Entrevista publicada em Jornal de S. Nicolau | www.jsn.com.cv | 28 Janeiro 2014.
Bispo do Mindelo, diocese
de Cabo Verde, fala da declarada opção pelos humildes, os mais fracos e
injustiçados, da relevância da origem latino-americana de Jorge Bergoglio [o
nome de batismo de Francisco], da Teologia da Libertação, e considera que a
mensagem do Bispo de Roma não é agradável para os defensores do capitalismo
puro e duro
Entrevistar o Bispo do
Mindelo foi uma surpreendente e agradável surpresa. Desde logo pela
simplicidade, pela simpatia e pela convicção – nossa – de que D. Ildo Fortes é
um homem que acredita profundamente no que diz e isso sente-se olhos nos olhos.
E também porque convive bem com as diferenças e as opiniões divergentes. É
firme nas convicções e flexível na compreensão do outro. Poderíamos estar horas
infindáveis a falar que dificilmente nos cansaria a conversa.
Na segunda parte desta
Grande Entrevista – que publicaremos amanhã -, D. Ildo fala da globalização da
indiferença, da ganância e da prevalência do mercado sobre o Homem, defendendo
uma Economia ao serviço das pessoas. Tempo ainda para abordar as preocupações
sociais da Igreja, a sociedade cabo-verdiana, explica a um agnóstico os
caminhos para se encontrar Deus e, contrariando a “ordem natural das coisas”,
faz ele próprio perguntas ao jornalista.
JSN -Já nos tinha
referido, em conversa telefónica, que se identifica muito com as ideias do Papa
Francisco, mas numa pesquisa que fizemos para esta entrevista encontramos um
outro ponto de identificação. Uma coisa que surpreendeu o mundo foi este Papa
ter recusado o ouro e optado pela prata. Curiosamente, dois anos atrás, quando
foi ordenado Bispo, o senhor assumiu símbolos episcopais em prata. E isso não
decorrerá de questões de natureza estética…
D. Ildo Fortes – Decorre
da simplicidade, dar o menos possível nas vistas.
E, já que falamos em
simplicidade, esta é a primeira visita episcopal que faz, este ano, fora do
Mindelo, curiosamente logo à Paróquia de S. Francisco de Assis, um homem que
fez uma opção pela simplicidade e pelos mais fracos. Uma “coincidência” que,
juntando a outras “coincidências”, parece sugerir uma linha – eventualmente
subconsciente – de opção pelos mais humildes, pelo despojamento, contra um
“pecado” apontado durante muito tempo à Igreja Católica: a ostentação.
Ostentação de algumas
fações da Igreja, porque poderemos cometer uma grande injustiça em relação a
muita gente que vive seriamente a sua dimensão de desprendimento, muitas vezes
no anonimato. Se calhar,aparece um Cardeal vestido de ouro e toda a gente o
mete nas imagens, temos milhares de pessoas a andar pobres e descalças e
ninguém vai lá para noticiar. As generalizações são sempre perigosas. Mas a
Igreja deve não só sê-lo mas também dar essa imagem de pobre e servidora, e
penso que o Papa tem dito isso mesmo de muitas maneiras. Ele quer uma Igreja
pobre para os pobres e os pastores, evidentemente, devem ser os primeiros a dar
o exemplo. Mas acho que o Papa usa de uma pedagogia muito bonita: vai fazendo
essa mudança sem ruturas e sem mágoas.
Por exemplo, um dia, um
grupo de crianças de um colégio foi ao Vaticano, e uma delas perguntou: como é
que Sua Santidade explica que não tenha querido ir viver para o Palácio Papal e
ir viver para uma residência onde os hóspedes ficam? Ele respondeu uma coisa
muito bonita que significa também consideração pelos seus antecessores: que o
facto de ter recusado ir ali viver não significa que, por se chamar Palácio
Papal, seja assim uma coisa tão luxuosa, ele é que por razões pessoais – até
“psiquiátricas”, entre aspas – precisa de estar com os outros, porque não
consegue viver sozinho. Se é só isso, não sei, mas é uma forma muito bonita de
não desconsiderar ninguém.
