No Vaticano há dificuldade de falar de “rompimento”. Essa
palavra é banida na Igreja. Mesmo assim, há olhos que se levantam para os céus
ante o gosto do papa Francisco por
“novidades”.
Na primeira semana, a atitude nova do papa era “muito
compreensível”. Aquele arcebispo argentino ainda era tal, embora tendo se
tornado o 266° papa da história.
Na segunda semana, muitos achavam que ele não podia
continuar assim. Que poderia muito bem começar a “comportar-se como o Papa”.
Que é o seu “trabalho de papa”, deixando perder os “seus gostos e suas opções
pessoais”. Mas a terceira semana confirmou tanto o espírito livre quanto o
caráter e a determinação desse homem. Não se deixará puxar pela manga. Quer
fazer evoluir o sistema. Assim, as coisas sérias começam hoje e prosseguirão no
verão. O mundo está fascinado, mas o Vaticano está em estado de choque!
1. Uma visão diferente da
autoridade papal?
Ao recusar-se a usar a palavra “papa” que pronunciou
raríssimas vezes, Francisco diz muito sobre
sua visão do papado. É o “bispo de Roma”. Ele nunca deixa de insistir nisso.
Portanto, não é uma afetação de linguagem. É “pontífice romano” no sentido de
edificador de pontes em direção “à periferia”. Os “outros” são os “que não
creem” ou que vivem uma outra fé religiosa. Ele insistiu, por exemplo, três
vezes sobre a importância das boas relações com oIslã. Poder-se-ia avançar
nesta fórmula: Bento XVI foi um papa do
interior da Igreja Católica, Francisco deseja
voltar-se para o exterior.
Mas não é sua preocupação pastoral em tocar as almas e os
corações de todos e, em particular, dos mais distantes, que se torna um
problema. Na verdade, esse impacto vem sendo elogiado. Os cardeais escolheram
deliberadamente esse jesuíta “de choque” para despertar a Igreja a esse
respeito.
O que se interroga é sobre o seu novo modo de exercitar a
autoridade papal. Não deseja pôr-se acima, mas “no meio” de seus irmãos bispos.
O primeiro entre eles, visto que é bispo de Roma, mas no sentido do serviço.
“Quem está mais no alto deve estar a serviço”, confidenciou aos jovens menores
da prisão de Roma, dos quais lavou os pés na Quinta-Feira Santa.
Alguns já veem uma “dessacralização” da função, enquanto
outros, mais fora da Igreja, estão tranquilizados por esse desenvolvimento. Uma
diferença de orientação mais forte do que parece, dado que o sistema eclesiástico
é fortemente centralizado e hierarquizado ou, pelo menos, tudo andava nesse
sentido no transcorrer dos últimos anos. Mas o papa Francisco não é dessa
opinião. Como jesuíta inteligente, está pilotando com tato essa “normalização”
da função papal, mas não é certo que todos os que o elegeram haviam previsto
tal inversão de tendência.
2. Uma mudança de atitude exterior, também na liturgia?
No pequeno mundo eclesial, há padres amantes das belas
liturgias e outros que atribuem importância menor ao fato de celebrar a missa
de forma perfeita. “Não é um liturgista”, diz-se quando alguém que, mesmo sendo
um bom padre, não segue ao pé da letra todos os detalhes litúrgicos. Até do
Papa Francisco se diz em Roma
que “não é um liturgista”. Ao contrário de seu predecessor, Bento XVI, que o era. Não
tinha então reintroduzido a forma do rito antigo – dizer a missa em latim,
segundo o missal de João XXIII – agora
admitido como forma extraordinária?
Não celebrava ele mesmo em latim, com as costas voltadas
para o povo, na sua capela privada com respeitoso cuidado? Mesmo em comparação
com o pontificado de João Paulo II, as cerimônias e
os paramentos pontifícios assumiram, sob Bento XVI, muito maior rigor,
amplitude e magnificência.
Papa Francisco – já o mostrou
com seu modo um tanto interior, mas também muito despojado, de celebrar a missa
– não se sente muito confortável com uma certa pompa vaticana. Ter desejado,
por exemplo, manter desde a sua chegada, a sua veste litúrgica branca e a sua
simples mitra de arcebispo é um sinal. Talvez superficial aos olhos de muitos,
mas Bento XVI passou o seu
pontificado – e também a sua vida como bispo e cardeal – a corrigir alguns
“excessos litúrgicos” que considerava “uma simplificação e profanação” que
arriscavam, segundo sua opinião, minar a própria essência da fé católica. No
entanto, parece claro que o Papa Francisco, embora tendo a
mesma profundidade de homem de Deus do seu predecessor, não o seguirá no âmbito
litúrgico. Não é verdadeiramente esse o seu caminho.
