado como lei do C.I.C.; bem como da participação da mulher num lugar de protagonismo e não num papel subalternizado nos órgãos de decisão da Igreja, da renovação dos ministérios pastorais, da vivência de uma comunidade de crentes com maior simplicidade, sem ostentar títulos honoríficos, sem privilégios económicos e sociais, ao jeito das primeiras comunidades cristãs, que foram proféticas, sendo mais fraternas, mais humildes e mais evangélicas.
Lembramos o que ficou expresso na Declaração Final do VII Encontro da Federação Latino-Americana, realizada em Buenos Aires, Argentina, de 21 a 24 de setembro de 2011, que transcrevemos a seguir:
«… Nestes tempos, em que vivemos mais do que uma época de mudança, uma mudança de época cujo sinal são as profundas transformações sociopolíticas, culturais, tecnológicas e económicas, que afetam principalmente as gerações jovens; em que estamos em vésperas da celebração do 50.º aniversário da abertura do Concílio Ecuménico Vaticano II (1962) e em que acabámos de começar a implementar o cumprimento do acordado na Conferência de Aparecida:
1. Comprometemo-nos a aprofundar uma espiritualidade forte e radical centrada na Palavra de Deus, particularmente nos Evangelhos, mediante a multiplicação de encontros com pessoas, famílias e grupos, onde fortaleçamos a nossa Fé, avivemos a nossa Esperança e intensifiquemos a nossa Caridade, deixando-nos conduzir pelo Espírito Santo, sempre presente na história pessoal e coletiva dos que crêem em Jesus, que está no mundo e Se manifesta por meio dos sinais dos tempos.
2. Renovamos o nosso compromisso de cristãos e de ministros ordenados, de viver e exercer a nossa participação na Missão de Jesus para a realização do seu Projecto; a partir de uma Humanidade alicerçada no seu Evangelho, devidamente contextualizado na solidariedade, na justiça e na paz, privilegiando a opção preferencial pelos mais pobres e oprimidos.
3. Propomo-nos desenvolver uma comunicação permanente, respeitosa e fraterna com toda a comunidade de crentes e os seus ministros, ao mesmo tempo que renovamos a nossa disposição de a servir, para o que desejamos promover e intensificar caminhos de “relações de fraternidade e colaboração mútua” (D.A. n.º 200).
4. Reafirmamos a nossa pertença aos organismos supra continentais que nos unificam como grupo e convocamos os nossos pares latino-americanos que ainda vivem isolados a juntar-se aos nossos grupos nacionais e locais.
5. Manifestamos a nossa abertura a grupos de causas similares e a todos os que se sentem identificados com os nossos objetivos, a fim de juntar esforços em prol do bem comum, com um autêntico compromisso social e político.»
Com a confiança de saber que estamos em comunhão espiritual através das nossas orações e das nossas esposas e familiares que pertencem a esta Federação, despedimo-nos solicitando a bênção paternal de Vossa Santidade.
Clelia Luro de Podestá
(ARGENTINA)
Presidente honorária vitalícia da Federação Americana.

Teresa de la Torre e Lauro Macías Raygoza
(MÉXICO)
Casal Presidente da Federação Americana.

Natalia Bertoldi e Guillermo Schefer
(ARGENTINA)
Casal vice-presidente da Federação Latino-Americana.

Oscar Varela
Secretário da Federação Latino-Americana.
31 de março de 2013

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