Entrevista publicada no jornal italiano “Corriere della Sera” e no argentino “La
Nación”.
Santo Padre, muitas vezes telefona a quem lhe pede
ajuda. E às vezes não acreditam que seja o senhor.
Sim, já aconteceu. Quando
alguém liga é porque tem vontade de falar, quer fazer uma pergunta, pedir um
conselho. Quando era padre em Buenos Aires era mais simples. E para mim
continua a ser um hábito. Um serviço. Está dentro de mim. É verdade que agora
não é tão fácil fazê-lo, tendo em conta a quantidade de gente que me escreve.
Há algum contacto, um encontro que recorde com
particular afeto?
Uma senhora viúva, de 80
anos, que perdeu o filho. Escreveu-me. E agora telefono-lhe todos os meses. Ela
está feliz. Faço de padre. Agrada-me.
O relacionamento com o seu predecessor: alguma vez
pediu algum conselho a Bento XVI?
Sim. O papa emérito não é
uma estátua num museu. É uma instituição. Não estávamos habituados. Há 60 ou 70
anos o bispo emérito não existia. Veio após o Concílio [Vaticano II,
1962-1965]. Hoje é uma instituição. O mesmo deve acontecer para o papa emérito.
Bento é o primeiro e talvez haja outros. Não o sabemos.
Ele é discreto, humilde,
não quer perturbar. Conversámos e decidimos em conjunto que seria melhor que
visse gente, saísse e participasse na vida da Igreja. Uma vez veio aqui para a
bênção da estátua de S. Miguel Arcanjo, depois almoçou na Casa de Santa Marta,
e após o Natal dirigi-lhe o convite para participar no consistório e ele
aceitou. A sua sabedoria é um dom de Deus.
Alguns quiseram que se
tivesse retirado para uma abadia beneditina longe do Vaticano. Eu pensei nos
avós que com a sua sabedoria, os seus conselhos, dão força à família e não
merecem acabar numa casa de repouso.
A sua maneira de governar a Igreja parece-nos
desta maneira: o senhor ouve todos e decide sozinho. Um pouco como o padre
geral dos Jesuítas. O papa é um homem só?
Sim e não. Entendo o que
quer dizer-me. O papa não está só no seu trabalho porque é acompanhado e
aconselhado por muitos. E seria um homem só se decidisse sem ouvir ou fazendo
de conta que ouve. Mas há um momento, quando se trata de decidir, de colocar a
assinatura, em que está sozinho com o seu sentido de responsabilidade.
O senhor inovou, criticou algumas atitudes do
clero, sacudiu a Cúria. Com algumas resistências, algumas oposições. A Igreja
já mudou o que desejou há um ano?
Em março de 2013 não
tinha qualquer projeto de mudança da Igreja. Não esperava esta transferência de
diocese, para dizer assim. Comecei a governar procurando colocar em prática
aquilo que emergiu no debate entre os cardeais nas várias congregações
[reuniões ocorridas antes do conclave para a eleição do papa]. No meu modo de
agir espero que o Senhor me dê a inspiração.
Dou-lhe um exemplo.
Falou-se do cuidado espiritual das pessoas que trabalham na Cúria, e começaram
a fazer-se retiros espirituais. Devia dar-se mais importância aos Exercícios
Espirituais anuais: todos têm direito a passar cinco dias em silêncio e
meditação, enquanto que antes, na Cúria, ouviam-se três pregações por dia e
depois alguns continuavam a trabalhar.
A ternura e a misericórdia são a essência da sua
mensagem pastoral…
É do Evangelho. É o
centro do Evangelho. De outra maneira não se compreende Jesus Cristo, a ternura
do Pai que o envia a ouvir-nos, a curar-nos, a salvar-nos.
Mas essa mensagem foi compreendida? O senhor disse
que a “franciscomania” não duraria muito. Há alguma coisa na sua imagem pública
que não lhe agrada?
Agrada-me estar entre as
pessoas, junto de quem sofre, ir às paróquias. Não me agradam as interpretações
ideológicas, uma certa mitologia do papa Francisco. Quando se diz, por exemplo,
que saio à noite do Vaticano para andar de comer de comer aos sem-abrigo na Via
Ottaviano. Nunca me veio isso à ideia. Sigmund Freud dizia, se não me engano,
que em cada idealização há uma agressão. Desenhar o papa como uma espécie de
super-homem, uma espécie de estrela, parece-me ofensivo. O papa é um homem que
ri, chora, dorme tranquilo e tem amigos como todos. Uma pessoa normal.
Tem nostalgia pela sua Argentina?
A verdade é que não tenho
nostalgia. Desejava ir ver a minha irmã, que está doente, é a última de nós
cinco. Gostaria de vê-la, mas isso não justifica uma viagem à Argentina:
telefono-lhe e isso chega. Não penso ir antes de 2016, porque na América Latina
já estive no Rio de Janeiro. Agora devo ir à Terra Santa, à Ásia e depois a
África.
