A reflexão é de Raymond Gravel, padre da arquidiocese de Quebec, Canadá,
publicada no sítio www.lesreflexionsderaymondgravel.org
comentando as leituras do 2º Domingo de Páscoa (7 de abril de 2013).
A tradução é de Susana Rocca.
Referências bíblicas:
1a leitura: At 5,12-16
2a leitura: Ap1,9-13.17-19
Evangelho: Jo 20,19-31
É Deus que liberta mas, ao mesmo tempo, ele precisa de nós para fazê-lo. É toda uma responsabilidade, que não fica reservada aos Onze somente, pois são todos os discípulos reunidos que recebem essa missão. Mas por que esta narrativa da Páscoa? Que mensagens devemos reter?
Os evangelhos do tempo da Páscoa tradicionalmente se consideram de São João. Após a descoberta do túmulo vazio, na manhã da Páscoa, por Maria Madalena, Pedro e o discípulo que Jesus amava, no mesmo dia, já à noite, São João nos conta da aparição do Ressuscitado aos discípulos que estavam com medo para lhes confiar a missão de libertar as pessoas: “Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados” (Jo 20,23). Os verbos na voz passiva significam que é Deus que liberta mas, ao mesmo tempo, ele precisa de nós para fazê-lo. É toda uma responsabilidade, que não fica reservada aos Onze somente, pois são todos os discípulos reunidos que recebem essa missão. Mas por que esta narrativa da Páscoa? Que mensagens devemos reter?
1. A importância de estar reunidos
O que São João quer primeiro nos dizer é que a fé não se vive a sós: “Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt 18,20). Por quê? Simplesmente porque para encontrar a Cristo, precisamos encontrar o outro, os outros que nos falam da presença de Cristo. É no outro, nos outros, que podemos reconhecê-lo. E como prova: São João nos diz que, quando estavam reunidos na primeira vez, na noite da Páscoa, Tomé não estava com eles: “Tomé, chamado Gêmeo, que era um dos Doze, não estava com eles quando Jesus veio” (Jo 20,24). Tomé, o Gêmeo, precisa o evangelista, nosso gêmeo... Ele nos representa bem, pois também não estávamos na hora do primeiro encontro.
Os outros discípulos falaram: “Nós vimos o Senhor!” (Jo 20,25); eles não dizem Jesus, mas Senhor, então, o Ressuscitado. Ausente nesse primeiro encontro, Tomé exige provas: “Se eu não ver a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos, e se eu não colocar a minha mão no lado dele, eu não acreditarei” (Jo 20,25). Não é um pouco a nossa atitude, ainda hoje, em relação à fé cristã? Nós abandonamos o encontro e fazemos a nossa pequena busca pessoal do Ressuscitado. Isso nos orienta em duas direções diferentes e opostas ao mesmo tempo:
1ª direção: Tornamo-nos ateus porque falamos para nós: "isso é absurdo". Se Cristo tivesse verdadeiramente ressuscitado, o mundo não estaria como está: as guerras, os conflitos, a fome, as epidemias, as mortes, a exploração dos pequenos, as exclusões, as condenações, as doenças, os sofrimentos, a morte... todo isso não existiria mais; ao contrário, continua como antes. Se Cristo tivesse verdadeiramente ressuscitado e se a Páscoa fosse o começo de um mundo novo, poder-se-ia enxergar. No entanto, tudo está como antes...
2ª direção: Tornamo-nos iluminados; temos o nosso Cristo próprio. Ele nos pertence. Nós sabemos que o encontramos pessoalmente... e nos tornamos gurus para os outros. Quantas seitas religiosas foram fundadas desta maneira por iluminados?
Então, São João continua: “Uma semana depois (no domingo seguinte), os discípulos estavam reunidos de novo. Dessa vez, Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: ‘A paz esteja com vocês’” (Jo 20,26). No fundo, mesmo que a comunidade reunida estivesse fechada sobre ela própria, por medo (com as portas trancadas), Cristo se faria presente na reunião, e aí, Tomé iria fazer a experiência. Mas de que maneira?
