Por BENITO DE MARCHI, Missionário
comboniano
In Além-Mar,
maio de 2013, pp. 24-29.
«Vinde, Espírito Santo, e renovai a face da Terra», é a oração da Igreja
na celebração do Pentecostes, que este ano tem lugar a 19 de Maio. A missão
cristã no mundo alimenta-se desta invocação ao Espírito, que guia a comunidade
cristã e orienta os caminhos do Evangelho no mundo.
O Evangelho de S. João diz-nos como,
depois da morte de Jesus, os seus discípulos se fecharam em casa, dominados
pelo medo. Jesus apareceu-lhes, comunicou-lhes o Espírito Santo e enviou-os
para fora, para o mundo, a levar a boa nova da reconciliação (João 20, 1923).
De maneira semelhante, os Actos dos Apóstolos começam a sua narrativa da
primeira missão cristã falando-nos dos discípulos, reunidos numa casa, desta
vez em oração. E, de repente, a casa estremeceu, abanada por alguma coisa
semelhante a um vento forte vindo do céu. Os discípulos, transformados pelo
fogo do Espírito Santo, saíram da casa e foram capazes de falar nas línguas das
muitas pessoas que os ouviram (Actos 2, 1-11). No Pentecostes, a babel da
incomunicabilidade foi superada pelo evangelho da reconciliação.
Nova criação
Nestas duas narrativas, do evangelho
de João e dos Actos dos Apóstolos, é usada uma linguagem metafórica, que nos
envia para a Natureza: respiro, vento, força, fogo. Sugere-se que um acto de
recriação, de nova criação, acaba de ter lugar: o Espírito de Deus continua a
extrair, a criar um mundo novo a partir do «caos» original, um mundo segundo o
desígnio de Deus. Isto é, também e exactamente, o que Jesus proclama no começo
da sua missão, em Nazaré: «O Espírito do Senhor está sobre mim; ele me ungiu
para levar a boa notícia aos pobres; ele me enviou para proclamar a libertação
aos cativos, dar a vista aos cegos, libertar os oprimidos, iniciar o ano de
graça do Senhor» (Lucas 4, 18-19). Os Actos dos Apóstolos comentarão depois:
«Deus ungiu Jesus de Nazaré com Espírito Santo e poder; e ele realizou sinais,
curou e libertou os oprimidos pelo maligno» (Actos 10, 38).
Espírito para a missão
Na narrativa do dia de Pentecostes,
como noutras (4,23-31; 8,14-17; 10,44; 13,1-4) os Actos dos Apóstolos fazem ver
como o dom do Espírito Santo para a missão foi recebido pela comunidade dos
discípulos e acolhido na oração, na invocação e no louvor. A comunicação do
Espírito, num contexto de forte expectativa e acolhimento, faz ver que a missão
é, em primeiro lugar, uma iniciativa de Deus e não dos discípulos. A missão
resulta desta misteriosa presença e acção do Espírito de Deus no mundo e nas
pessoas, tem que ver com esta acção de Deus que recria o mundo segundo o seu
sonho, plano, original. A missão é assim um Pentecostes continuado. A primeira
comunidade cristã em missão é uma comunidade em contínua invocação ao Espírito;
uma comunidade que invoca e vive aberta à iniciativa do Espírito, que entra na
sua vida, lhe dá forma e crescimento desde dentro, a estrutura em todos os
aspectos e dimensões da sua vida, a guia para fora numa acção de libertação e reconciliação
que renovam o mundo.
Missão de Deus
O movimento missionário ecuménico
redescobriu a missão cristã como «missio Dei», isto é, como missão de Deus,
através da experiência de ausência de poder e da destruição que se seguiu à
Segunda Guerra Mundial. Desde então, aumentou entre os cristãos a consciência
de que o Espírito de Deus está em acção no mundo, por caminhos e em modos que
vão para além das fronteiras de cada igreja.
A Igreja Católica, pelo seu lado,
também fez um semelhante caminho de redescoberta da missão como acção de Deus e
do Seu Espírito. O Concílio Vaticano II vê a igreja e a sua missão nascer da
fonte do amor de Deus Pai e realizar-se «na missão do Filho e do Espírito
Santo» (Ad Gentes, 2). E numa nova perspectiva, ainda mais alargada, a
Constituição sobre a Igreja no Mundo Moderno diz que «o Espírito de Deus, numa
maravilhosa providência, dirige o curso dos tempos e renova a face da terra» (Gaudium
et Spes, 26).
Esta referência do Vaticano II à
acção do Espírito Santo na missão foi depois desenvolvida nos documentos do
magistério que se seguiram, particularmente na Evangelii Nuntiandi
(1975) e na Redemptoris Missio (1990), onde o Espírito Santo é
apresentado como o sujeito principal da evangelização, que «põe em movimento a
nova criação, a nova humanidade» que são também a meta da evangelização (EN
75).