Este discurso de opção
pelos mais pobres, pelos mais frágeis, tem sido até um discurso recorrente de
todos os Papas, mas – e esta é a visão do jornalista e do cidadão – notava-se
que, em relação a alguns deles, era um lugar-comum. Mas com este Papa
percebe-se que é uma coisa genuína. E isso sente-se – vem de dentro -, até
porque a sua prática na Argentina, em Buenos Aires, era rigorosamente essa. Por
outro lado, esta referência à Argentina leva-nos a uma outra questão: será que
o facto de Francisco ser latino-americano trouxe algo de novo à Igreja?
Não tenho dúvidas
nenhumas, mas convém salientar que o Papa Francisco não trouxe um estilo
diferente daquilo que já era. O que ele tem sido como Bispo de Roma é aquilo
que já era como Bispo de Buenos Aires: um homem do povo, no meio do povo,
pobre, andava nos transportes públicos… e sempre foi muito criativo dentro da
sua Diocese. E esta maneira de estar, como pessoa, como pastor, ele a levou
para o Vaticano. Mas este Papa, vivendo onde viveu – um país com muita pobreza
-, num país que é uma coisa nova em relação à velha Europa, há uma outra
liberdade, uma outra forma de estar na vida, uma outra relação com as
instituições. Tem coisas boas, e, mesmo em relação à própria Teologia da
Libertação, que nasceu na América Latina…
Mais adiante gostaríamos
de falar nisso.
… ainda bem que quem
conduz hoje os destinos da Igreja tenha vindo da América Latina, para nos
trazer esta novidade toda. Mas, talvez, a própria Igreja estivesse a precisar
disso. Repare… estive há poucos dias com um dos Cardeais que este na eleição do
Papa, o Cardeal Thódore Sarr – nós fazemos parte da mesma Conferência
Episcopal, Cabo Verde, Senegal, Guiné-Bissau e Mauritânia -, e eu dizia-lhe: Ó senhor
Cardeal, o que acha deste novo Papa com as suas ideias bonitas… e ele respondeu
“então, nós é que o escolhemos”. Uma resposta óbvia, no sentido em que os
cardeais desejaram isso.
E não houve suspeições de
fraude eleitoral no Conclave (risos).
É claro que há sempre
conversas prévias, para se conhecer melhor a personalidade das pessoas, o seu
percurso, inteirar-se do pensamento de um e outro… Ou seja, o Papa Francisco,
para além do carisma pessoal que notamos no seu ministério, está a encarnar, a
concretizar o desejo dos que o elegeram.
E, de uma forma muito
mais abrangente, os desejos da Igreja no seu todo.
Sem dúvida, e os cardeais
vão para ali de todas as partes do mundo, levam a sua sensibilidade e levam,
também, os anseios da sua gente, das suas igrejas. Portanto, há um programa que
a Igreja lhe propõe. E na Igreja Católica não há lugar para freelancers, há
lugar para carismas. O Cardeal Jorge Bergoglio tem o seu carisma, todos nós
temos o nosso carisma e não devemos anulá-lo de maneira nenhuma, independentemente
do ministério que assumimos na Igreja.
E isso é que torna
genuína a mensagem.
Sim, mas ao mesmo tempo
somos servidores de Jesus Cristo, da Igreja, somos porta-vozes, não somos
donos. O Papa nunca irá fazer na Igreja o que ele quer, mas discernindo,
escutando o senso do povo, para concluir: é para aí que devemos caminhar.
Fez referência à Teologia
da Libertação, e o seu mais visível “ideólogo” é Leonardo Boff, uma figura que,
de algum modo, se afastou da Igreja não se afastando, que é um declarado
defensor das ideias deste Papa. Fica-se com a ideia – e esse será, talvez, o
seu maior mérito -, para além da opção pelos mais fracos, que Francisco tem uma
grande capacidade em congregar setores desavindos da Igreja e, mais que isso,
agregar e influenciar o resto do mundo. Ou seja, para além da mensagem interna,
ele está a passar uma mensagem para o mundo. Ele, inclusive, já está a suscitar
alguma simpatia entre os ateus e agnósticos que o veem como voz de uma mensagem
nova.