Há pouco tempo renovou o passaporte argentino. O
senhor é, todavia, um chefe de estado.
Renovei-o porque estava a
caducar.
Desagradaram-lhe as acusações de marxismo, vindas
sobretudo dos EUA, após a publicação da exortação “A alegria do Evangelho”?
Absolutamente nada. Nunca
partilhei a ideologia marxista porque não é verdadeira, mas conheci muitas
pessoas boas que professavam o marxismo.
Os escândalos que abalaram a vida da Igreja estão
felizmente para trás. No que diz respeito ao tema delicado dos abusos sobre
menores, um apelo assinado, entre outros, pelos filósofos Besançon e Scruton para
que o senhor faça ouvir a sua voz contra os fanatismos e a má consciência do
mundo secularizado que respeita pouco a infância.
Quero dizer duas coisas.
Os casos de abusos são tremendos porque deixaram feridas profundíssimas. Bento
XVI foi muito corajoso e abriu uma estrada. A Igreja fez muito a este respeito.
Talvez mais que todos. As estatísticas sobre o fenómeno da violência sobre as
crianças são impressionantes, mas mostram também com clareza que a grande
maioria dos abusos ocorre no ambiente familiar e de proximidade. A Igreja
católica é talvez a única instituição pública a que se movimentou com
transparência e responsabilidade. Ninguém fez mais. E no entanto a Igreja é a
única a ser atacada.
Santo Padre, o senhor diz «os pobres
evangelizam-nos». A atenção à pobreza, a marca mais forte da sua mensagem
pastoral, é considerada por alguns observadores como uma profissão do
pauperismo. O Evangelho não condena o bem-estar. E Zaqueu era rico e
caritativo.
O Evangelho condena o
culto do bem-estar. O pauperismo é uma das interpretações críticas. Na Idade
Média havia muitas correntes que advogavam o pauperismo. S. Francisco teve a
genialidade de colocar o tema da pobreza no caminho evangélico.
Jesus diz que não se
podem servir dois senhores, Deus e a riqueza. E quando formos julgados no juízo
final (Mateus, capítulo 25), contará a nossa proximidade à pobreza. A pobreza
distancia da idolatria, abre a porta à Providência. Zaqueu devolve metade da
sua riqueza aos pobres. E a quem tem os celeiros cheios do próprio egoísmo, o
Senhor, no fim, pede-lhe contas. O que eu penso da pobreza expressei-o bem na
“Evangelii gaudium”.
O senhor apontou na globalização, sobretudo
financeira, alguns dos males que agridem a humanidade. Mas a globalização
arrancou da indigência milhões de pessoas. Deu esperança, um sentimento que não
deve confundir-se com otimismo.
É verdade, a globalização
salvou da pobreza muitas pessoas, mas condenou outras tantas a morrer de fome,
porque com este sistema económico torna-se seletiva. A globalização que a
Igreja concebe assemelha-se não a uma esfera, na qual cada ponto é equidistante
do centro e na qual, portanto, se perde a particularidade dos povos, mas a um
poliedro, com as suas diferentes faces, através do qual cada povo conserva a
própria cultura, língua, religião, identidade. A atual globalização “esférica”
económica, e sobretudo financeira, produz um pensamento único, um pensamento
débil. No centro não está a pessoa humana, só o dinheiro.
O tema da família é central na atividade do
conselho dos oito cardeais. Desde a exortação “Familiaris consortio”, de João
Paulo II, mudaram muitas coisas. Estão programados dois sínodos. Esperam-se
grandes novidades. O senhor disse dos divorciados: não vamos condená-los, vamos
ajudá-los.
É um longo caminho que a
Igreja deve fazer. Um processo que o Senhor quer. Três meses após a minha
eleição, foram-me colocados os temas para o sínodo, tendo-se proposto discutir
a contribuição de Jesus para o homem contemporâneo. Mas no fim, gradualmente –
o que para mim foram sinais da vontade de Deus – optou-se debater a família,
que atravessa uma crise muito séria. É difícil formá-la. Os jovens casam-se
pouco. Há muitas famílias separadas nas quais o projeto de vida comum
fracassou. Os filhos sofrem muito.
Nós devemos dar uma
resposta. E isso que o consistório e o sínodo estão a fazer. É preciso evitar
ficar pela superfície. A tentação de resolver cada problema com a casuística é
um erro, uma simplificação de coisas profundas, como faziam os fariseus, uma
teologia muito superficial. É à luz da reflexão profunda que se podem enfrentar
seriamente as situações particulares, mesmo aquelas dos divorciados, com
profundidade pastoral.
