Iniciamos mais
um ano litúrgico, mais um itinerário de preparação para a encarnação de Jesus.
É o tempo da luz e da procura do caminho do Senhor. O tempo da preparação da
vinda do Senhor. E a sua vinda exige atenção e vigilância. Exige um olhar novo
sobre a nossa vida. Exige a disponibilidade para a entrega. Exige que estejamos
preparados porque o Filho do Homem vem de novo estar connosco e ser a nossa
salvação.
SEGUNDA-FEIRA
Palavra –
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Como aconteceu nos dias de
Noé, assim sucederá na vinda do Filho do homem.
A Liturgia coloca-nos
logo no início do novo Ano Litúrgico – o Primeiro Domingo do Advento – um texto
do Evangelho segundo São Mateus que nos convida à vigilância a fim de
prepararmos a vinda do Senhor. E porque acentua mais o momento da Sua última
vinda, desconhecido por todos, recorre a factos do Antigo Testamento, em que um
aparecimento repentino nessa altura surpreendeu a quase todos. E neste caso
concreto compara a surpresa dos “dias de Noé”, com a súbita chegada do Filho do
homem.
Meditação – O
Jesus que fala aos seus discípulos já tinha vindo no primeiro Natal. Agora fala
sobre a Sua segunda vinda. Não diz quando acontecerá mas recorda, a eles e a
nós, que a única atitude sábia e responsável de todo aquele que nEle acredita,
é esperá-Lo em vigilância. Esperá-Lo preparados. Não esquecidos da Sua vinda,
mas vigiar esperando. Confiando com persistência. Desejando e anelando essa
vinda. Comprometendo-se na sua preparação. Não nos deve interessar “o quando
virá”, mas sim em que atitude nos encontrará.
Oração – Senhor,
Tu falas constantemente da tua última Vinda “Quando vier o Filho do homem…”. É
uma realidade garantida com o selo da Tua Palavra. Entretanto nós, de tão
habituados que estamos a ouvi-la, que já não nos acorda do nosso sono
materialista quotidiano. Desperta, Senhor, o nosso coração, arranca de nós o
medo, e que a alegria da Tua vinda faça nascer em nós o dinamismo da vigilância
e da esperança. Preparando esta vinda natalícia queremos ir preparando-nos para
a outra.
Acção - “Dias
de Noé…”, dias de despreocupação total, de desinteresse e instalação. Hoje
compararei o meu estado de ânimo com esses “dias de Noé” e, se intimamente
necessitar, reagirei, com gestos concretos, perante a realidade que me rodeia.
TERÇA-FEIRA
Palavra
Nos dias que
precederam o dilúvio, comiam e bebiam, casavam e davam em casamento, até ao dia
em que Noé entrou na arca; e não deram por nada, até que veio o dilúvio, que a
todos levou.
Jesus diz em
poucas palavras qual era a atitude das pessoas no tempo de Noé: levavam uma
vida tão cheia com os afazeres do dia a dia, que nada viam para além das
preocupações materiais. Essa rotina, dominada pelos prazeres efémeros,
impediu-os de ver os sinais dos tempos concretizados no comportamento de Noé. E
por isso foram surpreendidos pela catástrofe do Dilúvio.
Meditação – Será
muito diferente a vida dos contemporâneos de Noé e nossa de hoje? Ao afirmarmos
que hoje há muita gente que vive como se Deus não existisse, acaso não
afirmamos que essa é uma vida de inconsciência dado que ninguém pode negar que
todos somos mortais? Como nos tempos de Noé a moda impôs-se: preenchemos a vida
apenas com as realidades materiais transitórias, com os prazeres de momento,
com os aplausos cujo eco logo desaparece. E tudo nos parece que vai bem,
sentimo-nos satisfeitos e felizes até ao primeiro percalço. E se este for
mortal? Tudo estará perdido. Para o evitar Jesus recomenda-nos que conjuguemos
o viver com o morrer, o hoje com o futuro, se queremos evitar o dilúvio da
inutilidade da vida. Ser cristão a sério é o oposto de estar acomodado.
Oração – Corro
o risco, Senhor, de passar os meus dias satisfeito e “a bem com a vida”. Tudo
me corre optimamente: a vida que EU escolhi, o negócio que EU construí, os
projectos que EU idealizei. Até o Deus, melhor, deus que EU criei não me
incomoda muito, não interfere no meu modo de viver, não me perturba para além
dos rituais que às vezes EU lhe ofereço. Eu, eu, eu… tudo à minha medida! Cego
que estou, Senhor. Perdoa-me. Faz desmoronar a minha instalação, limpa os meus
olhos, purifica o sangue das minhas veias. Que eu acorde. Que me deixe
interpelar por Ti. Que me comprometa. Que descubra que és Tu o verdadeiro
agente do meu querer e do meu agir. Só Tu és o meu projecto de felicidade
plena.