Espírito e Igreja
A existir uma convergência entre o
caminho feito pelo movimento ecuménico e pela Igreja Católica, na compreensão
da missão, esta encontra-se na crescente consciência de que é o Espírito Santo
que constitui a Igreja e guia a missão, e não o contrário. A Igreja não dispõe
do Espírito a seu bel-prazer, mas invoca o Espírito confiando que a sua oração
seja ouvida: «Enviai o vosso espírito e renovareis a face da Terra!»
Para a Igreja em missão, isto
implica trilhar os caminhos da humildade e entrar numa atitude de receptividade
e de expectativa, que contrastam com atitudes de domínio e conquista. Isto
representa também uma experiência libertadora que alimenta a confiança e abre a
um futuro rico de surpresas, mesmo em tempo de crise: superando os limites
históricos do passado, enfrentando as dificuldades do presente e as incertezas
do futuro, a Igreja experimenta que a missão está nas mãos de Deus que é sempre
um Deus de surpresas, capaz de novos recomeços.
Modelada pelo Espírito
Como é que a redescoberta do
Espírito Santo como protagonista da missão regenera a imaginação e a
criatividade missionárias, relança o zelo e transforma a metodologia
missionária? Como é que muda o rosto da missão cristã no mundo?
Ir em missão não é simplesmente
aventurar-se num mundo alheio à presença de Deus. Mesmo se hoje, em muitas
partes do mundo e por um lado, o «assunto Deus» em si mesmo parece ter
desaparecido da consciência humana, por outro lado e em muitas situações
dramáticas ouve-se cada vez mais forte o grito «Oh Deus, onde estás?» O
Espírito de Deus permeia toda a criação e guia a Igreja em missão: «Descalça as
sandálias, porque o lugar em que estás é santo» (Êxodo 3,5). A missão cristã
não é uma cruzada: manifesta-se, sim, como acto de fé, um acto de
reconhecimento e adoração de Deus como mistério já presente nos tempos e
espaços da História. O ponto de partida da missão cristã é a certeza da
presença universal e da acção do Espírito Santo. Isto é assim, mesmo na crise
do tempo presente e faz dela também um tempo favorável.
Missão como peregrinação
Com o Espírito como principal
sujeito de missão, esta torna-se descoberta dos lugares onde e dos modos em que
o Espírito actua; torna-se uma aventura pelos caminhos do Espírito. A missão é
uma caminhada, uma viagem de descoberta dos rastos da presença e da acção do
Espírito no mundo; uma acção paciente que junta os fragmentos de um mosaico que
está no processo de ser criado e cuja composição final só por Deus é conhecida.
Essencial para a missão cristã é, por conseguinte, uma atitude de contemplação
da História, de escuta, de capacidade de entender os acontecimentos da
História, desde dentro e desde fora da vida da Igreja, tanto acontecimentos
religiosos como seculares, como sinais da revelação que Deus vai fazendo de si.
Deixada de lado a ideia de missão
como envio para levar Deus a um mundo aonde Ele não está, ou não está
suficientemente conhecido, a missão torna-se uma caminhada ao encontro de Deus:
uma peregrinação. O que caracteriza um peregrino, em relação a qualquer outro
viajante, é que o peregrino caminha à procura de algo de que já teve uma
experiência, já encontrou uma antecipação; o peregrino é atraído por algo que
já «viu e ouviu, tocou» (1 João 1, 1-4). O mesmo acontece com a peregrinação
cristã, que é a missão: é a experiência de Deus, mediada pelo encontro com
Jesus Cristo, que é a fonte que alimenta a caminhada. A história de Jesus é a
bússola, a estrela de orientação, e o critério para o discernimento dos
acontecimentos e dos espíritos, de modo que seja possível reconhecer, na
complexa rede da criação e dos acontecimentos humanos, o tapete do reino de
Deus que o Espírito Santo está a tecer.
Conversação global
A presença e actividade do Espírito
no mundo fazem da missão cristã uma «co-peregrinação», uma conversação global
num contexto de mútua hospitalidade. Para poder descobrir, nas situações da
vida, os caminhos do reino de Deus e a poder juntar-se ao trabalho do Espírito Santo
no mundo, a Igreja missionária tem de forjar e nutrir relações com «os outros»
e fazer com eles um caminho comum de intercâmbio cultural e religioso. A
proclamação do Evangelho adquire, assim, a forma de uma «história partilhada»:
um escutar o Espírito, escutando-nos reciprocamente, nas próprias diversidades.
A narração do Evangelho cresce, desse modo, tornando-se uma narrativa aberta
que interage com as inúmeras e concretas experiências das diferentes pessoas e
culturas.
