Tecnologia laser relança
debate a partir dos frescos de um cemitério subterrâneo em Roma.
Foto: fresco do
"Cubiculum da Mulher do Véu"MAX ROSSI/REUTERS
Depois do restauro das
Catacumbas de Priscila há quem defenda que os frescos destes subterrâneos que
serviram para sepultar cristãos entre os séculos II e V mostram que a igreja
dos primórdios era bem mais progressista no que toca à ordenação de mulheres.
Relacionar este tema com o
cemitério romano redescoberto no século XVI, escavado 300 anos depois e que
acaba de reabrir depois de cinco anos de trabalhos de restauro não é novo, mas
agita sempre as águas. De um lado as associações que querem ver as mulheres a
desempenhar funções de sacerdotes na igreja católica, do outro, como seria de
esperar, o Vaticano e os seus arqueólogos a dizer que as alegações não passam
de “contos de fadas”.
Segundo a agência
Reuters, o debate reacendeu-se agora porque os trabalhos de conservação no
labirinto subterrâneo com 13 quilómetros dedicaram especial atenção às pinturas
murais, que foram cuidadosamente limpas com recurso a tecnologia laser,
revelando com maior nitidez pormenores que podem sustentar a tese de que as
primeiras comunidades cristãs tinham mulheres-padres. É pelo menos nisto que
acreditam as organizações Women’s Ordination Conference (norte-americana) e a
Association of Roman Catholic Womenpriests (internacional), que vão buscar dois
exemplares de frescos para ilustrar as suas teorias.
Um deles está num quarto
conhecido como “Cubiculum da Mulher do Véu” e mostra uma figura feminina de
braços erguidos, à semelhança de um padre que celebra missa.
Diz a página oficial
deste sítio arqueológico - www.catacombepriscilla.com
– que as vestes que usa são litúrgicas e que até tem uma estola, faixa de
tecido que faz parte dos paramentos usados pelos sacerdotes. Noutro espaço, “A
Capela Grega”, está representado um grupo de mulheres sentado a uma mesa,
evidenciando gestos reconhecíveis por quem assiste hoje a uma missa.
Interpretações
"sensacionalistas"
Para Fabrizio Bisconti, o
superintendente dos sítios arqueológicos religiosos propriedade do Vaticano,
estas interpretações são absolutamente “sensacionalistas” e estão longe de
serem fiáveis. À leitura dos grupos pró-ordenação de mulheres, Bisconti opõe a
sua: o primeiro fresco representa “uma pessoa que morreu e foi para o paraíso”
e as mulheres sentadas à mesa estão a participar no “banquete de um funeral” e
não numa cerimónia litúrgica.
Os trabalhos de
valorização destas catacumbas que têm ainda visíveis algumas ossadas e a que se
acede através de um convento beneditino na Via Salaria, em Roma, passaram
também pela criação de um pequeno museu destinado às lápides e aos sarcófagos
usados na deposição dos corpos, bem como a dezenas e dezenas de fragmentos de
esculturas que foram deixados para trás pelos que saquearam este cemitério
depois da sua redescoberta, no século XVI.
Para os que não podem viajar
até Roma, um protocolo celebrado entre o Vaticano e a Google Maps - https://maps.google.com/maps?q&layer=c&z=17&sll=41.929618,12.508637&cid=480858818072568411&panoid=sfiLnF1scbgAAAQJOCH0Sw&cbp=13,109.83758700696059,,0,0&ved=0CBMQ2wU&sa=X&ei=XuqNUunyJ8WN8QPOzYGQAQ&gl=US&hl=en
- permite fazer uma visita virtual bem detalhada, associando a antiguidade à
tecnologia contemporânea. Assim, muitos mais se poderão juntar ao debate sobre
as mulheres-padres do começo do cristianismo e ficar a conhecer as catacumbas
romanas que são também famosas por guardarem a mais antiga representação da
Virgem com o Menino, um fresco da primeira metade do século III.
Estas catacumbas, das
mais importantes de Roma, têm grande parte das suas paredes cobertas de frescos
e terão sido nomeadas em homenagem a Priscila, membro de uma importante família
da cidade e provavelmente a mulher de Acilius, cônsul que se coverteu ao
cristianismo e foi por isso executado (forçado a lutar na arena com um leão) a
mando do imperador Domiciano.

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