Outra opinião laica sobre o Papa Francisco


















Pedro Norton
«O Papa é Pop»
In revista Visão | 6.2.2014

Não sou, nem nunca fui, poli­ti­ca­mente con­ser­va­dor. Não sou, mas já fui (na medida em que se é o que quer que seja só por­que alguém nos manda ser), cató­lico. Mas isso não me impede de pen­sar desa­pai­xo­na­da­mente na Igreja enquanto ins­ti­tui­ção social e polí­tica, com tudo o que tem de pro­fun­da­mente admi­rá­vel e de mais sinis­tra­mente negro. Não deixo, por exem­plo, de espantar-me  com a resi­li­ên­cia e a espan­tosa lon­ge­vi­dade da ins­ti­tui­ção. E tenho uma teo­ria, que obvi­a­mente só a mim com­pro­mete, sobre a coisa: a chave da resis­tên­cia mile­nar da Igreja é o seu con­ser­va­do­rismo endé­mico. A Igreja anda, sem­pre andou, atrás dos tem­pos, longe da espuma dos dias, num tempo de refle­xão e mudança que, por ser tão dis­tante, tão lento e só seu, a tem pro­te­gido dos ciclos de ascen­sões e que­das, de todos os outros pode­res polí­ti­cos. Move-se, é certo, mas tão len­ta­mente, que para todos os efei­tos quase per­ma­nece imó­vel à escala tem­po­ral de uma qual­quer gera­ção. É isso que exas­pera, é isso que  deses­pera, os mais pro­gres­sis­tas dos seus fiéis. Mas é esse  quase imo­bi­lismo mile­nar, essa cau­tela irri­tante, esse con­ser­va­do­rismo incom­pre­en­dido, essa resis­tên­cia apa­ren­te­mente absurda à mudança que, à escala dos dois últi­mos milé­nios,  a man­tém viva, pujante e pode­rosa como ins­ti­tui­ção política.
Repare-se que não estou a fazer a advo­ca­cia da prá­tica, não estou a sina­li­zar nenhuma sim­pa­tia con­ser­va­dora que, repito, não tenho. Muito menos me aven­turo por ter­re­nos teo­ló­gi­cos que não sabe­ria per­cor­rer. Limito-me a ensaiar uma expli­ca­ção ana­lí­tica para a lon­ge­vi­dade do poder polí­tico e social da ins­ti­tui­ção. A igreja é con­ser­va­dora por­que pensa e pro­jecta o seu poder polí­tico numa escala tem­po­ral muito dife­rente de qual­quer outra ins­ti­tui­ção polí­tica. Tem, ao con­trá­rio, de todas as outras, todo o tempo do Mundo para deba­ter, dis­cu­tir, pen­sar, ensaiar e exe­cu­tar qual­quer mili­mé­trico avanço ou recuo.
É à luz desta lei­tura polí­tica, dis­cu­tí­vel como qual­quer outra, que me atrevo a dizer que a súbita e pla­ne­tá­ria popu­la­ri­dade do Papa Fran­cisco cons­ti­tui, para a Igreja, um desa­fio muito mais sério do que se possa pen­sar. O Papa é pop. Se dúvi­das exis­tis­sem, a bea­ti­fi­ca­ção decre­tada por essa bíblia do pop rock que é a Rol­ling Stone, deve tê-las dis­si­pado. E a teo­ria nem é nova. A afir­ma­ção já tinha sido feita, por volta de 1990, então a pro­pó­sito de João Paulo II, no título de uma faixa famosa dos bra­si­lei­ros Enge­nhei­ros do Hawaii. Ora o pop, senão é o pólo oposto do con­ser­va­do­rismo, não anda longe des­sas para­gens. Trans­porta con­sigo uma ima­gem e, mais rele­vante, uma pro­messa implí­cita, de mudança pro­gres­sista, de revo­lu­ção per­ma­nente que explica aliás o seu fas­cí­nio. Mas que, é bom de ver, o ine­ga­vel­mente sim­pá­tico Papa Fran­cisco nunca cum­prirá. Duvido aliás que a essên­cia da men­sa­gem de Fran­cisco possa ser tão dife­rente da de Bento XVI ao ponto  jus­ti­fi­car que o Mundo cató­lico passe subi­ta­mente da neu­rose à eufo­ria. Mas reco­nheço que aqui me aven­turo para ter­re­nos que a minha igno­rân­cia não acon­se­lha­ria a tri­lhar. E se o faço é por­que sus­peito que a minha igno­rân­cia não é maior do que a das mul­ti­dões que, um pouco por todo Mundo, têm rece­bido o Papa com um con­ta­gi­ante entu­si­asmo. Ou acre­di­tam que em cada um daque­les fãs há um dedi­ca­dís­simo estu­di­oso de encíclicas?
Eram os tais Enge­nhei­ros do Hawaii que diziam tam­bém, na letra da já citada faixa, que o Papa é Pop. O pop não poupa ninguém. Tá na cara. Tá na capa da revista. É essa a dimen­são do desa­fio. Ou o a Igreja de Fran­cisco está à beira de uma das mai­o­res revo­lu­ções da sua his­tó­ria, com impre­vi­sí­veis con­sequên­cias para uma ins­ti­tui­ção que sem­pre fez da len­tís­sima evo­lu­ção o segredo do seu sucesso. Ou o Papa Pop vai desi­lu­dir boa parte dos que nela (na revo­lu­ção) acreditam.
A pri­meira opção é, para cabe­ças mais libe­rais, poten­ci­al­mente atra­ente mas, digo eu, alta­mente impro­vá­vel. A segunda, a via da desi­lu­são, tem con­sequên­cias que não sei ante­ver. O Papa é pop, mas isso deixa-o num com­pli­cado labirinto.


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