Acção – Farei
hoje um exame de consciência procurando descobrir os campos da minha vida em
que me sinto “instalado”. Pelo menos num deles actuarei de modo a renovar e
vivicar algum aspecto.
QUARTA-FEIRA
Palavra – Assim será também na vinda do Filho do
homem. Então, de dois que estiverem no campo, um será tomado e outro deixado;
de duas mulheres que estiverem a moer com a mó, uma será tomada e outra
deixada.
Jesus partindo
de cenas da vida do campo e da casa, próprias dos seus conterrâneos e
necessárias à subsistência das pessoas, diz o que vai suceder no dia da vinda
do Filho do homem: o mesmo que aconteceu no tempo de Noé. Só que aqui, em vez
do “a todos levou” explica que “uns serão levados e outros deixados”.E isto vai
depender, fundamentalmente, da situação em que cada um se encontre.
Meditação – “Hoje
todos fazem assim” – é a frase que frequentemente ouvimos como justificação da
quebra de um agir moral ou de uma sã tradição. Deus olha individualmente e o
mal comum nunca justifica o erro individual. Jesus adverte-nos de que pelo
facto de todos passarmos pelos mesmos trabalhos, termos as mesmas actividades,
nem por isso somos forçosamente iguais. A intenção com que agimos, as
motivações que nos movem é que dão valor à nossa acção. Dos dois homens e das
duas mulheres, um podia estar em vigilância, preparado à espera do Senhor e o
outro não. Por isso tinham sorte diferente. Sou dos que se escondem na multidão
ou ajo por convicção própria? Faço porque os outros também fazem ou imprimo o
meu cunho especial? Ponho o selo de cristão àquilo que faço?
Oração – A tua
vinda, Senhor, nunca será de dilúvio, de destruição, de terror, de condenação.
Antes pelo contrário, de alegria, de salvação. Por isso nós e os primeiros
cristãos, sobretudo, repetiam: constantemente: “Maranatha! Vem Senhor Jesus”! É
incrível como nós tudo deformamos com o medo e ânsia. Faz-me, Senhor, sentir a
alegria deste grito de vigilância e de desejo, e o dom que é a Tua vinda,
melhor, as tuas vindas: no próximo Natal, no fim dos tempos e no meu dia a dia.
Tu és um Deus de amor e não de terror. Que eu Te sinta amor.
Acção – Hoje,
repetirei, várias vezes a invocação: “Maranatha! Vem Senhor Jesus”, e/ou a
invocação do Pai Nosso: “Venha a nós o vosso Reino”.
QUINTA-FEIRA
Palavra – Portanto,
vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor.
É uma conclusão
lógica tirada dos dois exemplos que Jesus apresentou antes: “Portanto,
vigiai…”. Não queirais que vos aconteça como a eles. E para o evitar só tendes
o remédio da vigilância, dado que ignorais o tempo da vinda do Senhor. Ao longo
do Evangelho as palavras “Vigiar, vigilante, vigilância, vigília, velar, estar
atentos…” esemelhantes, são das mais repetidas por Jesus e pelos Apóstolos. Por
aqui se pode medir a importância do aviso do Senhor.
Meditação – O
mundo em que vivemos embala-nos de tal modo, com tantas promessas e seduções,
que nos adormece numa vida cheia de sonhos que parecem eternizar-nos. E vivemos
como se nunca nada mudasse. Mas o Senhor vem recordar-nos que essa atitude de
instalação e de satisfação pode ser quebrada pela Sua vinda repentina que nos
pedirá contas dos dons recebidos. É que nós somos criaturas do Senhor. Somos
obra sua. Temos de viver nEle, por Ele e para Ele. Quem nos acordará desse sono
materialista em que caímos? Só a vigilância na oração. Só a consciência de quem
somos. Só a vinda dEle que nós temos de preparar em alegre esperança vigilante.
Estamos dispostos a vigiar e a esperar não apenas a vinda do próximo Natal mas
também a vinda final?
Oração – Senhor,
quero estar vigilante para que quando Tu venhas, saia a receber-Te; para que
quando Tu te aproximes Te deixe entrar; para que quando Tu chames, eu Te abra.
Quero estar vigilante, Senhor, para que o tempo em que vivo não me impeça de
ver o futuro; para que os meus mundos humanos não eclipsem os divinos; para que
as coisas efémeras não se sobreponham às divinas. Quero, Senhor, viver em Ti e
sentir-Te vivo em mim.
Acção – Lemos
em Lc 12, 19-20: “… E o homem rico disse: Alma minha, tens muitos bens em
depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te! Deus porém
disse-lhe: Insensato! Nesta mesma noite, pedir-te-ão a tua alma; e o que
acumulaste para quem será”? Hoje, ao longo do meu agir, pensarei várias vezes,
se as preocupações materiais não estão a adormecer-me e a fazer esquecer-me de
que o Senhor me pode chamar a qualquer hora.
SEXTA-FEIRA
Palavra –
Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o
ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa.
