Pobreza em Portugal é feminina
Reportagem de Filomena
Barros, Rádio Renascença, 22-01-2014
O perfil traçado pela AMI
é o de uma mulher que vive na companhia de alguém, ”uma imagem dominantemente
triste com um ar precocemente envelhecido, amedrontada, sempre com uma forte
vontade de ajudar quem está pior que ela”.
Os pobres em Portugal são
maioritariamente mulheres, entre os 40 e os 59 anos, desempregadas, com baixa
escolaridade e com rendimentos inferiores a 150 mensais, segundo o perfil
traçado num estudo da AMI divulgado esta quarta-feira.
O estudo "Vivência
da pobreza - O que sentem os pobres?" foi realizado ao longo de 2012/2013
e envolveu os beneficiários dos Centros Porta Amiga da AMI em todo país
(31.842), tendo sido validadas entrevistas de 26 mulheres e 24 homens, entre os
quais desempregados, beneficiários do RSI, estudantes, reformados e empregados.
Apesar do estudo ter como
objectivo "percepcionar a imagem vivenciada da pobreza" na população
apoiada pela Assistência Médica Internacional, a orientadora do estudo e
directora da Acção Social da AMI, Ana Martins, explicou que os resultados foram
validados por instrumentos estatísticos que permitem extrapolar esta dimensão
para um universo mais vasto.
Traçando o "perfil
dominante da pessoa em situação de pobreza no universo da intervenção social da
AMI", o estudo refere que tem "um rosto de mulher desempregada que
vive na companhia de alguém, uma imagem dominantemente triste com um ar
precocemente envelhecido, amedrontada, sempre com uma forte vontade de ajudar
quem está pior que ela".
Apesar da baixa
escolaridade (2º e 3º ciclo do Ensino Básico) e de pertencer a uma classe
social muito pobre, esta mulher percepciona-se como sendo da classe média baixa
e projecta-se a cinco anos como pertencendo à classe média baixa ou até mesmo
média.
"Luta por um
emprego, mas a falta de oportunidades ou a precariedade do emprego, juntamente
com os baixos salários, impedem-na de se autonomizar, facto que por vezes,
eventualmente, numa fase mais jovem da vida, lhe provoca sentimentos de revolta
à mistura com sentimentos de solidariedade e pena de si própria e dos outros
que possam viver em condições piores do que a dela", descreve o estudo.
Para esta mulher, o
"rendimento adequado" seria entre os 251 a 312 euros ou acima dos 312
euros “per capita”, refere o estudo.
A grande maioria dos
inquiridos (80%) considera o desemprego como a principal causa de pobreza,
enquanto 44% atribuem aos baixos salários e 26% culpam as próprias pessoas que
estão na situação de pobreza.
Quando questionados sobre
se alguma vez já se sentiram pobres, 52% referem que até há pouco tempo não,
mas que agora se sentem, 24% reconhecem que a sua família sempre foi pobre, 6%
dizem estar em risco de ficar numa situação de pobreza e 12% afirmam não estar,
nem nunca ter estado nesta situação.
Das pessoas que referem
não estarem, nem nunca terem estado em situação de pobreza, metade pertencem à
classe social definida pelo estudo de muito pobre e a outra metade à pobre.
Questionados sobre as
possibilidades de vir a sair da de pobreza, 30% pensam que têm algumas
possibilidades, 20% afirmam ter muitas possibilidades, 20% referem ter poucas
possibilidades e 18% nenhuma possibilidade.
O estudo refere também
que a vivência da pobreza "é fortemente associada às carências e à falta
de oportunidades, provocando a construção de um universo associativo de
sentimentos".
Os sentimentos estão
compreendidos numa "dimensão de âmbito pessoal" (medo, tristeza,
impotência, pena, acomodação, culpa, revolta, luta, vergonha, desilusão e
humilhação) e numa "dimensão de âmbito social", que contempla a
solidariedade com os outros, desigualdade/injustiça e a exclusão social.

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