Reflexão de Marcel
Domergue, padre jesuíta francês, publicada no sítio Croire,
comentando as
leituras do 1º Domingo do Advento
Leituras bíblicas:
1ª leitura: Isaías 2,1-5
2ª leitura: Romanos
13,11-14
Evangelho: Mateus
24,37-44
O tempo do desejo
A fé no Cristo gera
imediatamente uma "religião" do desejo. Faz com que nos voltemos para
o futuro, para o que vem; para Aquele que vem. Diante de tudo o que se passa no
mundo, há os que se distanciam da confusão, pondo-se ao abrigo de qualquer
choque ou contrariedade, afastando-se para uma situação privilegiada; os
discípulos do Cristo recusam tal evasão. Há os que se revoltam e recorrem à
violência; os discípulos do Cristo sabem que isto só serve para multiplicar a
desgraça inicial. Várias outras maneiras de se esquivar poderiam ser enumeradas
e a fé cristã as recusa todas. Fé que, no entanto, é o oposto da resignação e
faz o nosso olhar voltar-se incessantemente para a potência que nos faz
existir. Esperamos e desejamos a vinda da Vida. O Livro da Primeira Aliança é
cheio desta esperança que se exprime muitas vezes por gemidos, gritos de
socorro injunções vigorosas a este Deus que tarda demais. E tudo isto se resume
na espera do Reino de Deus. Na Nova Aliança, esta tomada do poder por parte de
Deus se exprime no tema da volta, ou melhor, da última vinda do Cristo. E,
assim, aqui estamos nós, voltados para o futuro, para Aquele que vem. Claro, a
uma primeira vista muitas questões se põem: uma vez que esperamos "a
intervenção divina", haveria algo ainda para se fazer? Não existe aí,
nesta espera, alguma coisa de mítico? Uma espécie de "deus ex
machina"? Vamos buscar ver mais claro isto.
A vinda do Cristo no
presente
Em primeiro lugar, é
preciso conjugar este texto com outras palavras de Jesus, por exemplo, quando
ele diz que o Reino de Deus já está aí, que ele está em nós, no meio de nós, ou
entre nós (Mateus 5; 12,28. Lucas 17,20-21...). Assim como somos já filhos de
Deus, mesmo que isto não seja ainda manifestado, da mesma forma o Reino já está
aqui, desde que reine entre nós o amor assim como o Cristo o viveu. É ilusório
dizer, como tantas vezes se ouve, que temos que realizar ou construir o Reino
de Deus. A vinda do Cristo é um dom, mas temos o poder de recebê-lo e
transmiti-lo: o amor que nos vem de Deus, e que é Deus, se deixarmos, pode nos
atravessar e ir em direção aos outros. Portanto, o Reino de Deus que se
confunde com a vinda do Cristo está em ação desde o início e até o fim que o
revelará à plena luz. Quando, então, poderemos reler a nossa vida em função de
nosso acolhimento ao Reino. O "julgamento", que pode nos fazer tremer
ou nos deixar céticos, é isto: os nossos olhos que se abrem à luz. Felizmente,
Paulo nos diz que "tudo o que vem à luz se torna luz" (Efésios
5,13-14). O Cristo é, pois, aquele que veio que vem e que virá. O tempo do
Advento vem nos dizer de novo tudo isto, para que permaneçamos conscientes do
mistério que nos envolve, desta presença que, sem cessar, torna-se de novo
presença, sempre nova e imprevisível.
A espera e o encontro de
Deus
Se não devemos acreditar
naqueles que dizem "Ei-lo aqui! Ei-lo ali!", é porque ele está por
toda parte, "do Oriente ao Ocidente". Ele vem ao nosso encontro nas
alegrias, nas tristezas e nos períodos de vazio. Cada vez que o acolhemos,
entramos no Reino. É preciso repetir que é pelos outros que ele vem até nós e
que, se este Reino está "entre nós", é porque ele reside na qualidade
dos laços que podemos estabelecer com eles. Podemos a este respeito reler
Mateus 25,31-46, interpretando o final inquietante deste texto à luz de Efésios
5,13-14, já citado. Sabemos que o Novo Testamento veicula duas linhas, duas
tradições contraditórias: uma que anuncia o perdão para todos, inclusive
carrascos e torturadores (reler os relatos da Paixão); a outra que corrobora as
antigas maldições aos "injustos". A meu ver, ainda é a Páscoa que vai
dizer a última palavra: "Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem." De
todo modo, o Evangelho nos prescreve a espera e o desejo permanentes, um desejo
ardente, desde agora, de ir além do que é a nossa vida aqui, com a certeza de
que Deus, incessantemente, nos vem habitar. Santo Agostinho nos explica que o
desejo não precisa ser consciente, mas que pode e deve estar subjacente a todas
as ocupações que a existência nos impõe. Felizes, diz Jesus, aqueles a que, na
sua volta, o mestre encontrar ocupados com a sua tarefa, tarefa que deve ser
recebida e vivida já como um dom de Deus.

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