Entrevista de João Tavares a Milena Andrade




Milena Neves de Andrade (MNA), estudante de Jornalismo em Campinas (SP) solicita a João Tavares (JT), do MFPC, uma Entrevista para uma reportagem, para fins acadêmicos, "sobre o veto da ordenação de mulheres na Igreja Católica e o papel delas nas outras comunidades religiosas".

MNA: A atividade de "ministro da palavra" na religião católica permite que pessoas da comunidade possam presidir celebrações e disseminar a palavra de Deus oficialmente. Porém a autoridade de consagrar não é aceita. Quais foram as atitudes para que o movimento "padres casados" conseguisse a liberação para celebrar a missa?

JT: Você quis perguntar porque nós padres casados não podemos celebrar os sacramentos. É verdade. Mas, se o papa quiser, isso pode mudar. Muitos padres casados, se o papa e os bispos quisessem, voltariam de bom grado ao ministério sacerdotal completo. E estão muito bem preparados para isso. Em geral são homens sérios e de fé. Alguns colegas, por tanta vontade de exercer o ministério, foram para outras igrejas: anglicana, vétero-católica, ortodoxa, etc.
Temos alguns casos de bispos que convidam padres casados a celebrarem e até a assumirem paróquias, mas são raros. não é segredo Mas sei também que hoje, no Movimento das Famílias dos Padres casados (MFPC), esse não é o único foco, nem o principal.
Batemos muito mais nas teclas de uma Igreja aberta, no estilo desejado pelo Concílio Vaticano II, com o celibato opcional, não obrigatório. E por um clero a serviço do povo e muito mais sério em valores humanos e mais bem formado espiritual, afetiva, intelectual e pastoralmente.
Infelizmente, não é segredo que a formação geral do clero no Brasil está muito fraca.

MNA: Como a Igreja se manifestou diante dessa mudança? E a sociedade?
JT: Não sei se entendi sua pergunta. Se se refere a como nós padres casado somos vistos, respondo o seguinte:
* Os bispos nos respeitam, mas nos temem e, em geral, nos evitam. Somos incómodos, uma areia no sapato deles. E uma presença e voz proféticas e incómodas. Sabem que somos bem formados, homens sérios e que, numa comparação com os atuais padres novos, eles perdem feio em praticamente todos os aspectos. Como me dizia um bispo amigo: "João, você sabe que não se fazem mais padres como os do nosso tempo".
Alguns bispos gostariam do nos aproveitar na pastoral mas, salvo raras e boas exceções, são carreiristas e têm medo de enfrentar as ordens e orientações de Roma que, até agora, nos considera, de fato, abaixo dos leigos e nos quer humilhar. Praticamente, pessoas a serem evitadas. Se você tivesse acesso ao Rescrito (documento com que o Vaticano dispensa o padre de seus deveres de Ordem e do celibato), você iria estranhar muito a dura linguagem usada com quem, com amor e competência serviu o Povo de Deus durante tantos anos.
Por essa sua falta de coragem e independência perante a cúria romana, os bispos não fazem nada para aproveitar nossas muitas capacidades e nossa disponibilidade. Conheço professores ateus, etc., no seminário. Mas padre casado não pode ensinar lá. Têm medo do contágio...
* Os padres, alguns poucos agridem, outros são cordiais, mas omissos, outros, muito poucos, são capazes de um diálogo aberto e de um acolhimento fraterno de iguais, irmãos no sacerdócio.
* O povo cristão? Em geral nos respeita. E estaria preparada para que nós voltássemos ao ministério. Muitos lamentam o não aproveitamento na Igreja, de gente tão bem preparada e que dá bom testemunho de vida.

MNA: Em relação às mulheres, quais os obstáculos existentes para que elas não tenham direito à ordenação? Há registros de líderes femininas em religiões como a Anglicana ( originária na Inglaterra). Quais explicações, baseada em fundamentos religiosos,  que esclareçam o porquê das mulheres serem afastadas do poder de consagração?

JT: Não há argumentos bíblicos ou teológicos, sociológicos ou antropológicos sérios para excluir as mulheres dos Ordens sagradas. Só uma velha tradição, a meu ver antibíblica e profundamente machista.
A Igreja, por motivos filosóficos de origem platônica e agostiniana (um neo-platônico tardio e um misógino inveterado), nunca lidou bem com o corpo, o sexo e a libido. Por isso afastou a mulher de qualquer autoridade na Igreja... até hoje.
Como tem sido governada sempre por uma gerontocracia indefinidamente autorreprodutivas, está difícil mulher ter vez.
A não ser que o novo papa resolva começar a mudar a sério e que a cúria romana o deixe fazer isso, acho que não vai ser fácil mudar esse quadro. Mexeria a fundo com a organização sócio-político-jurídica da hierarquia. E mexeria muito com o conceito de autoridade patriarcal e até com a economia da hierarquia... Repare que falo em hierarquia, não em Igreja, pois a Igreja é todo o Povo de Deus, do qual a hierarquia faz parte e cuja maior vocação é servir bem a Igreja. Não dominá-la.
Os Anglicanos e outras igrejas chamadas "evangélicas" já têm sacerdotisas e bispas.

MNA: Você acredita que a visão feminina poderia mudar os problemas que encontramos hoje na igreja católica, como por exemplo a pedofilia?
JT: Acredito que sim. Não só a pedofilia, mas também a grande atual onda de homossexualidade no clero e a quebra sempre mais ampla do celibato, como demonstram estatísticas em vários países. Mais ainda: com as mulheres no poder de Ordem igual aos homens, muita coisa pode melhorar na Igreja católica. A Hierarquia se esquece que Deus fez Adão e Eva, um para completar o outro, pois nenhum deles é perfeito, completo.

MNA: Com o avanço e conquista de espaço na sociedade, é viável pensar que daqui a alguns anos, elas também poderão chegar ao cargo mais alto da Igreja Católica?

JT: Com certeza. Acho isso possível, necessário e muito desejável. A Igreja como um todo só tem a ganhar com isso.

MNA: Para a reportagem, João, precisarei de seus dado pessoais para creditar de forma correta:

JT: João Correia Tavares
Filosofia e Teologia, na Europa (Portugal e Itália).
Casado com Sofia, filósofa e teóloga como eu, duas filhas e uma neta.
Português, 46 anos de Brasil, sempre no Maranhão.
Aposentado da UFMA, área de Filosofia, com destaque em Ética e Estética.

E-mail de Milena Andrade: milena.neves.andrade@gmail.com

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