A fé vive de afeto

«Milagre é o encontro. Tão necessário como a água. Tão precioso como os poços no deserto. 

Nós que nos multiplicamos em infinitos contactos, não é fácil nem frequente que nos encontremos, tantas são as indiferenças e os cálculos, os desacertos e os desenganos com que desenhamos as nossas relações. Mesmo as mais próximas. 

Fazemos quase tudo e damos tanto para nos atrairmos mutuamente. Mas, logo que nos aproximamos, já não nos suportamos. Sobretudo, não suportamos o-espaço-aberto-entre-nós, esse lugar que precede e que excede, a ti e a mim, sem ser propriedade tua nem minha, para implicar a ambos em algo maior e, ainda, inédito.

Ou demasiado tímidos ou demasiado arrogantes. Sempre que os meus interesses não suportam a tua diferença, forço-te a que te dissolvas em mim. Ou, então, sempre que a intensidade da tua diferença apaga a minha autonomia, rendo-me a ti e confundo-me em ti. Tão facilmente te conquisto como me apago. Tão rapidamente te prometo amor quanto te declaro guerra.

Porém, entre-o-tanto-e-o-tão-pouco-que-somos, o milagre acontece. E acontece sempre que nos reconhecemos reconhecidos.

Quero dizer, sempre que reconheço que o que existe de mais verdadeiro em mim me é restituído pelo espaço de humanidade que se abre entre nós. E não tenho que me anular diante de ti. 

É na disponibilidade que manifestas em dar-me tempo, o tempo de que preciso para percorrer as minhas distâncias, que me reconheço reconhecido. 

E na palavra que me dás para que eu possa dizer-me, sim, porque não poderia ter consciência de mim e do dom que a vida é se não narrasse o meu próprio caminho e as direções que tomei, ainda que, tantas, tenham sido erradas. 

E, também, no lugar que me cedes para que eu assuma, de novo, o meu próprio lugar, à medida e ao ritmo das minhas possibilidades.

Quando me reconheces no que sou – e não me exiges que finja ser o que não sou –, sou eu que reconheço com gratidão o quanto já me foi dado e, sobretudo, o que ainda poderei ser. 

No teu reconhecimento, vivo. Entre-tanto, aprendo a reconhecer que, assim, Deus se me vai revelando.

Não estranhemos, pois, que Jesus diga tanto de si nos encontros que vive entre nós. Uns, inesperados, como que por acaso. Outros, improváveis, mas desejados e desenhados ardentemente. 

Jesus, o reparador dos encontros em falta, o desenhador de encontros a haver. O Filho revela-se, assim, um homem entre homens e mulheres: judeus e samaritanos, dos nossos e dos que não são como nós.

Poderá a fé no Filho de Deus encarnado ser menos que esta graça imensa de nos reconhecermos reconhecidos no dom da vida que corre entre nós?

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