Ao longo desta peregrinação comum, a
missão cristã revela-se como uma conversação global. «Global», no sentido que
envolve as várias confissões cristãs, as religiões e as culturas, juntamente
com todas as forças seculares que operam nos processos de transformação social.
«Conversação», no sentido em que, ao contrário de «diálogo», a conversação
permite integrar mais parceiros em diferentes modos de comunicação e é mais
indicadora de uma dimensão de acolhimento, mais sugestiva de uma comunidade de
vida e de sentimentos, segundo um dinamismo de hospitalidade recíproca.
Desta maneira, em vez de ser um
caminho em sentido único, a missão cristã torna-se um movimento em dois
sentidos, num dar e receber, numa circularidade entre missão aos povos (ad
gentes) e missão entre os povos (inter gentes), como sugeriu a
Federação dos Bispos da Ásia.
Espírito de profecia
Nas Sagradas Escrituras, nem sempre
o Espírito é descrito como «brisa suave». O Espírito pode manifestar-se também
como vento furioso, tempestade arrasadora. O Espírito, que é Dador de Vida, tem
de confrontar um mundo ameaçado por uma cultura e mecanismos de morte; tem de
desmascarar os sistemas e estruturas de dominação para abrir caminhos de
liberdade e criatividade, para a chegada do reino de Deus. Ao longo de todo o
Antigo e Novo Testamentos, o Espírito de Deus manifesta-se como Espírito de
profecia, em palavras e actos, na procura de justiça e no combate de todas as
barreiras sociais e religiosas. O mesmo Espírito, que conduziu Jesus com força
para varrer o templo, que o levou a superar as distinções rituais entre puro e
impuro para chegar até àqueles que eram excluídos na sociedade do seu tempo,
guia a primeira comunidade cristã a superar as barreiras que separavam judeus e
gentios e cria um movimento que gera no mundo uma renovada fraternidade, uma
maneira nova de viver e partilhar a fé e os bens (Actos 2 e 4).
Caminho de compaixão
O Espírito transforma a missão
cristã numa caminhada de «com-paixão» com os pobres e os oprimidos. A cruz de
Jesus prova que a missão do Espírito actua a partir das margens da sociedade; a
boa nova é proclamada aos pobres. A «conversação global» na procura dos sinais
da presença do Espírito tem de, então, começar com os últimos e desde os
últimos; a eles foi revelado o segredo do reino (Mateus 11,25); e por eles o
Espírito fala e concede a Sua graça, que liberta oprimidos e opressores. No
estilo e no seguimento de Jesus, a missão cristã não só tem de falar a
linguagem do amor e da compaixão de Deus pelos pobres e excluídos, como tem de
ser, antes de mais, uma peregrinação solidária com eles.
Justiça ecológica
A consideração sobre o Espírito
Santo, presente na criação como dador de vida, alarga o horizonte da missão até
incluir o respeito e a defesa da natureza como templo cósmico de Deus. Como já
vimos, a missão como conversação global assume uma dimensão de louvor a Deus,
como peregrinação em conjunto em direcção a Deus. E, como defesa da criação e
de uma justiça ecológica, a missão torna-se liturgia cósmica, a celebração da
«comunidade eucarística da criação» (Jurgen Moltmann). Não se trata de promover
uma sacralização da criação, mas sim de reconhecer que tudo aquilo que existe é
um dom de Deus e, como tal, tem o seu próprio carácter sagrado que, quando
reconhecido e respeitado, promove o sentido da dignidade humana e em nada a
diminui.
Fraternidade aberta
A descoberta do Espírito Santo como
o principal sujeito da missão cristã leva a uma revisão de toda a eclesiologia
onde a Igreja seja o centro dominante. A atenção ao Espírito Santo sublinha a
posição «ex-cêntrica» da Igreja, como comunidade que tem o seu centro fora de
si mesma, como comunidade que é o primeiro fruto e sinal da nova criação que o
Espírito Santo está constantemente a realizar. Como sinal, «sacramento», a
Igreja está presente no meio dos povos e das nações para ser a evidência,
encorajadora e desafiadora, daquilo que o Espírito faz no mundo. Neste sentido,
a Igreja está ao serviço do Espírito e das pessoas, desempenhando um papel de
interpretação e de provocação, sendo «luz e sal», como Jesus diz (Mt 5, 13-16).
A Igreja
tem a responsabilidade de verificar e interpretar os sinais dos tempos, para
ajudar as pessoas a fazerem o mesmo, atraindo-as à luz que brilha no Evangelho.
A Igreja faz isso pela sua palavra e pelo seu testemunho de vida. E da mesma
maneira que o mundo é transformado pelo Espírito, também a Igreja é modelada
desde dentro pelo Espírito, para ser sinal da Sua presença e acção no mundo.

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