2. A cruz: sinal de ressurreição
O que João quer nos dizer é que não dá para separar o Ressuscitado do Crucificado: ele é a mesma pessoa. O que significa que não é possível viver a Páscoa sem antes passar pela Sexta-Feira Santa, e isso é válido para todos. Na época que São João escreveu seu evangelho (final do século 1), havia perseguições sanguentas dos cristão, a rejeição, a humilhação, a exclusão, o ódio, as divisões, etc. Isso faz parte da realidade da sua comunidade. É, então, através dos discípulos perseguidos, rejeitados, humilhados, condenados, excluídos, que Tomé vai encontrar e reconhecer o Crucificado Ressuscitado. Através deles e delas, Tomé percebe que as marcas da paixão e da cruz não se apagaram pela luz da Páscoa; elas se tornaram sinais de ressurreição mesmo.
Por outro lado, no contexto histórico que é o nosso, não há talvez as mesmas perseguições como aos cristãos de João, mas a doença, o sofrimento, as provas, a exclusão, a rejeição e a morte fazem sempre parte da nossa realidade humana. Páscoa não os apagou. Podemos nos recusar a acreditar: isso não muda em nada a nossa finitude humana! Mais isso reduz a esperança! É por isso que a fé não pode ser uma certeza, pois a fé não muda em nada a nossa realidade humana com seus limites, suas fragilidades e suas pobrezas. A fé não pode ser mais que uma esperança... Mas que esperança! Pois ela faz da cruz um sinal de ressurreição, uma passagem (Páscoa) de libertação: da morte surgiu a vida. São João acrescenta: “Jesus realizou diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes sinais foram escritos para que vocês acreditem que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, vocês tenham a vida em seu nome” (Jo 20,30-31).
3. O Cristo vivo somos nós
Lembremos a mensagem que as mulheres receberam no túmulo, na manhã da Páscoa: “Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que está vivo?" (Lc 24,5). Se ele está vivo, como está? Só pode está-lo através dos discípulos. Não é por nada que na noite da Páscoa os discípulos reunidos foram recriados, como no primeiro dia da criação, por Cristo, pelo seu sopro, pelo seu Espírito: “Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: ‘Recebam o Espírito Santo” (Jo 20,22). Eles se tornaram ele próprio, o Ressuscitado, e, doravante, é por eles que ele pode falar e agir. Eles são seu corpo: “Foi ele quem estabeleceu alguns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas e outros como pastores e mestres. Assim, ele preparou os cristãos para o trabalho do ministério que constrói o Corpo de Cristo. A meta é que todos juntos nos encontremos unidos na mesma fé e no conhecimento do Filho de Deus, para chegarmos a ser o homem perfeito que, na maturidade do seu desenvolvimento, é a plenitude de Cristo” (Ef 4,11-13).
Na primeira leitura de hoje, nos Atos dos Apóstolos, o autor, São Lucas, nos diz claramente que bem no começo da Igreja Cristo agia verdadeiramente por intermédio dos Apóstolos: “Chegaram ao ponto de transportar doentes para as praças, em esteiras e camas, para que Pedro, ao passar, pelo menos a sua sombra cobrisse alguns deles” (At 5,15). Imaginem a força e o poder dos cristãos: a sombra projeta no chão pelo discípulo é suficiente para curar alguém. Temos, hoje, esta mesma convicção? É, ainda, a missão que foi confiada, não somente ao Papa, aos bispos e aos padres, mas a todos os cristãos que colocam a sua esperança no Cristo da Páscoa.
Para terminar, eu gostaria simplesmente vos partilhar esta bela reflexão do exegeta francês F. Tricard, nos registros da Bíblia # 27, que respondia à seguinte pergunta: Será que há provas da Ressurreição? Tricard escreve: “Não há mais que uma realidade historicamente constatável: uma comunidade de discípulos se forma após a morte de Jesus e sai anunciar a um mundo cada vez mais e mais amplo e distante a impressionante notícia: esse homem de Nazaré, Deus o ressuscitou e fez Senhor e Cristo. Não há outra prova que essa comunidade dos começos que vive, dele e por ele, uma vida nova, e que cresceu como a árvore da semente de mostarda, segundo a parábola do Mestre. A melhor evidência, por mais pobre que seja, são os cristãos”.

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