Deixe-me dizer-lhe com
franqueza, parece-me que os ecos mais fortes de contentamento em relação ao
Papa os sentimos fora da Igreja. Ainda no mês de dezembro saí para Portugal,
tenho estado muitas vezes com gente da política, gente do Governo, gente da
Cultura, gente que está de fora, que não pertence à Igreja – alguns deles que
não professam a fé -, porque sendo mesmo agnósticos ou ateus esperam sempre da
Igreja um sinal. E estou completamente de acordo que o Papa tem feito um
trabalho notável, para já para a Humanidade se sentir una, porque ele também se
sente filho da Humanidade. Adotou o nome de Francisco evocando Francisco de
Assis, que falava muito na fraternidade, Então, o Papa assume esta posição: eu
sou um irmão de todos, não sou o chefe de todos, não sou o líder de todos, sou
um irmão de todos.
São curiosas aquelas
conversas telefónicas que ele tem com pessoas que lhe escrevem.
Sim, aliás, no primeiro
discurso do Papa quando se apresentou ao mundo, ele falou sempre como Bispo de
Roma, o que teologicamente significa muito. É o Bispo de Roma, como há o Bispo
do Mindelo e o Bispo de Londres, põe-se numa posição de igual, o que é muito
bonito. Mas sem subtrair o seu papel histórico de garante da unidade. A
expressão é: ele preside à caridade. O Bispo de Roma, desde a antiguidade, é
primus interpares.
Já li vários comentários
de Leonardo Boff sobre o Papa Francisco com os quais não concordo de todo, por
uma razão: ele apresenta Francisco numa visão dicotómica, por comparação com os
outros Papas, e já não me sinto confortável nesse papel. Não tenho que dizer
mal de Bento XVI para poder dizer bem de Francisco.
Mas percebo a posição do
Boff porque, por um lado, essa é a posição dos que se afastaram da Igreja e,
por outro, a dos que nunca tiveram nada com a Igreja. Ou seja, a primeira
imagem é sempre comparativa. Mas percebo que o Senhor Bispo não faça essa
associação, até porque os religiosos, de uma forma geral, defendem que as
posições deste Papa decorrem de uma sequência ligada às posições assumidas
pelos antecessores, uma espécie de “evolução na continuidade”.
Penso que sim, há
evolução, há continuidade. O que se passa é que muita gente, de facto, tem um
passado de mágoa com alguns antecessores deste Papa. O Papa Bento XVI, que se
revelou como uma surpresa, antes de ser Papa era uma espécie de “Fiscal da
Igreja”, porque o papel que ele tinha na Cúria Romana era esse mesmo, era o
Cardeal-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.
Que, de algum modo – e
até erradamente -, tem uma imagem associada à Santa Inquisição de triste
memória.
É a “Inquisição” da
atualidade, em novos moldes, porque temos de ter alguém que seja, um bocadinho,
o garante da ortodoxia, senão qualquer um diz qualquer coisa e está tudo
correto. E não é bem assim, tem de haver alguma voz autorizada que possa dizer
“atenção, estás a desviar-te”. O Papa Bento XVI, na altura Cardeal Ratzinger,
foi quem teve de silenciar teses da Teologia da Libertação, defendida por
Leonardo Boff e outros, porque direcionou-se muito no sentido político. A
Teologia da Libertação é muito bonita na sua génese. Aliás, a Igreja sempre
defendeu a sua opção preferencial pelos pobres, faz parte da sua doutrina.
Estar ao lado dos que mais precisam, dos trabalhadores que não têm garantidos
os seus direitos, porque isso é o que sempre fez Jesus Cristo. Mas isto não
significa que criemos um bloco político, ou que digamos: sou de esquerda ou sou
de direita.
Mas isto também acontece
numa altura em que surge a Teologia da Libertação com o essencial da América
Latina a viver sob o jugo de ferozes ditaduras militares, e esse lado mais
político percebe-se até como “acidente histórico”.
Mas, como dizia, essa
mágoa é difícil de ultrapassar. A Igreja esteve sempre na sua melhor forma?
Também não esteve. Mas em relação à Teologia da Libertação a Igreja teve mais
que uma postura: num primeiro momento foi muito dura; mas noutro momento já foi
mais suave. O que é necessário é que – e na história da Igreja isso tem
acontecido – quem está mais à frente, no pensamento e na intuição, deve
perceber que faz parte de um todo e ter alguma paciência para ajudar a Igreja a
dar aquele passo. E Leonardo Boff deveria ter ajudado a Igreja a dar esse
passo, como fizeram muitos que não saíram da Igreja. Não acredito que a
mensagem do Papa Francisco seja simpática para os poderosos - não é; seja
agradável aos que defendem um capitalismo acérrimo acima de tudo - não é.
