Artigo de opinião
de Cristina Sá Carvalho
Psicóloga
com o título «Like a rolling stone», in «Página 1», Rádio Renascença, 4 de fevereiro de
2014
Num congresso, que, em
Fátima, reuniu cerca de quatro centenas de docentes dos ensinos básico e
secundário, D. José Policarpo abriu os trabalhos reflectindo sobre a relação
entre “Cultura, Escola, Religião”, explicando a primeira “como dinamismo
envolvente, que desabrocha numa sabedoria, que define e burila a identidade
espiritual e moral de uma comunidade”.
Desafiou os responsáveis
educativos, e a sociedade em geral, a “perguntar se os nossos sistemas
educativos, com relevância para as nossas escolas, respiram e promovem a nossa
cultura”.
Sublinhando, contra as
marés do apagão existencial, que “da harmonia da cultura brota a sabedoria...
compreensão profunda da existência humana, donde brota a dimensão ética, e da
história”, recordou que a sabedoria “tem a sua fonte na memória de uma
comunidade e exprime-se no presente, inspirando a liberdade e abre-se à
esperança, rasgando caminhos de futuro”. Recordou que a pregação de Jesus,
condenando o farisaísmo, “dá prioridade total à sabedoria, baseada na dignidade
do homem, sublinhando essa dignidade nos mais pobres e desprezados,
apresentando a Lei de Deus como a manifestação do amor misericordioso”,
acrescentando que o actual Papa, “ao sublinhar que o anúncio do Evangelho pela
Igreja não é o enunciado claro e defesa racional de um edifício de leis morais,
mas o anúncio do amor, desafia a Igreja a privilegiar o caminho da sabedoria”.
Do contributo que
ofereceu para a reflexão sobre a escola e a cultura, e o papel do religioso em
ambos os planos do desenvolvimento da pessoa, não ignorou os desafios colocados
pelo encontro entre as mentalidades pré-digitais e as gerações nativas
digitais, cuja visão da realidade menoriza a importância do tempo –
identificada com a introdução da incompreensível categoria “tempo real” –
quando “relativizando a importância do tempo, relativiza-se a memória, perde-se
a dimensão comunitária da liberdade, o ‘nós’ de um povo que está na base de
toda a tradição”. Haverá, pois, “pouco espaço para a doutrina e para a fé da
Igreja, fidelidades para toda a vida, relação do tempo com a eternidade,
pertença a uma mesma comunidade que é a mesma hoje e há dois mil anos”?
O Cardeal Policarpo
recordou que toda a transformação cultural é sempre um caminho para a liberdade
e “se não for, a cultura nega-se a si mesma. Mas o momento é preocupante e
exige de todas as pessoas e estruturas de educação um esforço acrescido. A
escola actual está no centro do furacão. É preciso valorizar a dimensão
comunitária do ser humano, que encontra no amor a principal expressão da
liberdade. A escola tem de ser feita com amor e educar para o amor,
definindo-se, assim, como colaboração com a família”.
A sua intervenção ainda
trouxe, aos presentes e aos ciber navegadores, um plus de lucidez pela clareza
com que apresentou o projecto teológico do Papa Francisco, cujo autor é por
estes dias notícia nas páginas do profissionalíssimo jornalismo da “Rolling
Stone”. Uma das periferias culturais mais influentes do planeta decidiu
observar por si mesma as movimentações da Loggia, alçando o Papa à categoria do
Bulwort que julgávamos impossível. Os tempos mudam e as vozes roucas do
protesto – about having to be scrounging for your next meal, when you ain’t got
nothing – encontraram formas de acolhimento e eco, há muito esperadas.
O desespero da
invisibilidade humana, e a denúncia do fraco interesse que desperta, soam mais
alto e mais forte, com ou sem acompanhamento musical.


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