Por P.e PETE
HENRIOT, SJ
In revista Além-Mar, maio de 2013, pp.
16-23.
Direitos e responsabilidades
Neste ponto, os leitores devem estar
a perguntar a si próprios: «Então o que é que este “segredo mais bem guardado”
realmente nos ensina?» Sem oferecer um curso de seis meses sobre a doutrina
social da Igreja, deixem-me sugerir cinco principais categorias de
ensinamentos, que podiam muito bem ser chamados «pilares» da doutrina social da
Igreja, porque na verdade sustentam todos os múltiplos ensinamentos deste rico
acervo de sabedoria social. Estes cinco pilares não dizem tudo, mas abrem para
a plenitude da doutrina social da Igreja.
Decerto que o primeiro pilar é o reconhecimento
da dignidade de cada mulher e homem que nasce neste mundo. Todos,
independentemente de sexo, raça, cor, condição social, religião ou outra
distinção, têm igual dignidade, porque todos somos criados à imagem e
semelhança de Deus. (Gn 1:27) Na base desta dignidade fundamental de cada
pessoa correm todas as discussões e mandatos sobre os direitos humanos, todas
as estruturas da justiça e da equidade, todos os esforços para mostrar o
respeito por cada pessoa.
Mas porque cada pessoa tem dignidade
inerente, a consequência necessária não é só o respeito pelos direitos, mas
também de expectativa de responsabilidades. Isto significa que tenho a
responsabilidade de respeitar e promover os direitos dos outros. A outra mulher
ou homem que encontro têm os mesmos direitos que eu tenho. Assim como eu espero
ser tratado pelos outros em termos de igualdade e justiça, assim também os
outros esperam o mesmo de mim. Não só no tratamento pessoal, como também em
relação às leis, aos costumes e às trocas comerciais.
Prioridade à comunidade
O segundo pilar da doutrina social
da Igreja está intimamente relacionado com o primeiro. Nós somos feitos à
imagem e semelhança de Deus e o nosso Deus é uma comunidade de três pessoas.
Por este motivo, a doutrina social da Igreja enfatiza a prioridade da
comunidade. O individualismo não é uma virtude cristã! A solidariedade
que marca a boa comunidade implica o reconhecimento, um avanço e um reforço dos
laços que temos com muitos outros que permitem a cada um de nós atingir o nosso
pleno potencial como seres humanos. A promoção da paz é, naturalmente, da mais
alta prioridade.
Este é realmente o significado do
termo africano ubuntu: «Eu sou porque nós somos, e nós somos porque eu
sou.» Ou «a pessoa é uma pessoa através de outras pessoas».
Com a solidariedade, vem outra
consequência do valor de comunidade da doutrina social da Igreja que é o
conceito de subsidiariedade. Isto significa simplesmente que o que pode
ser feito no nível mais básico da sociedade, por exemplo, em família ou na vizinhança,
deve ser aí feito e não levado para um nível superior. Mas o que não pode ser
efectivamente feito num nível inferior deve então tornar-se de facto
responsabilidade das autoridades superiores, por exemplo, o governo. Este
princípio da subsidiariedade é essencial para o bom funcionamento interno de
uma comunidade. Ele desempenha um grande papel na definição de posições
políticas tomadas por várias partes em relações democráticas.
Atenção aos pobres
A opção pelos pobres é o
terceiro pilar da doutrina social da Igreja. Isto é algo muito evidente no
discurso bíblico, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Isto implica que
devemos avaliar tanto o intercâmbio pessoal como a política social, perguntando
o que está a acontecer como consequência para os pobres na nossa sociedade.
Apesar de não ignorar as necessidades dos que não são pobres, devemos pôr maior
ênfase nas necessidades das pessoas à margem da sociedade, aquelas que muitas
vezes são esquecidas, excluídas e exploradas na sociedade.
O quarto pilar alarga o seu
horizonte da doutrina social da Igreja, enfatizando o respeito pela integridade
da criação. Este é um apelo ao reconhecimento de que todos nós, os seres
humanos, somos membros da maior comunidade da criação. Por consequência, temos
a responsabilidade de proteger os sistemas de plantas, físico e animal com o
qual estamos tão integralmente relacionados. As preocupações ambientais e
ecológicas são fundamentais para a doutrina social da Igreja, apesar de terem
vindo a ser mais explicitamente reconhecidas somente nos últimos anos.
A este ponto da descrição dos
fundamentos da doutrina social da Igreja, pode-se perguntar como tudo isto se
relaciona com a ênfase de Jesus na centralidade do amor. Bem, esse é de facto o
quinto pilar da doutrina social da Igreja, o reconhecimento de que a plenitude
do amor exige justiça estrutural. Não há conflito, não há competição entre
o amor e a justiça, apenas uma ligação essencial e indispensável entre os dois.
Não há justiça, no seu sentido mais amplo, sem amor ao próximo, não há amor na
sua forma mais verdadeira sem compromisso com a justiça social para todos.

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