“Francisco é como um navio quebra-gelo. Vejo a sua força, mas também os riscos"


A entrevista de Francisco à Civiltá Cattolica sugere ao filósofo americano Michael Novak a metáfora do Papa quebra-gelo, o Papa que liberta a Igreja de seus rígidos fechamentos e abre o caminho do diálogo com as outras igrejas e a missão pastoral no mundo. “Como o Concílio Vaticano II, que seguiu como jornalista em 1963, assim Francisco deseja levar o catolicismo de volta para o espírito de suas origens” declara Novak ao celular.

“Esse Papa é cheio de surpresas. O retorno àquele que foi o espírito de quarenta anos atrás é bem-vindo, se bem que arriscado. Em minha opinião, o Concílio Vaticano II sai um pouco do caminho. Mas não acredito que Francisco fará o mesmo”.

A entrevista é de Ennio Carretto e publicada pelo jornal Corriere della Sera, 04-01-2014. A tradução é de Anete Amorim Pezzini.

Novak, um ex-assessor do presidente republicano Ronald Reagan na Casa Branca, é considerado um mestre do pensamento católico norte-americano. Entre seus livros, o mais famoso é talvez um de 1963, Open Church, publicado nos Estados Unidos da América pela editora McMillan. O livro, recorda o filósofo conservador, antecipou de alguma maneira a mensagem de Francisco à Civiltá Cattolica.

Diz Novak:

“No meu País contribuiu para o encontro e a conversação entre as várias igrejas, encontro e conversação que geraram em quase todos os protestantes um grande respeito pela Igreja Católica, não obstante os escândalos financeiros e sexuais dos últimos anos. E contribuiu também para o sentido da missão que animava os meus conterrâneos sacerdotes, a começar pelo meu irmão”.

Sobre este ponto ele não poderia estar mais em sintonia com Francisco.

“Acredito que o Pontífice rompe uma porta aberta com a grandíssima maioria dos fiéis, e que o gelo que rompe seja o do Vaticano e das outras instituições eclesiásticas”.

“Quando afirma que a primeira tarefa da Igreja não é o proselitismo, quando fala sobre trocar ideias com outras fés, Francisco traduz em doutrina o seus convites à caridade e à força na ternura”.

A sua referência ao Concílio Vaticano II implica uma comparação entre este Papa e João XXIII?

Sim, não somente porque João XXIII defendia o diálogo entre as religiões, mas também porque abriu as janelas da Igreja para a humanidade inteira. João XXIII afirmou que a Igreja deve estar a serviço do povo. A vida contemplativa é importante, mas, em princípio, as diferentes ordens nascem para operar nas ruas, nas escolas, nos hospitais e assim por diante. Não é por acaso que o Santo Padre inspira-se em São Francisco de Assis.

Que frutos podem dar o encontro, a conversação entre as igrejas?

Frutos abundantes. Vejo-o aqui nos Estados Unidos. O século XX trouxe uma maravilhosa explosão de ideias, figuras extraordinárias como Santa Teresa de Calcutá. Os metodistas norte-americanos, por exemplo, não estão mais muito sensíveis à filosofia humanística, mas agora estudam Santo Tomás e Santo Agostinho com enorme interesse. O ex-chefe dos metodistas do sudoeste, Richard Land, que se aposentou há pouco, professava-se antipapista, mas tinha admiração e afeto por João Paulo II.

E que frutos podem dar uma maior participação da Igreja Católica para a vida quotidiana da humanidade?

Frutos ainda mais decisivos. Francisco é o Papa dos pobres, dos doentes, daqueles que têm necessidades. A Igreja pode levantá-los não somente espiritualmente, mas também materialmente, se bem que em pequena medida, porque o Papa invoca também maior justiça e redistribuição da riqueza.

Pode-se falar de um renascimento do catolicismo? E em caso afirmativo, deve-se a Francisco?

Francisco revelou-se um fiel intérprete dos ensinamentos de Cristo. Mas o século XX foi talvez o século que nos deu o número máximo de mártires católicos desde o tempo do Império Romano. Católicos que levaram o Evangelho até  onde arriscavam a vida, como o meu irmão Richard, um sacerdote assassinado aos cinquenta anos, ou estão naquele que, hoje, é Bangladesh. Católicos que se identificariam nele.

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