Por P.e José Tolentino
Mendonça
©Revista Expresso, 23.11.2013
É um verbo humaníssimo,
este verbo pedir. Pedimos coisas diferentes e de formas absolutamente
variáveis. Quando nascemos, começamos por pedir aos gritos que partam em nosso
socorro, antes de termos as palavras. Quando aprendemos a usá-las, ganhamos
talvez maior tranquilidade no pedir, mas nem sempre. Pedimos porque não nos
bastamos a nós próprios. E isso, que seguramente é um elemento que nos redime,
não deixa de ser igualmente uma ferida. O léxico do pedir é prolífero, mas
também inconstante. Pedimos com simplicidade e com inúmeros rodeios. Mantemo-nos
fluentes ou gaguejamos, mergulhados numa insegurança que nos tolhe.
Pedimos oralmente, por
escrito, por entreposta pessoa, de forma ostensiva ou subtil, ou, até, com
maior ou menor consciência de que um pedido está a ser formulado. Há mesmo
momentos da vida (e não são poucos) em que faríamos tudo para não ter de pedir.
Esta dificuldade nem sempre é má Precisamos de autonomia para maturarmos o
nosso caminho pessoal, e todas as dependências de que a vida se tece só ganham
em ser sacudidas e purificadas por um espírito de liberdade que se afirma. Pedir
pode tornar-se um obstáculo a aprendizagens que estão perfeitamente ao nosso
alcance. Mas o contrário também é verdade, pois crescemos no reconhecimento de
que sem os outros nós não somos. De entre todos os pedidos, os que nos custam
mais são os mais simples, aqueles imateriais, e que se prendem com a
arquitetura (ou arquitextura, como ensinou Derrída) das relações: pedir amor,
pedir desculpas, pedir presença, conversa, calor, compaixão. Aí é tão fácil
ficar enredado em engulhos, coisas não-ditas ou mal-entendidas.
Penso muitas vezes num
pedinte que conheci em Roma. Era (e é) impossível não dar com ele quando se
visita a cidade. Eu estava sempre a esbarrar com uma das suas passagens: à
saída da universidade, da biblioteca, do cinema, no Campo das Flores, em São
Pedro, por todo o lado. De dia ou de noite. Um homem que andará hoje pelos
sessenta anos de idade, com um porte discreto, delicado até. Abeira-se dos
passantes com duas perguntas. «Fala italiano?» - atira primeiro. E, qualquer
que seja a resposta, dá o passo seguinte. Pegando cuidadosamente numa moeda
entre os dois dedos e colocando-a perto dos nossos olhos, roga: «Tem 100
liras?». Conheci-o assim, ainda antes do euro. Com a integração na moeda única,
ele também se ajustou, passando a pedir 10 cêntimos.
A primeira vez que a sua
interpelação nos é dirigida pensamos que se trata de alguém que precisa de
completar a quantia necessária para um bilhete de metro ou para uma fatia de
pizza. Depois de o encontrarmos centenas de vezes, ficamos sem saber exatamente
o que pensar. Assisti, porém, a uma cena que porventura pode esclarecer parte
do enigma.
Numa rua, à volta do
Panteão, estava sentado um outro mendigo. Melhor seria dizer que estava
prostrado. Com um vestuário andrajoso, um braço deformado por caroços, um ar
que trazia misturado tudo: dor e exclusão. À distância, vejo o pedinte
aproximar-se dele. E, para meu espanto, percebo que repete ao mendigo a
cantilena que faz a todos os outros, mostrando-lhe insistentemente uma moeda. Talvez
para afastá-lo, talvez vencido pela compaixão, vejo que o mendigo tira do seu
prato uma moeda que lhe entrega. E foi neste momento que a cena se tornou
inesquecível. O pedinte ajoelha-se ali diante de todos, agarra as mãos do
mendigo e beija-as repetidamente, turbado pela emoção. Penso que finalmente o
percebi. Ele não pedia moedas. Pedia um bem mais raro e vital: pedia o dom.

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