“Devemos ter o mercado em função do bem e do Homem”
Nesta segunda e última parte da Grande Entrevista, D. Ildo Fortes, bispo do
Mindelo, diocese de Cabo Verde, continua a dissertar num registo muito virado
para as questões sociais e as inquietações deste nosso tempo, mas também sobre
os caminhos da Igreja cabo-verdiana, onde a fraternidade se afirme como modelo
de vida, e os mistérios da descoberta de Deus.
CVD - Estou a ver aqueles senhores
da Cimeira de Davos a ouvir a mensagem que o Papa Francisco lhes enviou, ao
Fórum Económico Mundial, e que, em linhas gerais, defende uma nova ordem
económica.
D. Ildo Fortes - Infelizmente, a globalização tem sido a globalização da
indiferença, onde a pessoa perde o seu rosto, o elo mais fraco fica sem voz,
fica perdido. E isso é mau.
Vivemos num tempo em que 1 por cento
da Humanidade controla as riquezas do mundo, isto é até anticristão.
É desumano. Qualquer homem que tenha coração, sensibilidade – não precisa
de ser cristão, religioso – deve perceber que isto não é normal. Até porque o
normal é viver a fraternidade. Estando à frente de uma empresa ou instituição,
é preciso partilhar com os outros. Repare, o que está a acontecer em Portugal é
só culpa da Europa?
Não só, é da ganância.
Da ganância, houve gente que enriqueceu muito… Perguntamos: onde é que
estiveram as políticas sociais? Os donos das grandes empresas partilharam com
os seus trabalhadores? O que se passa é o seguinte: o mercado prevalece em
relação ao Homem, infelizmente. Devemos ter o mercado em função do bem e do
Homem.
A Economia deve estar ao serviço do
Homem.
Mas temos o contrário, o Homem ao serviço do mercado.
E esta conversa leva-nos a uma outra
questão, que é a opinião de algumas pessoas com ativismo social – crentes e não
crentes, que têm como fio condutor a intervenção social – de que a Igreja
cabo-verdiana tem uma intervenção muito virada para dentro, por exemplo, está
ausente da realidade laboral. Ou seja, não tem estruturas próprias, não tem voz
própria, não tem intervenção no movimento sindical. E parece que a Igreja – e
admito ser uma crítica injusta – tem algum acanhamento na denúncia dos males
sociais. Parece que a Igreja é boa a confortar as almas, mas não é eficaz a
apontar caminhos.
Eu destrinçaria as coisas nalguns pontos. Para já, agradeço-lhe muito esta
apreciação porque me ajuda a refletir, a pensar, é sempre bom o confronto de
ideias. E isto tem muito a ver com o que falávamos há pouco sobre a Teologia da
Libertação e o modo de intervir na sociedade. A Igreja não pode alinhar em
todas as estruturas que estão na sociedade, sobretudo quando muitas delas estão
politizadas ou partidarizadas. A Igreja dar a cara para parecer que está com
este ou com aquele, não é a nossa função. Os cristãos é que, de uma maneira
pessoal, devem, sim, o mais que puderem – e segundo a sua consciência –
envolver-se nas associações, nos sindicatos, isso deve acontecer.
Mas devo dizer-lhe que tenho conversado com o meu colega Bispo, D. Arlindo,
sobre a necessidade de criarmos um organismo, que é uma Comissão de Justiça e
Paz. Deveríamos ter quem nos ajudasse a refletir, entendidos na área social, na
área laboral, política, e criar círculos de reflexão que fazem muita falta no
país.
Mas esses círculos de reflexão
seriam só para crentes?
Não, podem envolver todos, crentes e não crentes, porque isso é, depois,
uma voz que se faz ouvir. Mas – dizia – é preciso criar estruturas para a
reflexão e também para a intervenção, com o apoio dos Bispos e sendo voz da
Igreja. Porque a Igreja não são só os Bispos.