3. Uma mudança de política na
interpretação do Concílio Vaticano II?
Em dezembro de 2005, o papa Bento XVI marcou o seu
pontificado com um “discurso à Cúria Romana” no qual explicou sua intenção de
pôr termo à aplicação do Concílio Vaticano II (1962-1965),
“interpretada” como um rompimento com a mais antiga tradição da Igreja
Católica. Para promover, ao contrário, uma reconciliação entre tradição e
modernidade. Assim fazendo, Bento XVI defendeu um
retorno à carta do concílio. E combatia abertamente aqueles que, na Igreja, –
começando pelo clero e por um bom número de bispos –, não tinham jamais
verdadeiramente considerado a “carta”, atendo-se somente ao “espírito do
concílio”. Ou seja a “abertura da Igreja para o mundo” dessa reforma católica.
Não obstante todas as precauções oratórias ouvidas nesses
dias no Vaticano com o objetivo de minimizar essa diferença, ao que parece, sem
exagero – e considerando as tomadas de posições precedentes do cardeal Bergoglioem suas redes de
amizade –, a cultura do novo papa é fortemente inspirada pelo “espírito do
Concílio”...
Durante os primeiros escrutínios do conclave 2005, que
elegeu o papa Bento XVI, ele foi apoiado
pelo cardeal jesuítaMartini e por um grupo,
dito “progressista”, que incluía o cardeal belga Danneels. Alguns haviam até
mostradoBergoglio como o
candidato “anti-Ratzinger”. Uma atitude que o jesuíta, hoje papa, refutava
profundamente. Pôs-se em um nível diferente. Sabe-se, por outro lado, que, para
o conclave deste ano, esse argentino não era absolutamente o candidato do
“apartamento”... Em outras palavras, do papa que sai, mal o conhece.
Mas foi eleito papa, por sua vez, contra todas as
probabilidades. Deverá lidar com a situação, assumindo ao mesmo tempo a grande
responsabilidade “política” de guiar a Igreja Católica. É claro que não é um
teólogo famoso, mas, sim, um pastor excepcional. Não deveria preocupar-se com
as sutilezas “da carta” e “do espírito” do Concílio Vaticano II, mas
procurar aplicá-lo especificamente para trazer o rebanho ao redil. Trabalhando
em particular, em direção à “periferia” da Igreja e não nas sacristias. E
pedindo um olhar da América Latina, resolutamente otimista, sobre o mundo tal
como é.
4. Mudança no governo da Igreja: quando e como?
Reina uma atmosfera especial no Vaticano. Muitos sentem
bem que a era Bento XVI está passando,
mas que a era do seu sucessor está cheia de incertezas, não sobre a qualidade
da pessoa e ainda menos sobre seu carisma, mas sobre as decisões concretas que
tomará. Muitos acreditam que essa questão da reforma da cúria começará “antes
do verão”.
Mas a ousadia das declarações mordazes do padre Cantalamessa, pregador oficial
da Casa Pontifícia, na Sexta-Feira Santa, na Basílica de São Pedro, diante do
Papa e de toda a Cúria Romana, não tranquilizaram.
Citando Kafka, exortou a Igreja a não
se tornar um “castelo complicado”. Afirmou que “o excesso de burocracia, os
resíduos de cerimoniais, leis e controvérsias passadas” – os “impedimentos que
podem reter o mensageiro” – tornaram-se “agora apenas detritos”. E que “é chegado
o momento” em que precisa haver “a coragem de abater” os “muros divisórios de
salas e quartos pequenos” para “restaurar ao edifício a simplicidade e a
linearidade de suas origens”. A sua conclusão atingiu como um raio: “Foi a
missão que recebeu um dia um homem que orava ante o crucifixo de São Damião, em Assis: ‘Vá,
Francisco, e repara a minha Igreja’.” Para bom entendedor…
Jean-Marie Guénois, em Le Figaro

Comentários
Enviar um comentário