Deus ama os pecadores



A Igreja que Jesus quer é uma Igreja de discípulos sempre prontos a levar as suas cruzes, seguindo o Mestre (domingo passado), e a acolher nos braços os  pecadores que estavam perdidos, mas que reencontraram a vida.

A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 24º Domingo do Tempo Comum (15 de setembro de 2013). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara, e José J. Lara.

Referências bíblicas:
1ª leitura: Êxodo 32,7-11.13-14
2ª leitura: 1Timóteo 1,12-17 
Evangelho: Lucas 15,1-32 ou 1-10

A alegria de Deus

O pastor que perdeu uma ovelha, ou melhor, de quem uma ovelha se perdeu, a mulher que perdeu uma moeda de prata e o pai que foi abandonado pelo filho, todos são personagens que, seguramente, representam Deus, o grande perdedor. Quem recupera a ovelha, a moeda ou o filho perdido? É evidente que o próprio Deus. As três parábolas insistem na alegria de quem encontrou o seu bem. Concordo, em se tratando de um pastor, de uma dona de casa ou de um pai humano; mas, e no caso de Deus? Muito se falou de que Deus era impassível, incapaz de sofrer ou de alegrar-se e que não tinha necessidade dos nossos louvores... Mas as Escrituras não estão de acordo com esta concepção de Deus. Desde as primeiras páginas do Livro, vemos Deus irritar-se, apaziguar-se e passar por todos os sentimentos que conhecemos. Claro que os sentimentos humanos são apenas uma figura do que se passa em Deus, mas uma figura não deixa de ter pertinência. Nos evangelhos, vemos Jesus, o «ícone do Deus invisível», aprender, decepcionar-se, ser tomado de admiração, chorar... Resumo: Jesus, em quem Deus se revela, está bem longe da impassibilidade. Além disso, quando o evangelho diz haver alegria no céu por um só pecador que retorne para Deus, podemos compreender e levar isto muito a sério.

A alegria compartilhada

O pastor que encontrou a sua ovelha, a dona de casa que recuperou a sua moeda e o pai que viu o filho voltar para casa não apenas se enchem de alegria, mas, além disso, convidam outros a compartilhá-la. E a quem isto diz respeito? A todo o mundo: aos amigos e vizinhos, ao irmão mais velho e, também, aos Fariseus, destinatários destas parábolas. A todos nós, enfim. Não passemos depressa demais por este convite à alegria: este modo de alegria não é assim tão evidente, pois é preciso ter já muito amor para que alguém se alegre com a felicidade de algum outro. No fundo, esta convocação à alegria é, antes de tudo, uma convocação ao que chamamos de conversão: trata-se de passar da preocupação exclusiva consigo mesmo ao compartilhamento do que acontece com o outro: um descentrar-se do próprio eixo em benefício do outro. A aventura do filho mais velho nos mostra que isto não é fácil. Se a nossa fé fosse perfeita, experimentaríamos já aqui, a propósito de tudo e de não importa o que, a alegria do «céu», a alegria de Deus. Crer de verdade que deveríamos hoje experimentar isto, é entrar já, modestamente, na exultação da vida eterna. Notemos que o filho mais velho, que, por ciúme, se recusa a alegrar-se com a felicidade do outro, não foi rejeitado pelo pai. Este, ao contrário, deixa o lugar da festa para ir ao encontro do filho, assim como o Cristo deixou a condição divina para vir compartilhar os nossos sofrimentos e angústias (ver Filipenses 2,6…). O «Filho pródigo» nos fala destes «pecados» em cascata: o pecado do filho caçula, que quer fazer a vida rompendo os laços com o pai, e o pecado do filho mais velho que, em vez de contar com o amor que o faria compartilhar tudo com o pai, conta apenas com o seu bom comportamento. Deus não rejeita nenhum dos dois.

Deus procura e encontra

A parábola do filho pródigo põe em evidência o que podemos chamar de paciência de Deus. O pai não faz nada para fazer o filho voltar; não envia nenhum emissário nem lhe faz chegar qualquer mensagem. Na verdade, outros textos nos falam do envio dos profetas, da insistência permanente de Deus em nos fazer retornar à nossa verdade. Mas o ponto de vista da terceira parábola é diferente: trata-se de nos fazer tomar consciência de que, com certeza, Deus nos chama, mas não exerce pressão alguma sobre a nossa liberdade. Ele nos deixa experimentar as conseqüências dos nossos erros. «Eis que hoje estou colocando diante de ti a vida e a morte (…) escolhe, pois, a vida» (Deuteronômio 30,15). Invertendo a relação de autoridade, o pai submete-se ao filho e reparte com ele a herança. Daí, vemos que aceita a contragosto a decisão do filho. Este tema, de que Deus se submete ao homem, é bastante conhecido. As duas pequenas parábolas que precedem à do filho pródigo nos mostram, através do pastor e da dona de casa, um Deus que se agita numa espécie de angústia, até que tenha encontrado o que havia perdido. Este é o trabalho de Deus, a obra pela qual o Verbo veio habitar o mundo a ponto de compartilhar do seu sofrimento e de sua morte. Em todos os casos desta figura, termina-se em alegria. Será que Deus pode ser feliz enquanto lhe faltar alguém? Será que Ele pode renunciar à alegria, que faz parte d’Ele mesmo, aceitando que alguém se perca? Não!

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