E temos uma outra estrutura, virada para as questões sociais, que está
agora numa fase de reestruturação, que é a Cáritas Nacional e com as suas
vertentes locais, a Cáritas Diocesana. Fizemos em novembro a primeira Assembleia
Geral, onde foram apresentados os órgãos sociais. É uma estrutura que está no
terreno e tem aquilo a que chamamos “as antenas”, em todas as paróquias do país
temos pessoas a reunir semanalmente com a nossa gente, vão aos bairros, vão às
ruas, conhecemos os pobres. Mas a Igreja não trabalha para ser vista.
É um trabalho de “formiguinha”…
Chame-lhe o que quiser, “não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita”,
são palavras de Jesus. Às vezes há instituições – e até confissões religiosas –
que quando fazem uma coisinha chamam logo os jornalistas para dizer “olhem, nós
fizemos isto”, a Igreja não faz isso, não precisa de chamar a atenção para
dizer “nós somos muito bons”. A Cáritas, todas as semanas, visita pessoas
pobres, ajuda com alimentos, com medicamentos, nalguns momentos especiais é
mais visível, por altura do Natal com as cestas básicas, mas não é só aí que
está presente, é todo o ano. A Igreja trabalha como uma espécie de fermento na
massa, o fermento a gente não vê, mas a massa lêveda. O trabalho da Igreja é
muito disto, trabalho de “formiguinha” como referiu.
Na última quarta-feira, em São Vicente, durante a missa, esteve comigo uma
franja grande da população, milhares de pessoas, estiveram também connosco o
Presidente da República, o Presidente da Câmara, o Presidente da Assembleia
Municipal, deputados, entidades públicas. Quando pensamos numa homilia, naquele
caso, a figura central era o São Vicente, pensamos em dirigir uma mensagem aos
fiéis da Igreja é à sociedade que nos escuta.
Que é também o padroeiro da cidade
de Lisboa, as pessoas pensam que é o Santo António, mas é o São Vicente.
(Risos) Na minha homilia frisei isso. Mas, no Mindelo, o primeiro Pároco de
São Vicente fui eu, agora é o padre Paulo, ele é cabo-verdiano mas foi ordenado
em Zaragoza, de onde é o São Vicente. E a minha intervenção foi um bocadinho à
volta do Diácono São Vicente, alguém que se esqueceu de si para pensar nos
outros, alguém que abriu mão das suas seguranças – podia ter tratado da sua
vida – para se agarrar a outras seguranças. Lanço-lhe um desafio: procure saber
o que os padres disseram a milhares de pessoas no domingo. Suponho que aqueles
que lá vão, depois, irão retransmitir a mensagem, deveria ser assim porque eles
vão para o trabalho, para a escola, para a família, para o bairro… Isto para
dizer que nós temos uma cadeia, uma rede de comunicação na Igreja que nem
sempre se vê. O modo de funcionar da Igreja é muito por aí, o que não dispensa
– como lhe dizia – uma estrutura que possa ser porta-voz das nossas reflexões,
e talvez até o próprio Episcopado cabo-verdiano pudesse ter um porta-voz.
Já que estamos no Tarrafal, há uma
situação curiosa, de algum modo a Igreja antecedeu aqui o Estado. E estou a
lembrar-me do Padre Gesualdo. O primeiro jardim-de-infância do Tarrafal foi
fundado pelo Padre Gesualdo, por exemplo – uma coisa que, na altura, até
percebo que lhe tenha criado alguns anticorpos -, fez uma coisa absolutamente
revolucionária: transformou as capelas, para além de espaços de culto, em
escolas. Ou seja, naquele tempo, a Igreja fez aquilo que o Estado não fazia.
Duas coisas: por um lado, espero que não seja novidade para ninguém que a
Igreja, na nossa sociedade cabo-verdiana, teve e continua a ter um papel ímpar
na educação, a nível social, escolas, hospitais, associações, trabalhar com a
juventude… A Igreja é a primeira, aquilo que o Padre Gesualdo fez aqui no
Tarrafal é um pouco daquilo que em toda a parte foi acontecendo. A Igreja é
perita em humanidade.
Mas, também, ao longo dos séculos, a
igreja foi perita em perversidade.
