Reflexão de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá,
comentário às leituras do 6.º Domingo Comum, Ano A
Referências bíblicas:
Primeira leitura: Eclesiástico 15, 15-20
Segunda leitura: 1 Coríntios 2, 6-10
Evangelho: Mateus 5, 17-37
No trecho do Sermão da Montanha de hoje, Mateus retoma quatro regras da Lei de Moisés que os escribas e os fariseus respeitavam escrupulosamente, prendendo-se à letra, mas sem o espírito e longe do coração. Mateus, que é um judeu convertido ao cristianismo, usa um género literário, a hipérbole, que é um aumento, um exagero, uma amplificação, destinada a produzir uma forte impressão, para que os cristãos da sua comunidade compreendam que eles não devem impor os preceitos judaicos à maneira dos escribas e fariseus na sua vida de fé cristã, na Igreja. Mateus interpreta a Lei, colocando o acento sobre o ser humano, a serviço de quem ela deve estar...
1. “Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: ‘Não mate! Quem matar será condenado pelo tribunal’” (Mt 5,21).
À condenação da morte, o Jesus de Mateus opõe a condenação da cólera, do insulto e do desrespeito do outro, do irmão, do semelhante.
Basicamente, não matar não é tudo, mas também ter relações harmoniosas com os outros, porque somos todos irmãos e irmãs. É até mais importante a reconciliação com o outro do que a oferenda sobre o altar ou a missa do domingo: “Portanto, se você for até o altar para levar a sua oferta, e aí se lembrar de que o seu irmão tem alguma coisa contra você, deixe a oferta aí diante do altar, e vá primeiro fazer as pazes com seu irmão; depois volte para apresentar a oferta” (Mt 5,23-24).
2. “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não cometa adultério’” (Mt 5,27).
É no olhar do proprietário (a avareza) posto sobre o outro que se joga o adultério, e não no momento do ato sexual propriamente dito.
Na época de Mateus, qualificava-se de adúltera a mulher seduzida e não o homem sedutor. Ao aplicar ao desejo do homem o adultério, Mateus inverte a culpabilidade que era atribuída somente à mulher: “Eu, porém, lhes digo: todo aquele que olha para uma mulher e deseja possuí-la, já cometeu adultério com ela no coração” (Mt 5,28).
Esta interpretação chocou os homens que tinham todos os direitos sobre as mulheres. Ao mesmo tempo, é uma maneira de fazer justiça às mulheres do século primeiro.
3. “Também foi dito: ‘Quem se divorciar de sua mulher, lhe dê uma certidão de divórcio’” (Mt 5,31).
Mais uma vez, o Cristo de Mateus quer devolver às mulheres sua dignidade reconhecendo sua igualdade. Com efeito, o problema do divórcio, na sociedade do tempo do domínio masculino, dependia da iniciativa do marido. O futuro de uma mulher repudiada anunciava-se sombrio... E é por isso que Mateus defende aqui os direitos das mulheres mais do que a proibição da separação: “Eu, porém, lhes digo: todo aquele que se divorcia de sua mulher, a não ser por causa de fornicação, faz com que ela se torne adúltera; e que se casa com a mulher divorciada, comete adultério” (Mt 5,32).
4. “Vocês ouviram também o que foi dito aos antigos: ‘Não jure falso’, mas ‘cumpra os seus juramentos para com o Senhor’” (Mt 5,33).
A questão que Mateus coloca é a seguinte: Por que há a necessidade de fazer juramentos? Será porque não somos confiáveis? Faltamos com a sinceridade? Não podemos confiar nas irmãs e irmãos? Entre humanos? Este é o problema do juramento e do falso juramento.
Ao exagerar a aplicação desta lei, o evangelista Mateus nos recorda simplesmente a nossa responsabilidade em relação aos nossos compromissos e em relação às nossas relações com os outros: “Diga apenas ‘sim’, quando é ‘sim’; e ‘não’, quando é ‘não’. O que você disser além disso, vem do Maligno” (Mt 5,37).

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