Texto de Padre Rui Santiago, missionário redentorista
Levamos anos de vida, e não são pequenos, a convencermo-nos de que somos omnipotentes. Percebemos o que sabemos fazer e vamos fazendo isso bem. Ganhamos uns trocos, “organizamos a vida”, temos tudo controlado e, então, dizemos a nós mesmos que assim está bem. Pode seguir…
Depois, derrapamos. Cai o santo do altar, e - quem diria?! - o santo somos nós. A Vida é mais louca do que pensávamos, mexe-se demais e mete-se onde não é chamada. Connosco até, veja-se o desplante deste mistério! Tira-nos o tapete de debaixo dos passos e, então - Oh Senhor dos Passos vinde acudir-nos - fica a nossa idolatria escangalhada.
Que mania têm os dias de serem inéditos! Que desaforo a desobediência da Vida aos nossos programas! Descaradamente, o fio da existência não entra nos estreitos buracos das nossas agulhas, e a gente é que tem que ir atrás, picando-se pelo caminho.
Procuramos ter tudo tão medido, confiamos na perenidade da sensatez e esforçamo-nos por ser-lhe zelosos. Nem damos passos maiores que as pernas, para não afrontar a Vida nem enfrentar surpresas e, mesmo assim… Pousamos mal o pé e lá torcemos o turno de zelo em que quisemos transformar a existência.
Tanto tempo levamos a construir, palmo a palmo, a pianha da nossa santidade e o altar da nossa omnipotência e, um dia, catrapuz, fica o altar estalado, cai o santo ao chão e, no trambolhão, fica virado ao contrário, levanta-se-lhe o saiote, e deixa tudo à mostra. Tudo que, normalmente, é um oco quase nada.
Conduzimos a Vida a velocidade reduzida e mantemos as distâncias de segurança e, do nada, fazemos um pião e ficamos ao contrário, do avesso, atravessados… Capotamos, e as coisas aparecem-nos aos olhos todas de pernas para o ar! E ficamos descapotados, despidos do capote das nossas imaginadas omnipotências.
Um dia, a Vida prega-nos partidas. E esquecemo-nos, entre tanto, que “partidas” é outro nome para “começos”.
Que maravilha a imperfeição!
Que sorte ser frágil.
Que bênção tão sagrada e humana é esta de sermos baixados da nossa convencida divindade.
A nossa debilidade fica ali, Santíssimo Exposto, mesmo à mão de semear, que para isso serve. A nossa verdade em carne viva é um princípio de Liberdade. Se o medo não nos fizer fugir do encontro com o que realmente somos, podemos salvar-nos.
Na hora em que o ídolo se parte, vem o medo da desprotecção. Mas, se pegarmos nele - no medo - com coragem e simplicidade de coração, podemos dar-lhe a volta, moldá-lo, transfigurá-lo em salvadora Humildade.
A Humildade também nasce dos medos intimamente resgatados e amadurecidos em paz, a elegância de quem aceita a verdade de si mesmo como uma Palavra de Salvação.
Escaqueira-se aos nossos pés a omnipotência do nosso programa, e levanta-se do chão a voz sussurrada da culpa e da acusação: “Vê o que fizeste… Estragaste tudo… O que vai ser de ti a partir de agora?… Estragaste tudo… Tu… Tu… Culpado.”
Os ídolos falam mais tempo do que duram, porque começaram a existir dentro de nós antes de os fabricarmos nas nossas agendas e, por isso, também é dentro de nós que, depois de partidos, têm que deixar de existir. Partem de nós muito depois de se partirem em nós… Porque são parte de nós muito antes de virem à existência.
Todas as libertações demoram a contar, porque fomos feitos para viver devagar e existir longamente.
A culpa sobe dos cacos que ficam depois do trambolhão. Há que pegar neles também e juntá-los a formar uma coisa nova, transfigurar a angústia da acusação em reconciliação interior.
Precisamos de nos perdoar mais vezes do que pensamos. E podemos! Porque no fundo de nós existe uma criatividade chamada Liberdade e uma menina chamada Esperança que adora reinventar puzzles e peças. Os nossos cacos são o seu passa tempo, e ela é boa no que faz.
Calhou-nos em sorte sermos únicos. Não é só a Vida cheia de surpresas! Também nós somos uma surpresa para ela. E em cada partida que ela faz, há um começo para nós fazermos.
Pouco vale quem tudo pode.
Pouco faz quem de tudo é capaz.
Pouco ensina quem tudo sabe.
Pouco dá quem tudo consegue.
A omnipotência é um mito que nos faz mal todos os dias.
Bendito seja Deus pelo Santo Inédito, patrono dos nossos quotidianos, o mais famoso de todos os Santos Impopulares, o Santo da minha mais acarinhada devoção, que inscreve na nossa Vida a necessidade de nascer de novo muitas vezes.

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