Não, perita em perversidade não, teve as suas falhas, E João Paulo II, de
uma forma tão bonita, naquilo que ele chamou no ano 2000 a “purificação da
memória” – porque a Igreja é feita de pessoas como eu e você -, por isso ela
transporta os pecados dos seus filhos. E, sim, é verdade, ao longo da História,
em determinados momentos, aconteceram coisas não tão dignificantes, mas
comparadas com aquilo que é a ação da Igreja no mundo…
Incomoda-lhe a evidente desigualdade
social em Cabo Verde?
Incomoda, sim. Temos de caminhar no sentido de alcançarmos maior justiça e
menor desigualdade social, num caminho de fraternidade no nosso país, Um país
como o nosso, que vive, em grande parte, de ajudas exteriores, deveria olhar
muito bem para os seus dirigentes, Repare que não estou a fazer juízos de
valor, e conheço muitos dirigentes que são simples e humildes, mas deveríamos
pautar o nosso estilo de vida mais de acordo com aquilo que é o nosso povo,
penso que só nos ficaria bem.
Terminaria como iniciei, voltando ao
Papa Francisco naquele sentido em que está a influenciar setores fora da
Igreja, mesmo setores de não-crentes. Ou seja, embora haja pessoas que, não
sendo crentes, se revêm muito na mensagem cristã, o que faria o Bispo do Mindelo
para convencer um agnóstico ou um ateu da existência de Deus?
O fenómeno de acreditar é muito mais elementar do que a gente pensa. Você é
um homem de crenças?
Não, mas sou um homem de convicções
e há coisas em que acredito, mas tenho dificuldade em acreditar no divino – e
até admito que seja uma incapacidade minha.
Mas não tem necessidade de experienciar para acreditar em algumas coisas.
Quando de manhã pega num pão e lhe dá uma trincadela, você acredita que o
padeiro não meteu agulhas naquele pão, O ato de fé é uma coisa permanente na
vida humana. Às vezes pode estar adormecido, mas o ato de fé exige de nós uma
disposição pessoal, não é por geração espontânea. Mas acredito que todos
trazemos dentro de nós uma marca do infinito que nos faz viver insatisfeitos, à
procura. Porque – e esta é a visão cristã – fomos criados por Ele e a sua marca
está em nós. O ato de fé, que envolve todas as capacidades da pessoa humana,
não pode acontecer sem a gente se desprender. Eu só posso acreditar se decidir
experimentar, não se pode ter fé à distância. Só quando você se deixar cruzar
com Ele é que perceberá o que é a fé. Deus respeita-o de tal forma que nunca se
irá impor. Dá-lhe sinais mas nunca se impõe.
Naturalmente que personificamos esta
questão na minha pessoa, mas isto tem uma lógica mais abrangente. Deduzo,
então, que o Senhor Bispo propõe que as pessoas se interroguem sobre as suas
inquietações e procurem encontrar respostas. Há que encontrar caminhos para as
inquietações falarem?
Que deixem as inquietações falarem (risos). Eu acho que é assim: querer
encontrar Deus fora não funciona, é uma coisa interior. O grande problema é
que, às vezes, pensa-se num grande percurso mental e existencial para encontrar
Deus. Deus não está longe e se estiver polarizado fora, nunca O vai encontrar.
Preciso de entrar no santuário que sou eu mesmo, escutar meu coração, ver qual
é a minha sede. Quando começar a escutar isso talvez possa encontrar o caminho
de Deus.
AAP
PERFIL:
D. Ildo Fortes estudou como membro do presbitério de Lisboa. Foi nomeado
bispo por Bento XVI para a mais jovem diocese de Cabo Verde, Mindelo. A
ordenação episcopal decorreu no dia 3 de abril de 2011, na Igreja de São
Vicente de Fora, em Lisboa, numa celebração presidida por D. José Policarpo.
A Diocese do Mindelo foi criada pelo Papa João Paulo II a 14 de novembro de
2003. Desmembrada da Diocese de Santiago de Cabo Verde, é constituída pelas
seis ilhas do Barlavento: Sal, Boa Vista, São Nicolau, São Vicente, São Antão e
Santa Luzia (deserta).
Contactos:
Rua Che-Guevara
C.P. 447
2110 MINDELO
Cabo Verde
E-Mail: diocesemindelo@cvtelecom.cv
No Facebook: www.facebook.com/diocese.mindelo

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