Como era
costume de Jesus, ele tirava partido de qualquer facto que tivesse acontecido e
que era conhecido por todos. Possivelmente este teria sido um roubo de que
todos falavam. Jesus ultrapassa o facto histórico e material e aplica-o a toda
a vida pois a vida tem de ser uma vigilância contínua. O ladrão e o roubo são
uma referência factual que nada têm a ver com a vinda do Senhor, mas que
serviam perfeitamente a Jesus para transmitir a mensagem que pretendia.
Meditação –
Deus Pai, deste-nos a vida para a viver. E quando alguém morre pequenino,
física ou espiritualmente, é um fracasso do Teu projecto. Porém isso só
acontece quando nos roubam ou nos deixamos roubar a vida. E roubam-nos porque
não estamos vigilantes de noite e de dia. A vida do cristão só tem sentido em
vigília permanente para um encontro diário contigo. São sobretudo os enamorados
que vigiam e esperam. Será que sentimos as Tuas vindas como um dom de amor? Ou
metem-nos medo? Tu não vens como ladrão. Ao contrário, tudo é graça nas Tuas
vindas! Maranatha! Vem, Senhor Jesus!
Oração – Quero
estar vigilante, Senhor, para evitar os roubos dos sonhos de felicidade e de
amor que Tu me prometes; quero estar vigilante para que sempre que venhas
ilumines os meus caminhos e eu possa levar, ao meio onde vivo, o que Tu me dás.
Quero estar vigilante para que não roubem a esperança e o alento aos mais
necessitados. Ajuda-me, Senhor, a levar aos medrosos e aos instalados o calor
do Teu amor, a alegria da Tua paz, a Boa Notícia da Tua vinda. Já neste Natal e
quando vieres como Senhor dos Senhores.
Acção – A
vigilância que Tu nos pedes, Senhor, não é a de relógio na mão. Isso cheiraria
a contabilidade, a contrato, a comércio. Tu queres-nos teus, a cada instante e
por inteiro, porque nos amas infinitamente. Somos filhos teus. Ao longo do dia
de hoje tentarei responder ao Teu amor repetindo várias vezes: “Ponho-me nas
Tuas mãos, Senhor! Quem me roubará, quem me separará de Ti”?
SÁBADO
Palavra – Por
isso, estai vós também preparados, porque na hora em que menos pensais, virá o
Filho do homem.
Jesus insiste
na vigilância, repetindo quase as mesmas palavras do início do texto. Todo o
Capítulo 24 de São Mateus apresenta uma visão escatológica e por isso também um
convite constante à vigilância. “Estai atentos…, vigiai…, estai preparados…”. O
Evangelista termina este capítulo com o texto que meditámos, acrescentando
ainda a parábola do servo que o senhor castigou quando voltou e não o achou
vigilante. Mais advertências da parte de Jesus não poderíamos esperar.
Meditação – Hoje
começamos o tempo de Advento. Que significa estar preparados? Como? O Senhor
fala-nos em não nos deixarmos surpreender. Será que hoje a sociedade de que
fazemos parte está mais vigilante e menos despreocupada do que os
contemporâneos de Noé? Concretamente, como penso preparar-me durante este tempo
para esta vinda do Senhor? Arranjarei espaço e tempo para analisar em que
medida estou absorvido e inconsciente pelas minhas tarefas diárias e as minhas
preocupações? E para o encontro definitivo com o Deus da vida estou preparado?
Penso que ainda tenho muito tempo? E se fosse já hoje, como me sentiria diante
dos irmãos a quem não amo? O Deus que está à minha espera, o Deus da vida,
seria o mesmo Deus a quem eu rezo?
Oração – Estamos
preocupados ou mesmo amedrontados, com o momento da Vossa vinda definitiva,
Senhor. Mas que interessaria o quando se nós estivéssemos convencidos de que
Vós já viveis em nós? Que Vós já viestes à nossa alma, às nossas vidas e já
falais connosco? Esse é o Vosso desejo, Senhor, mas nós ainda não nos sentimos
preparados, receptivos, acolhedores, ouvintes comprometidos com a Vossa
Palavra. Sim, não nos sentimos preparados! Custa-nos a dizer sim a todo esse
Vosso projecto de amor e de comunhão. Ajudai-nos, Senhor, até que possamos
dizer como São Paulo: “O mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”(Gal
6,14). E ainda: “Estou crucificado com Cristo! Já não sou eu que vivo, é Cristo
que vive em mim” (Gal 2, 19-20). Então estaremos minimamente preparados para a
Vossa vinda. Maranatha!
Acção –
Recordando a frase de Santo Agostinho: “"Tenho medo da graça que passa sem
que eu perceba!", hoje procurarei descobrir nas pessoas, nos
acontecimentos, nos pormenores mais insignificantes e mesmo no silêncio, um
apelo insistente a vigiar, a preparar-me para a vinda do Senhor, a não O deixar
passar sem me dar conta.
P.e Luciano
Miguel, sdb
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