O Advento é um tempo de
preparação para acolher Cristo nessas duas vindas, isto é, para acolhê-lo na
sua humanidade, vivendo como nós, e para acolhê-lo na sua divindade, como
ressuscitado através da Igreja Corpo de Cristo que somos. As leituras desse
domingo nos fazem ver esta dupla realidade.
A reflexão é de Raymond
Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions
de Raymond Gravel, comentando as leituras do 1º Domingo do Advento – Ciclo A do
Ano Litúrgico (01 de dezembro de 2013). A tradução é de André Langer.
Primeira leitura: Is
2,1-5
Segunda Leitura: Rm
13,11-14a
Evangelho: Mt 24,37-44
Um novo ano litúrgico
inicia com o evangelista Mateus e, o que é particularmente interessante, nós
começamos pelo fim do Evangelho de Mateus, por um discurso apocalíptico, onde
Cristo nos fala da sua vinda, ou melhor, da sua segunda vinda... porque o
evento Jesus Cristo comporta duas vindas: morte e ressurreição. Este é o
mistério da Páscoa, o fundamento da fé cristã, da fé da Igreja. Falando dessas
duas vindas, São Cirilo de Jerusalém escreveu: “Nós anunciamos a vinda de
Cristo: não apenas a primeira, mas também a segunda, muito mais gloriosa. Pois
a primeira revestiu um aspecto de sofrimento, mas a segunda manifestará a coroa
da realeza divina. Aliás, tudo o que concerne a nosso Senhor Jesus Cristo tem
quase sempre uma dupla dimensão. Houve um duplo nascimento: na primeira vinda,
ele foi envolto em faixas e reclinado num presépio; na segunda, será revestido
num manto de luz. Na primeira, ele suportou a cruz, sem recusar a sua
ignomínia; na segunda, virá cheio de glória, cercado de uma multidão de anjos”.
O Advento é, pois, um
tempo de preparação para acolher Cristo nessas duas vindas, isto é, para
acolhê-lo na sua humanidade, vivendo como nós, e para acolhê-lo na sua
divindade, como ressuscitado através da Igreja Corpo de Cristo que somos. As
leituras desse domingo nos fazem ver esta dupla realidade.
Primeira leitura
O autor, o primeiro
Isaías, escreveu este oráculo no século VIII a.C., numa situação política
tumultuada, onde a invasão das grandes potências vizinhas era uma ameaça para o
Reino de Israel, que cairá em 721 nas mãos dos assírios, e para o Reino de
Judá, que cairá em 586 nas mãos dos babilônios. A realidade do povo é feita de
provas de todos os tipos, mas Deus não pode esquecer sua aliança com o seu
povo, o que explica a esperança do profeta Isaías que se traduz em seu texto
sobre o futuro: “No final dos tempos, o monte do Templo de Javé estará
firmemente plantado no mais alto dos montes, e será mais alto que as colinas.
Para lá correrão todas as nações. Para lá irão muitos povos, dizendo: ‘Venham!
Vamos subir à montanha de Javé, vamos ao Templo do Deus de Jacó, para que ele
nos mostre seus caminhos, e possamos caminhar em suas veredas’. Pois de Sião
sairá a lei, e de Jerusalém a palavra de Javé” (Is 2,2-3).
Encontramos duas
peculiaridades nessa dupla vinda: a provação e a libertação:
1) Igualdade dos povos: o
profeta Isaías não considera o povo de Israel como superior aos outros povos,
de sorte que são todas as nações que afluirão para a montanha de Javé. A única
supremacia é espiritual e diz respeito à Cidade Santa, Jerusalém, onde se
encontra a casa de Deus, o Templo do Senhor.
2) A justiça e a paz: a
realidade da guerra na invasão de Israel pela Assíria, e de Judá pela
Babilônia, se transformará em realidade de justiça: “Então ele julgará as
nações e será o árbitro de povos numerosos” (Is 2,4a), e na realidade de paz:
“De suas espadas eles fabricarão enxadas, e de suas lanças farão foices.
Nenhuma nação pegará em suas armas contra outra, e ninguém mais vai se treinar
para a guerra” (Is 2,4b).
Segunda leitura
Na sua Carta aos Romanos,
no trecho hoje lido, São Paulo fala dessas duas vindas: o sono, que corresponde
à noite e às trevas, e o despertar (ressurreição), que corresponde ao novo dia,
à luz trazida pelo Cristo ressuscitado: “Comportem-se dessa maneira,
principalmente porque vocês conhecem o tempo, e já é hora de vocês acordarem. A
noite vai avançada, e o dia está próximo” (Rm 13,11a.12a). O que caracteriza a
noite e o dia corresponde à realidade humana que é feita de limites e de
pobrezas, mas também de superações e de promessa de ressurreição: “Deixemos,
portanto, as obras das trevas e vistamos as armas da luz” (Rm 13,12b). Mas,
atenção! São Paulo não moraliza; ele simplesmente opõe as coisas relativas ao
corpo: “orgias, bebedeiras, prostituição e libertinagem, brigas e ciúmes” (Rm
13,13), às do espírito: “Mas vistam-se do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,14).
Revestir-se de Cristo é tornar-se Cristo; é deixar-se habitar pelo Espírito de
Cristo.
O Evangelho
Encontramos também essas
duas vindas do Cristo no Evangelho de hoje. A primeira, que corresponde à nossa
realidade humana, é feita de rotina, de limitações e de finitude: “Porque nos
dias do dilúvio todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até
o dia em que Noé entrou na arca” (Mt 24,38). E a segunda vinda corresponde à
esperança que nos habita, apesar das provações: “E eles nada perceberam, até
que veio o dilúvio, e arrastou a todos. Assim acontecerá também na vinda do
Filho do Homem” (Mt 24,39). É por isso que devemos vigiar, isto é, esperar e
desejar a segunda vinda, que não sabemos quando e como se dará: “Dois homens
estarão trabalhando no campo um será levado, e o outro será deixado. Duas
mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada, a outra será deixada” (M
24,40-41). Vigiar é preparar o coração para esta realidade que já está aí, mas
que se concretizará na nossa morte pela ressurreição.
O tempo do Advento é o
tempo da espera e do querer profundamente Aquele que se fez humano e que virá
novamente na nossa Páscoa, quando da nossa passagem da morte à Vida. Quando
reconhecemos que, em Jesus Cristo, a vida nos é dada, quando caminhamos na luz
do Senhor, apesar da escuridão das nossas noites, nossa esperança está no seu
melhor! Podemos, inclusive, dizer que a nossa esperança vela, porque ela
exprime a nossa dupla realidade: humana e divina... É o que a Palavra de Deus
nos diz ainda hoje.
Para terminar, gostaria
simplesmente de citar Jules Beaulac que contou que quando era pequeno e seu avô
vinha visitar a ele e sua família, era sempre uma ocasião para grande alegria.
Todas as crianças se reuniam demoradamente para limpar a casa para acolher essa
pessoa que eles amavam e que as amava. E era com o nariz colado à janela que as
crianças esperavam a visita que se anunciava. E se era um pouco esperar o
Senhor que vinha. Beaulac escreve: “Não é isto preparar o coração para a visita
do nosso amigo Jesus? Não é isto reunir-nos, sem pressa, para fazer uma boa
limpeza? E, acima de tudo, vigiar, grudar o nariz na janela da nossa alma,
fixar os olhos do nosso coração no Senhor que vem. Esperá-lo com alegria e
desejá-lo profundamente”. Para isso, é preciso continuar a caminhada na
esperança, porque a luz já está aí!
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