Apresentação do livro «A Teologia Feminista na História», de Teresa Forcades I Vila, por Padre Tolentino Mendonça.
A edição é da PRESENTE
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DEUS TEM O DEDO VERDE
Quem o disse foi
Hildegarda de Bingen, essa extraordinária filósofa e mística do século XII, que
não se quedou a repetir a cartilha especulativa que a escolástica autorizava,
mas ergueu um inconformado pensamento polifónico: da pintura à música, da
literatura à medicina natural, dos textos sagrados às propriedades das pedras,
tudo lhe servia para interpretar o visível e o invisível. O importante, como se
compreenderá, não é verificar se o dedo de Deus é efectivamente verde ou branco
ou de outra cor (ou de nenhuma cor). Importante é, sim, introduzir um discurso
sobre Deus que não se esgote na asséptica abstracção dos conceitos, que nada
diz.
Talvez a história do
Ocidente tivesse sido outra se fosse acolhido um modo simbólico, aberto e
sensível de abordar o real, em vez das triunfantes gramáticas unívocas que
sabemos. Repito: talvez a história tivesse sido outra. E é precisamente aqui
que esta espantosa obra de Teresa Forcades i Vila, A teologia feminista na
história que o leitor tem entre mãos, vem em nosso socorro.
Teresa Forcades iVila é
um nome que, por muitas razões, vale a pena guardar. Começou os seus estudos
pelo campo da medicina, primeiro na Universidade de Barcelona e depois na
Universidade Estatal de Nova Iorque. Daí transita para Harvard, mas para cursar
teologia. No ano de 1997 termina estadupla formação, bem como a estadia
naAmérica, ingressando no mosteiro beneditino de Montserrat. Na década
seguinte, já como monja, apresentar-se-á a doutoramento, sempre nas duas áreas:
em medicina, defendendo um tese sobre medicinas alternativas, e, em teologia,
sobre o conceito de pessoa na teologia trinitária clássica em relação com a
moderna noção de autodeterminação. Para esta catalã, uma ciência que não tenha
vontade crítica arrisca a completa irrelevância. É assim que a vemos tanto
empenhada na denúncia dos crimes das multinacionais farmacêuticas, como numa
teologia que se confronte com as situações objectivas de discriminação. Onde
quer que actue, o seu método é corajosamente o mesmo: colocar em evidência as
contradições e procurar alternativas de interpretação que sustentem uma ruptura
de sentido e de civilização. Uma das convicções com que este livro nos deixa é
que o futuro do cristianismo depende muito do processo de desocultação que
formos capazes de fazer do seu passado e do seu presente. Há muito
silenciamento, há demasiada vida submersa, há uma repressão cultural que faz
com que a história, na sua versão dominante, oculte o que a questiona e move
noutras direcções. O Evangelho de João diz que «o Espírito sopra onde quer» (Jo
3,8), mas a história nem sempre o sabe. Ora, precisamos de ouvir o mesmo
contado de outra forma, relatado por outras vozes, por dicções inusuais,
partindo de outras experiências.
Teresa Forcades i Vila
lembra-nos o essencial: que Jesus de Nazaré não codificou, nem normativizou.
Jesus viveu. Isto é, construiu uma ética da relação; somatizou a poética da sua
mensagem na visibilidade da sua carne; expôs como premissa o seu próprio corpo.
Diz a Carta aos Hebreus: «ao entrar no mundo, Cristo disse: Não quiseste
sacrifício nem oblação, mas formaste-me um corpo. Holocaustos e sacrifícios
pelo pecado não te agradam. Então eu disse: Eis que venho, ó Deus, para fazer a
tua vontade» (Heb 10,5-7). No princípio está, portanto, o corpo, a história, a
pele. E vale a pena recordar o que observou Lacan: «Com o seu corpo, o sujeito
emite uma palavra que, enquanto tal, é palavra de verdade».
O momento seguinte, e
porventura o mais complexo, é quando o corpo se torna memória, quando o corpo
se torna corpus, porque vem fixado (mesmo que provisoriamente) numa narrativa
doutrinal. Por um lado, é verdade que esta operação representa um canal para a passagem
do corpo singular
ao corpo social,
mostrando que se o corpo começa, ele começa face a outros corpos e em
articulação com estes. Não é, por isso, que os discípulos de Jesus o descobrem
porventura mais presente na ausência? A institucionalização da memória pode
assim criar condições para refazer incessantemente a trajectória do corpo
singular, cartografando os seus itinerários e os seus surpreendentes sentidos.
Mas para isso é necessário que a narrativa doutrinal se entenda a si mesma mais
como leitura do que letra, mais como viagem do que lugar, pois a memória que
transporta é irredutível a um código, a uma visão, a um automatismo.
Uma última palavra de
gratidão à Presente, enquanto leitor e teólogo, por editar este verdadeiro
livro do desassossego.
José Tolentino Mendonça
© 2013

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