Envelhecer: reconciliação com o passado e confiança na misericórdia



Anselm Grün
In A sublime arte de envelhecer, ed. Paulinas

Fico sempre triste quando as pessoas de idade blasfemam contra tudo ou estão insatisfeitas com Deus ou com o mundo. Muitas têm a sensação de terem ficado para trás. Andam às voltas com o passado, com as pessoas que as fizeram sofrer, com o destino que lhes pregou uma partida e com todas as aflições com que se depararam. Muitas vezes ouvem-se frases como esta: «Se não fosse isto, se fulano ou sicrano não tivesse feito aquilo, então ... » Mas, ao mesmo tempo, essas pessoas não querem admitir que não podem voltar ao passado.

Deviam assumir a tarefa de se comportarem de maneira diferente em relação ao passado; para todos os efeitos, elas não o podem mudar, apenas podem mudar a sua atitude. Para quem está do lado de fora, é difícil tentar atenuar a amargura de alguém ou dar esperança ou confiança a quem se desiludiu com a vida. O idoso nunca poderá ser feliz, se não conseguir reconciliar-se com a sua própria história. Não faz muito sentido tentar mostrar a um idoso de coração amargurado o lado positivo da vida, a felicidade dos seus filhos ou o valor do muito que ele fez ou produziu ao longo dos anos.

«Isso só serve para acentuar os sentimentos de culpa e agravar a mágoa de ter fracassado. A única esperança reside no facto de haver alguém que saiba ouvir e que se entregue à vida e à sua verdade nua e crua, não fugindo, mas tentando expressar com uma palavra, com um gesto, com um sorriso ou até com um silêncio amistoso, qualquer coisa como isto: "Eu sei, só tiveste uma vida para viver e não podes voltar atrás, mas eu estou aqui contigo e partilho a tua dor"» (Nouwen).

O que é que nos pode ajudar a reconciliar com o passado? É claro que podemos aceitar a dor, mas não devemos andar sempre de volta dela. Também não devemos reprimir o sentimento de raiva pelas pessoas que foram injustas para connosco e nos magoaram profundamente. Mas, mesmo aí, devemos parar de andar às voltas com a dor e com a raiva e dizer: «Foi assim. Doeu. Mas paciência... não deixo que o passado tenha poder sobre mim. No fim de contas, sobrevivi. Sinto orgulho por ter conseguido resistir. E agora cabe-me a mim decidir como quero viver, se quero que o passado condicione o resto dos meus dias ou se faço um corte radical com o passado para me dedicar completamente ao presente. O poder que o passado tem sobre mim depende da opção que eu fizer; sou eu que determino. Os meus sentimentos foram feridos por outras pessoas. Posso deixar que elas continuem a influenciar-me e destruam toda a minha vida. No entanto, essa decisão só tem a ver comigo. Eu sou o único responsável pela forma como quero viver».

As pessoas religiosas transformam muitas vezes as queixas sobre a sua própria vida em acusações contra Deus: «As preces aparentemente não ajudaram em nada. Apesar da minha fé, a vida tratou-me muito mal. Perdi o meu filho ou a minha filha demasiado cedo. E Deus levou o meu marido ou a minha mulher, embora fôssemos à missa todos os domingos. Nada mais faz sentido.»

Também consigo compreender estas acusações. Mas quando o tom com que são feitas for esmorecendo, posso e devo perguntar: quero agarrar-me à imagem que tenho de mim mesmo e à de Deus? Faço acusações a Deus por não corresponder à imagem que tenho dele? Ou estou disposto a conversar com aquele «outro Deus», que por vezes também é incompreensível, entregando-me a Ele? Se estas questões forem colocadas com seriedade, encontrarei consolo e esperança. Porque na velhice somos desafiados a abandonar as imagens que tínhamos de Deus para nos entregarmos a um Deus incompreensível. Ao mesmo tempo, crescemos na atitude confiante de que essa sua incompreensibilidade é, em última instância, amor.

Quando as pessoas de idade olham para o seu passado, surgem sentimentos de culpa. Sentem-se culpados de não terem dado aos filhos aquilo de que precisavam. Ou sentem-se culpados porque os seus filhos já não vão à missa. Se estes, por sua vez, lhes fizeram entender que foram culpados por eles serem incapazes de vencer na vida, os pais atormentam-se com censuras. Têm a sensação de terem feito tudo mal. E o único resultado de tudo isto é perderem a alegria de viver.

Conheci homens de idade que estiveram na guerra e só na velhice é que tomaram consciência do mal que causaram, o que os levou a uma auto-acusação e a uma autocondenação. Neste caso, a mensagem do perdão é muito importante. Quando Deus nos perdoa - e podemos ter a certeza de que isso acontece -, então também nos podemos perdoar a nós próprios. Temos de parar de andar às voltas com os nossos fracassos. Devemos oferecer a nossa vida, com tudo o que nela teve lugar, ao amor misericordioso do Senhor e acreditar que Ele a vai aceitar. A esperança de conseguirmos a misericórdia de Deus também nos leva a lidar com os outros com misericórdia e perdoar em nós tudo aquilo que até então censurávamos.

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