Por P.e PETE HENRIOT, SJ
In Além-Mar,
maio de 2013, pp. 16-23.
O Cristianismo tem uma tradição e princípios de acção social, económica
e política que, se praticados, podem ajudar a superar crises como a que estamos
a viver: um tesouro escondido a descobrir pelos cristãos e a ter em conta pelos
agentes sociais e políticos.
Já alguma vez ouviu a expressão «o
segredo da Igreja Católica mais bem guardado» e perguntou a si próprio o que é
que isso pode significar? Talvez alguma revelação particular? Ou,
possivelmente, os nomes de santos desconhecidos? Ou talvez um novo sacramento?
Ou (esperemos que não!) algum grande escândalo, passado ou presente! Bem,
desculpem, o «segredo mais bem guardado», em muitas conversas da Igreja nos
dias de hoje, não diz respeito a nenhum desses temas. Pelo contrário, aponta
para algo que é muito mais importante, concreto.
Segredo desconhecido
O «segredo mais bem guardado» é a
descrição que frequentemente se faz da doutrina social da Igreja, aos
ensinamentos que nos ajudam a viver os valores do Evangelho no nosso dia-a-dia
como seguidores de Jesus Cristo. Sim, a doutrina social da Igreja é a rica
colecção de instruções, explicações, conselhos, advertências, estímulos e
desafios que permitem ao cristão ser uma pessoa responsável nos dias que
correm.
Esta doutrina social da Igreja toca
em temas como as responsabilidades dos cidadãos e a orientação para o voto, a
relevância de salários justos numa economia de mercado, a dignidade e o papel
da mulher na sociedade, o respeito pela vida em todas as suas fases, o cuidado
que devemos ter com as preocupações ecológicas da actualidade, o compromisso
com a paz em situações locais e globais, a promoção do desenvolvimento
socioeconómico, que deve ser sensível às necessidades dos pobres.
Então, porque é que um conjunto tão
rico, tão útil para viver a nossa fé é um «segredo», em especial o segredo
«mais bem guardado»? Suponho que uma resposta a essa pergunta é que a doutrina
social da Igreja nem sempre foi vista como essencial para os catecismos com que
temos crescido. Na verdade, a maioria de nós, católicos, provavelmente sabe
mais sobre doutrina sexual do que sobre a sua doutrina social!
«Não cometerás adultério» – sim, já
ouvimos isso! Mas «deverás pagar salários justos», isso é novo...!
Felizmente, os desenvolvimentos
contemporâneos na Igreja Católica estão a tornar menos possível chamar à
doutrina social da Igreja «o nosso segredo mais bem guardado». Os papas
recentes – João XXIII, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e agora o Papa
Francisco –, todos têm dado grandes contributos para o corpo de documentos da
doutrina social da Igreja. Bispos em todo o mundo têm falado sobre como a
doutrina social da Igreja toca as nossas vidas no dia-a-dia. O grande volume de
O Catecismo da Igreja Católica (que apareceu pela primeira vez em 1992)
tem explicações muito claras sobre alguns dos fundamentos da doutrina social da
Igreja.
O que é?
Então, o que é esse «ensinamento
social da Igreja» e onde pode ser encontrado? Bem, a primeira coisa a dizer é
que a doutrina social da Igreja é um corpo ou uma colecção de sabedoria social.
«Sabedoria» num sentido bíblico é algo que ilumina a mente e move o coração.
Sabedoria não é apenas um encontro intelectual de conhecimentos que esclareçam
a situação social, antes uma ajuda a um sentimento que solicita acção. Basta
ler sobre as formas como a sabedoria é descrita no Antigo Testamento, por
exemplo, na oração de Salomão: «Dai-me a sabedoria para governar o mundo com
santidade e justiça» (Sb 9, 3).
Com esta sabedoria da doutrina
social da Igreja, somos instruídos sobre a pessoa humana a viver na sociedade,
com direitos individuais e responsabilidades sociais. Aprendemos que não somos
apenas pessoas que existem isoladas, mas seres sociais que florescem nas
interacções com os outros, sobretudo quando promovemos o bem comum. E chegamos
a perceber que a nossa vida é vivida ao máximo ao promover valores como a
reconciliação, as estruturas como a família, e práticas como a igualdade de
tratamento de todos.
A doutrina social da Igreja é algo
que contribui para uma vida humana completa, porque os seus ensinamentos
centrais enfatizam que cada mulher e cada homem é espiritual e material. Esta
ênfase da doutrina social da Igreja leva, por exemplo, a definir
«desenvolvimento» não apenas em termos económicos (por exemplo, crescimento do
PIB), mas como um movimento de condições menos humanas para condições mais
amplas, em todas as formas possíveis, na vida económica, política, social,
religiosa, ambiental e cultural.
É muito importante, quando falamos
sobre a doutrina social da Igreja, fazer sobressair que a mensagem está fundada
no mundo de Deus, isto é, na Bíblia. O Antigo Testamento e especialmente o Novo
Testamento estão cheios de ensinamentos sobre a dignidade da pessoa humana, a
necessidade da comunidade humana, a riqueza da criação de Deus para todas as
pessoas e a preocupação especial em relação aos pobres.

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