Acerca do livro «Relatos de viajes. Caminos en la diáspora» de Clelia Luro: «O que dirá o Santo Padre?»
Delegados da Federación Latinoamericana
na casa de Clelia Luro e Jerónimo Podestá
(2008)
Clelia Luro, velha amiga do papa argentino, escreveu uma obra ainda inédita sobre o caminho percorrido com seu marido, desde que ele deixou a Igreja. Na quarta-feira, nove cópias serão entregues no Vaticano, uma para Francisco (foto) e as demais para o seu Conselho.
Fonte: http://goo.gl/eEQRud
A reportagem é de Pablo Waisberg, publicada no jornal Página/12, 20-10-2013. A tradução é do Cepat.
O livro se chama “Relato de viajes. Caminos en la diáspora” (Relatos de viagens. Caminhos na diáspora) e é inédito. Clelia Luro, a viúva do bispo católico Jerónimo Podestá, enviou-lhe ao seu amigo, o papa Francisco. No texto de 229 páginas, relata a luta que empreendeu junto com seu marido, durante mais de quarenta anos, para fazer com que a Igreja católica aceite o celibato optativo. Essa alegação, construída no calor do nascimento da Federação Latino-Americana de Sacerdotes Casados, que ambos ajudaram a criar e que presidiram, chegará às mãos de Bergoglio nesta quarta-feira, durante a audiência geral semanal. A emissária é Ramona Romero, uma integrante do Movimento Helder Câmara.
“Finalmente, encontrávamo-nos reunidos em nossa casa. Às vezes refletíamos sobre alguma passagem bíblica, mas, fundamentalmente, no começo, cada um comentava suas próprias experiências e vivências, suas lutas, seus fracassos e conquistas. Em todos os casais aflorava o esforço em se inserir numa nova e difícil realidade no mundo de hoje. Dificuldades diante de suas próprias famílias, no trabalho, alguns com maiores problemas que outros. Também colocávamos, na reunião, nossas reconsiderações na fé e nossos passos na liberdade em que cada um ia transitando”, escreveu Clelia no segundo parágrafo de seu livro, que o jornal Página/12 teve acesso, ao recordar a retomada das reuniões de padres casados, em 1984.
Além da cópia para o Papa, cada um dos oito integrantes do Conselho de Cardeais que o assessoram receberão um exemplar. Trata-se de fotocópias impressas em folhas A4, em dupla face, e organizadas numa livraria de bairro. Todas elas viajaram até Roma numa mala diplomática e fazem parte de uma luta política iniciada pouco depois de 1966, quando Clelia conheceu o bispo de Avellaneda. Esses primeiros encontros, em que buscavam recuperar do alcoolismo um sacerdote do norte argentino, começaram a selar o futuro dessa mulher, divorciada e mãe de seis filhos, e do religioso que se entusiasmava com o debate que a Igreja atravessava e que desembocaria na encíclica Populorum Progressio (O desenvolvimento dos povos). O texto foi promulgado um ano depois. Veio junto com a reivindicação do papa Paulo VI para que fossem produzidas “indispensáveis reformas profundas”, que permitissem resolver a situação dos países “em vias de desenvolvimento”.
“O trabalho não foi fácil e ainda hoje não o é. A repressão do sistema militar havia nos dispersado. Jerónimo e eu começamos a fazer o que Pedro chamava de nossas ‘viagens pastorais’. Buscando servir como ponte entre uns e outros, viajamos até Salta, Tucumán, Santiago del Estero, Corrientes, Córdoba, Rosário e também Mar del Plata. Foi assim a forma em que fomos nos encontrando. Entretanto, ainda existiam os medos que a repressão havia deixado. Muitos sacerdotes casados, afastados de seu ministério e impedidos de atuar em paróquias, inseriram-se nas bases, assumindo compromissos políticos ou sociais”, descreveu Clelia no livro. O texto inclui o percurso histórico e a luta pela “renovação dos ministérios”, de 1984 até setembro de 2013.
Nas primeiras páginas, a viúva do bispo que foi obrigado a renunciar, destacou o papel de alguns meios de comunicação e jornalistas que deram espaço para seu pensamento. Nesse pódio, colocou a Rádio Rivadavia, que ofereceu um espaço para seu marido. “Nem bem terminou a audição, o diretor (da emissora) teve que ir à Assembleia dos Bispos, chamado pelo Episcopado, para recriminá-lo por ter permitido dom Podestá falar”.
Também destacou o espaço oferecido pela Rádio Belgrano nos programas de Eduardo Aliverti e Carlos Ulanovsky, e agradeceu as linhas que foram concedidas em “El Periodista” e “El Porteño”, entre outras revistas. “Estou pensando que os meios de difusão são os púlpitos que a instituição retirou de Jerónimo, mas que são mais livres e chegam a mais gente”, respondeu um dia Clelia numa consulta de um jornalista espanhol que entrevistava seu marido. Esses novos começos, após a ditadura, foram tornando a sua casa um lugar de mais encontros, e deles – sublinhou Clelia – floresceu “Caminos de liberdad” (Caminhos de liberdade), um livro com os testemunhos de seis padres casados e de suas esposas, que foi editado na segunda metade dos anos 1980.
Os “caminhos da diáspora” que Clelia e Jerónimo começaram a percorrer, fizeram com que participassem dos Encontros Nacionais de Padres Casados, que ocorreram no Brasil. Em julho de 1984, tiveram o primeiro, que ocorreu num colégio católico, diante do olhar de Helder Câmara. Ali se reuniram cerca de 130 casais e mais de 150 filhos. Nesse espaço, Clelia colocou em debate o conceito de “casal sacerdotal”, que foi muito mobilizador. Esse foi um novo início e não deixaram mais de acompanhar juntos esses encontros. Somente deixaram de viajar juntos quando Jerónimo morreu, em junho de 2000.
O documento que será recebido pelo papa Francisco e seus oitos assessores reúne todo esse processo e conclui com uma análise qualitativa e quantitativa sobre as interrupções do exercício pastoral. É um trabalho elaborado em setembro passado, com base em dados oficiais da Igreja católica e que leva a assinatura do vice-presidente da Federação Latino-Americana para a Renovação dos Ministérios, Guillermo Schefer.
“Para cada dez sacerdotes que foram ordenados entre 2000 e 2005, seis morreram e interromperam o ministério”, apresenta as conclusões finais. E precisa: “40% interrompem o ministério sacerdotal ou presbiteral”. E, segundo esses cálculos, ocorreram cerca de 2.700 interrupções nos últimos “cinco anos”, escreveu Schefer, advertindo que sobre essa base poderia se estimar que “aproximadamente 10.800 presbíteros deixaram de exercer o ministério pastoral de maneira pública”.
Essa situação – que inclui um crescimento percentual da Igreja abaixo do crescimento populacional – ocorre em razão da “falta de renovação dos ministérios pastorais”. E recorda que, inclusive, o documento da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Aparecida, 2007) cita o problema e, num parágrafo à parte, pede a modificação do Canon 277 do Direito Canônico que obriga os clérigos a guardar o celibato. “Talvez seja a partir deste olhar sobre a realidade da América Latina que possa se pensar uma profunda transformação, tanto na formação como nos critérios pastorais desta norma. Que mude de rumo para um celibato opcional e para a renovação dos ministérios pastorais”.
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