Reflexão de Padre Bevil Bramwell, sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada
e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um
doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.
Acontece tanta coisa durante um ano litúrgico que muitos eventos
importantes passam sem sequer darmos por eles. Um acontecimento bastante
importante – ao qual quase ninguém deu importância na altura – foi quando o
Papa Francisco falou especificamente ao clero, mesmo antes da Páscoa, sobre o
sacerdócio, durante a sua homilia na missa crismal, em São Pedro. Vale a pena
olhar de perto para as suas palavras.
Na missa crismal o bispo benze os óleos que serão usados durante o ano para
os baptismos, crismas, unção dos doentes e ordenações. A graça desses
sacramentos preserva e ajuda a desenvolver a Igreja pela qual ele é
responsável.
Em Roma, o Papa Francisco disse: “As Leituras e o Salmo falam-nos dos
«Ungidos»: o Servo de Javé referido por Isaías, o rei David e Jesus nosso
Senhor. Nos três, aparece um dado comum: a unção recebida destina-se ao povo
fiel de Deus, de quem são servidores; a sua unção «é para» os pobres, os
presos, os oprimidos”.
Ele não disse que era para os “católicos pobres”, etc. Há muito que a Igreja
atende a, e defende, os pobres e oprimidos de qualquer comunidade em que está
presente.
A expressão usada pelo Papa recorda as palavras amargas usadas pelo último
imperador pagão de Roma, Juliano, o Apóstata: “Enquanto os sacerdotes pagãos
ignoram os pobres, os odiosos galileus [i.e., cristãos] dedicam-se a obras de
caridade e, ao exibir esta falsa compaixão estabeleceram e efectivaram os seus
erros perigosos. Esta prática é comum entre eles e conduz ao desprezo pelos
nossos deuses”. (Epístola aos sumos sacerdotes pagãos)
Claro que os “Deuses” de Juliano não existiam. E numa cultura que os
promovia, actos de verdadeira caridade mostravam até que ponto esses “deuses”
eram de facto nada mais que imaginação. Não devemos encarar isto com leveza,
tendo em conta que os dois falsos deuses, criados da imaginação moderna – o
nazismo e o marxismo – assassinaram dezenas de milhões de pessoas no século XX
e a contagem do extremismo liberal em assuntos como o aborto na nossa própria
sociedade é grande e continua a crescer.
O Papa estabelece uma ligação entre a unção e os actos dos ungidos, os
padres. Originalmente: “Também no peitoral [do sacerdote] estavam gravados os
nomes das doze tribos de Israel (cf. Ex 28, 21). Isto significa que o sacerdote
celebra levando sobre os ombros o povo que lhe está confiado e tendo os seus
nomes gravados no coração. Quando envergamos a nossa casula humilde pode
fazer-nos bem sentir sobre os ombros e no coração o peso e o rosto do nosso
povo fiel, dos nossos santos e dos nossos mártires, que são tantos neste
tempo”.
Psicológica e espiritualmente, estamos perante um homem de natureza
diferente. Este padre que conscientemente “carrega” o seu povo quando se
aproxima do altar do Senhor. A graça e o esforço moldaram a sua consciência
para agir dessa forma. O padroeiro dos padres, São João Vianney, considerava-se
responsável pelas falhas morais do seu povo.
Francisco usa repetidamente o termo “seu povo”. O padre não é um director
executivo, mas o pastor do seu rebanho. O termo, retirado das escrituras, ainda
tem peso. Não foi substituído por alternativas seculares e modernas.
Mais, o pastor tem um efeito sobre o seu rebanho:
“O bom sacerdote reconhece-se pelo modo como é ungido o seu povo; temos
aqui uma prova clara. Nota-se quando o nosso povo é ungido com óleo da alegria;
por exemplo, quando sai da Missa com o rosto de quem recebeu uma boa notícia. O
nosso povo gosta do Evangelho quando é pregado com unção, quando o Evangelho
que pregamos chega ao seu dia a dia, quando escorre como o óleo de Aarão até às
bordas da realidade, quando ilumina as situações extremas, ‘as periferias’ onde
o povo fiel está mais exposto à invasão daqueles que querem saquear a sua fé. “
Não estamos perante a boa nova da homilia de “duas piadas e um anúncio”,
mas da verdadeira Boa Nova, com maiúsculas. Além disso, o Papa faz esta
afirmação sabendo por experiência que a fé genuína é recebida com hostilidade.
A sua reflexão termina com um olhar sobre a paróquia:
“As pessoas agradecem-nos porque sentem que rezámos a partir das realidades
da sua vida de todos os dias, as suas penas e alegrias, as suas angústias e
esperanças. E, quando sentem que, através de nós, lhes chega o perfume do
Ungido, de Cristo, animam-se a confiar-nos tudo o que elas querem que chegue ao
Senhor: ‘Reze por mim, padre, porque tenho este problema’, ‘abençoe-me, padre’,
‘reze para mim’… Estas confidências são o sinal de que a unção chegou à orla do
manto, porque é transformada em súplica – súplica do Povo de Deus.”
A visão que o Papa tem de uma verdadeira paróquia é sumamente interpessoal
e verdadeiramente comunal (a “comunidade”, infelizmente é um conceito que foi
esvaziado de verdadeiro sentido nos Estados Unidos). Ele enfatizou o aspecto
interpessoal de forma negativa também, falando do padre que “não colocando em
jogo a pele e o próprio coração, não recebem aquele agradecimento carinhoso que
nasce do coração”.
Este é um Papa que tem uma forma bastante terra-a-terra, mas solidamente
teológica, de comunicar a fé. E ainda agora começou.
(Publicado pela primeira vez no Domingo, 5 de Maio 2013 em The Catholic
Thing)
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