A diocese de
Bragança-Miranda está a viver o Ano da Vocação. Um tempo especial para “uma
maior tomada de consciência da resposta que cada um é chamado a dar à pergunta
fundamental da sua vida: Senhor que queres que eu faça?”, referiu D. José
Cordeiro em entrevista a Olímpia Mairos da Rádio Renascença. Nela aborda a escassez de vocações e
apela à criatividade e à ousadia da oração, para que não faltem operários à messe,
mas frisa que “a questão vital é querer continuar a ser Igreja de Jesus Cristo,
a viver da Eucaristia e do Evangelho”.
Ano da vocação na diocese de Bragança-Miranda pretende criar a necessidade de Deus e do mistério de Cristo na vida concreta das pessoas.
Qual é o objectivo de um
ano dedicado à vocação?
Rezar, rezar, chamar,
testemunhar são os verbos que, em conjunto, aqui na diocese de
Bragança-Miranda, procuramos conjugar todos os dias, pessoal e
comunitariamente.
O tema geral é a resposta
que Isaías, Maria e tantos outros deram: “Eis-me aqui, envia-me”, para nos
tornar discípulos missionários. E o grande objectivo é fazer desta Igreja local
uma comunidade de discípulos missionários, a começar pela oração. Rezar pelas
vocações e a implicação “in persona” - É certo - como diz o Papa Francisco na
mensagem para este ano - Jesus pede-nos: “rogai ao Senhor da messe que envie
operários para a sua messe, porque a messe é grande”, e é normal que, olhando
para uma messe tão grande, a primeira preocupação seja de lavrar, de cavar, de
cultivar, de semear. Mas na confiança e na fidelidade a Jesus Cristo, a primeira
atitude é mesmo a união com Ele, é mesmo a oração. Porque a messe é grande
porque Deus quer que ela seja grande. E sempre foi grande; e há-de sempre
continuar a ser grande. Mas importa que cada discípulo missionário e nós, no
seu todo, sintamos esta consciência e percebamos que Deus nos ama e aquilo que
nos é pedido é uma resposta à sua vocação porque a vocação pertence a Deus; a
nós toca-nos é a resposta.
A resposta?
Nós, por vocação, somos
chamados à santidade e chamados por Deus e por mais ninguém. Por condição,
somos pecadores, frágeis. Mas, são as respostas do quotidiano ou aquelas que
marcam a vida - como na vida conjugal, na vida consagrada, na vida sacerdotal,
na vida missionária, na vida laical - que temos que dar em conjunto. Ninguém
tem vocação sozinho nem ninguém se sente chamado sozinho; somos membros de um
povo e pertença a Jesus Cristo, a este corpo de Cristo que é a Igreja. E também
como o Papa nos interpela, a vocação é como que um êxodo, é uma saída para ir
ao encontro de Cristo, do seu evangelho e dos outros.
Como flor e grão de
amendoeira.
A mim, tocou-me
particularmente a mensagem do Papa [para o Dia Mundial de Oração pelas
Vocações] e a imagem que ele usa do profeta Jeremias, que é aquela que nós
usamos na diocese: a flor da amendoeira e o grão da amendoeira. Esse é o
sentido daquele que está atento, que está vigilante. Mesmo ainda em pleno
inverno ela floresce. Nós também, mesmo nas dificuldades, nos problemas, nas
circunstâncias do quotidiano, nas angústias, nas tristezas somos chamados à
esperança, à alegria, ao amor, porque é Deus que nos chama e é Deus que nos
ama, nos consagra e nos envia.
Tem havido iniciativas
especiais no âmbito do ano vocacional para despertar as consciências?
A grande actividade é
mesmo a da oração, é o rezar constantemente e rezar de forma coral, rezarmos
todos até a mesma oração. E depois, algumas iniciativas no campo da formação,
da evocação, assinalando os momentos mais significativos da vida da Igreja,
sempre com esta dimensão da vocação, a que todos somos chamados. É daí que vem
o nome de Igreja: Ecclesia quer dizer exactamente isso - é o povo dos chamados,
a assembleia dos chamados por Deus a dar um sentido à vida e a fazer com que a
vida tenha sentido em Deus e que o amor seja aquela dimensão, aquela realidade
que informa todo o nosso viver, todo o nosso sentir, todo o nosso existir.
Depois, toda a pastoral ou todo o plano pastoral tem sido sublinhar esta
dimensão da pastoral vocacional e fazer com que ela continue, que não se
circunscreva a este ano pastoral que estamos a viver.
Fala-se muito em crise e
escassez de vocações. Bragança-Miranda também sente este problema?
A escassez de vocações é
uma realidade no sentido clássico do entendimento das próprias vocações. Também
há escassez de gente, há uma diminuição de pessoas nesta área geográfica da
diocese. Mas a questão não se coloca tanto no número das vocações ou no aumento
ou na diminuição das mesmas; a questão coloca-se se queremos ou não continuar a
ser Igreja de Jesus Cristo aqui, neste território, a viver da eucaristia e do
evangelho. Então, se queremos temos que ter a criatividade e sobretudo a
ousadia da oração que Deus nos mande os operários para a messe de que tanto
precisamos, de que tanto necessitamos. Mas a nossa maior necessidade é de Deus,
conforme aquela oração de Paulo VI – ó Cristo nós temos necessidade de ti. O
criar essa necessidade de Deus e do mistério de Cristo na vida concreta das
pessoas é o grande objectivo deste ano da vocação, para que cada um tome
consciência da resposta que é chamado a dar à pergunta fundamental da sua vida,
e que cada um deve colocar: “Senhor que queres que eu faça?”, “ Senhor que
queres de mim?”.
É preciso ter a coragem
de fazer a pergunta, mas também a ousadia da resposta…
Exactamente! E a Igreja
também deve continuar sempre nesta atitude de provocar ainda mais perguntas
porque a sua missão não é dar respostas; e sobretudo, como o Papa tem referido
tantas vezes, não há respostas dogmáticas e definitivas: há respostas da
verdade e, por isso, as vocações têm que ser testemunhas da verdade e as
respostas devem suscitar sempre novas perguntas. E a missão da Igreja é essa: o
gerar esta constante inquietação em cada pessoa para que nunca se contente com
aquilo que já é ou com aquilo que já faz, mas para aquilo a que é chamada a ser
na Igreja e no mundo.

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