Cristina Sá Carvalho
Psicóloga
Página 1 - Rádio Renascença
Nestes últimos anos,
tanto a blogosfera como os meios especializados, veicularam inúmeras opiniões sobre
o Concílio Vaticano II. Muitos foram os que pediram nova convocatória,
argumentando que o espírito Conciliar, apesar de nem todo ter sido aplicado, já
estava ultrapassado. Nos cinquenta anos que se seguiram à sua abertura, também
muito se opinou no sentido de o aggiornamento que propôs ser um risco de fragilização
para a Igreja, abanados que foram alguns dos seus mais vetustos costumes, e
apesar de nem todos serem muito cristãos.
No entanto, durante este Ano
da Fé, que Bento XVI convocou na perspectiva de ajudar os católicos a reviverem
a alegria e o entusiasmo do encontro com Cristo e, assim, renovarem a evangelização,
esforço expresso e discutido nos trabalhos do Sínodo último, Deus quis, na sua
infinita sabedoria, mostrar-nos que é o Espírito quem governa a Igreja.
Ainda temos presente o
choque – devedor de uma confiança acrescida nos desígnios de Deus – com que
recebemos a notícia da resignação do Papa, agora, Emérito, na sua extrema e
resoluta humildade.
Também recordamos a
surpresa, não só da eleição, mas da atitude imediatamente despojada do Papa
Bergoglio, oferecendo-se ao mundo e à Igreja.
E se este passo da missão
de Bento XVI mereceu alguns alvitres recriminatórios, as atitudes de Francisco
também têm granjeado muita atenção na blogosfera, nos media e, até, dos
especialistas, muitos destes, desconcertados pelas suas escolhas litúrgicas,
pela franqueza singela das suas palavras, entendíveis e comuns, da resoluta intenção
de continuar a transformação da Igreja que o Concílio pediu, da sua insistência
na causa dos pobres e na pobreza da Igreja e, até, da sua esperança no laicado
de ambos os sexos.
Também não deixa
indiferente o conhecimento das realidades e das causas humanas de um Cardeal que
se movia de autocarro, enviava os seus padres para os bairros de lata e
celebrava nas vizinhanças da luta contra o tráfico de droga, do professor de
literatura que transformava o programa para chegar aos alunos, do amigo que não
se importava com os credos nem as condições, enfi m, o empenho nas periferias
do mundo, tão pouco fotogénicas quanto desconfortáveis.
E, como foram inusitados
os primeiros sinais de Francisco, parecem ter-se tornado necessárias as
comparações. No entanto, quando se olha para estes 50 anos da Igreja, nada
parece repetição ou coincidência: de João XXIII a Francisco, corre segura a linha
que começa no velho Papa capaz de, contra todas as doutas expectativas, lançar
o desafio conciliar, e prossegue nas mãos de um Paulo VI que dele aceita fazer
o seu Programa, no sorriso da teologia inovadora de João Paulo I, no carisma e
na sabedoria política do Papa das massas, dos débeis e da coragem que foi João
Paulo II, no maravilhoso, inteligentíssimo e vanguardista ensino de Bento XVI,
para chegar, no Ano da Fé, ao coração de Francisco, pobre por convicção, determinado
por dever, dador de misericórdina por um imperativo de fé.
Na exposição desta linha de
“assistência divina” vejo a grande graça deste Ano, Fé inesperada e
transformadora, dom e presença do Pai, deuscidência na História que é o Reino
já estar aqui, a correr no tempo, nas vidas dramáticas e pesadas dos homens e
das mulheres de hoje e, ainda assim, tão cheias de esperança, tão sedentas de
verdade, tão capazes de aceitar o consolo e a proposta de Deus, dispostos a alegrar-se
com o Evangelho. É, deveras, como se Cristo andasse, aqui, entre nós. É,
realmente, o Cristo que caminha connosco, no hoje e no agora da
pós-modernidade, Rei da mansidão e do amor, coroado com espinhos, Salvador,
Porta para a eternidade. E só foram necessários cinquenta anos.

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