P.e Nuno Rosário
Fernandes
in «Voz da
Verdade»,2.2.2014
Na exortação apostólica
‘A Alegria do Evangelho’, o Papa Francisco manifesta, também, a sua preocupação
para com aqueles que “trabalham na Igreja”, ou seja os chamados agentes
pastorais, “desde os Bispos até ao mais simples e ignorado dos serviços
eclesiais”. Preocupado com os desafios que todos eles enfrentam “no meio da
cultura globalizada atual”, o Papa destaca o papel dos inúmeros cristãos “que
dão a vida por amor”, agradecendo o “belo exemplo”. “Este testemunho faz-me
muito bem e apoia-me na minha aspiração pessoal de superar o egoísmo para uma
dedicação maior”, observa Francisco.
Para além de reconhecer
que é necessário “criar espaços apropriados para motivar e sanar os agentes
pastorais”, o Papa chama a atenção para “algumas tentações”.
Espiritualidade missionária
Em primeiro lugar, o Papa
Francisco alerta para “uma preocupação exacerbada pelos espaços pessoais de autonomia
e relaxamento, que leva a viver os próprios deveres como mero apêndice da vida,
como se não fizessem parte da própria identidade”. Ao mesmo tempo, refere, “a
vida espiritual confunde-se com alguns momentos religiosos que proporcionam
algum alívio, mas não alimentam o encontro com os outros, o compromisso no
mundo, a paixão pela evangelização”. Deste modo, Francisco diagnostica “em
muitos agentes pastorais”, “uma acentuação do individualismo, uma crise de
identidade e um declínio do fervor”, o que consideram serem “três males que se
alimentam entre si”.
Por outro lado, o Papa
considera que a cultura mediática e alguns ambientes intelectuais transmitem
“uma acentuada desconfiança” no que diz respeito à mensagem da Igreja, e até
mesmo “um certo desencanto”. Como consequência disso, muitos agentes pastorais
desenvolvem “uma espécie de complexo de inferioridade que os leva a relativizar
ou a esconder a sua identidade cristã e as suas convicções”. Deste modo, estes
agentes pastorais não se identificando com “a missão evangelizadora” e têm
dificuldade na sua entrega.
Nos agentes pastorais há
ainda o perigo de se desenvolver “um relativismo ainda mais perigoso que o doutrinal”, o que
tem a ver com “com as opções mais profundas e sinceras que determinam uma forma
de vida concreta. Este relativismo prático é agir como se Deus não existisse,
decidir como se os pobres não existissem, sonhar como se os outros não
existissem, trabalhar como se aqueles que não receberam o anúncio não
existissem”, sublinha o Papa Francisco, deixando um apelo: “Não nos deixemos
roubar o entusiasmo missionário”.
A acédia egoísta
Outra dificuldade
apresentada pelo Papa Francisco coloca-se quando os leigos “procuram fugir de
qualquer compromisso que lhes possa roubar o tempo livre”. No entanto, esta
questão não diz apenas respeito aos leigos, refere o Papa apontando os
sacerdotes “que se preocupam obsessivamente com o seu tempo pessoal”. No
entanto, frisa Francisco, a tarefa de evangelização não é “um veneno perigoso”,
mas “uma resposta alegre ao amor de Deus que nos convoca para a missão e nos
torna completos e fecundos”. Quando há resistência à missão acaba-se mergulhado
“numa acédia paralisadora”.
Porém, salienta o Papa,
“o problema não está sempre no excesso de atividades, mas sobretudo nas
atividades mal vividas, sem as motivações adequadas, sem uma espiritualidade
que impregne a ação e a torne desejável”. E quanto à acédia pastoral, esta pode
ter origens diversas que podem ter a ver com dificuldade de atualização, de
apego a projetos pessoais, a sonhos cultivados pela vaidade, ou por uma perda
de contacto direto com as pessoas, entre outras.
A alegria da evangelização
Deste modo, gera-se uma
tendência para a tristeza, desenvolvendo-se a “psicologia do túmulo que, pouco
a pouco, transforma os cristãos em múmias de museu”, trazendo a desilusão, uma
vida “sem esperança”. E quando são chamados a comunicar e a iluminar a vida
“acabam por se deixar cativar por coisas que só geram escuridão e cansaço
interior e corroem o dinamismo apostólico”. “Não deixemos que nos roubem a
alegria da evangelização”, alerta o Papa Francisco.

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