Porque é que o relatório do cardeal Walter Kasper
no último consistório (um abismo entre doutrina sobre o matrimónio e a família
e a vida real de muitos cristãos) dividiu tanto os membros do Colégio
Cardinalício? Como pensa que a Igreja pode percorrer estes dois anos de caminho
fatigante e chegar a um consenso amplo e sereno? Se a doutrina é sólida, porque
é que é necessário o debate?
O cardeal Kasper fez uma
apresentação belíssima e profunda, que será em breve publicada em alemão, em
que aborda cinco pontos – o quinto era o dos segundos matrimónios. Ficaria
preocupado se no consistório não tivesse havido uma discussão intensa, porque
não teria servido para nada.
Os cardeais sabiam que
podiam dizer aquilo que queriam, e apresentaram muitos pontos de vista
distintos, que nos enriqueceram. As discussões abertas e fraternas fazem
crescer o pensamento teológico e pastoral. Disto não tenho medo, antes o
procuro.
Num passado recente era habitual o apelo aos
chamados «valores não negociáveis», sobretudo na bioética e na moral sexual. O
senhor não retomou esta fórmula. Os princípios doutrinais e morais não mudaram.
Esta escolha quererá talvez indicar um estilo menos percetivo e mais
respeitador da consciência pessoal?
Nunca entendi a expressão
«valores não negociáveis». Os valores são valores, e basta, não posso dizer que
entre os dedos de uma mão há um que é menos útil do que outro. Por isso não
entendo em que sentido podem haver valores negociáveis. O que devia dizer sobre
o tema da vida, escrevi-o na exortação “Evangelii gaudium”.
Muitos países legislam as uniões civis. É um
caminho que a Igreja pode compreender? E até que ponto?
O matrimónio é entre um
homem e uma mulher. Os estados laicos querem justificar as uniões civis para
legislar diferentes situações de convivência, motivados pela exigência de
legislar aspetos económicos entre as pessoas, como por exemplo assegurar a
assistência na saúde. Trata-se de acordos de convivência de vária natureza, de
que não saberia elencar as diferentes formas. É preciso ver os diferentes casos
e avaliá-los na sua variedade.
Como será promovido o papel da mulher na Igreja?
Também aqui a casuística
não ajuda. É verdade que a mulher pode e deve estar mais presente nos lugares
de decisão da Igreja. Mas chamarei a isto uma promoção de tipo funcional. Só
assim não se faz muito caminho.
É preciso sobretudo
pensar que a Igreja tem o artigo feminino «a»: é feminina desde as origens. O
grande teólogo Urs von Balthasar trabalhou muito sobre este tema: princípio
mariano guia a Igreja juntamente com o princípio petrino. A Virgem Maria é mais
importante do que qualquer bispo e de qualquer apóstolo. O aprofundamento
teologal está em curso. O cardeal Rylko, com o Conselho dos Leigos, está a
trabalhar nesta direção com muitas mulheres especialistas em várias matérias.
Meio século após a encíclica “Humanae vitae”, de
Paulo VI, a Igreja pode retomar o tema do controlo dos nascimentos. O cardeal
Martini, seu confrade, estava convicto de que tinha chegado o momento.
Tudo depende de como é
interpretada a “Humanae vitae”. O próprio Paulo VI, no fim, recomendava aos
confessores muita misericórdia, atenção às situações concretas. Mas a sua
genialidade foi profética, teve a coragem de ir contra a maioria, de defender a
disciplina moral, de exercitar um travão cultural, de opor-se ao
neomalthusianismo presente e futuro.
A questão não está em
mudar a doutrina, mas de se ter mais profundidade e fazer com que a pastoral
tenha em conta as situações e do que para as pessoas é possível fazer. Também
disto se falará no caminho do sínodo.
A ciência evolui e redesenha os confins da vida.
Faz sentido prolongar artificialmente a vida em estado vegetativo? O testamento
biológico pode ser uma solução?
Não sou especialista nos
argumentos biológicos. E temo que cada minha frase possa ser equivocada. A
doutrina tradicional da Igreja diz que ninguém é obrigado a usar meios
extraordinários quando se sabe que está numa fase terminal. Na minha pastoral,
nestes casos, aconselhei sempre os cuidados paliativos. Em casos mais
específicos é bom recorrer, se necessário, ao conselho dos especialistas.
A próxima viagem à Terra Santa levará a um acordo
de intercomunhão com os ortodoxos que Paulo VI, há 50 anos, quase chegou a
assinar com o patriarca Atenágoras?
Estamos todos impacientes
por obter resultados “fechados”. Mas o caminho da unidade com os ortodoxos quer
dizer sobretudo caminhar e trabalhar conjuntamente. Aos cursos de catequese em
Buenos Aires iam diversos ortodoxos. Eu passava o Natal e o 6 de janeiro com os
seus bispos, que por vezes pediam conselho aos nossos departamentos diocesanos.
Não sei se é verdadeiro o
episódio que se conta de Atenágoras, que teria proposto a Paulo VI que
caminhassem juntos e enviassem todos os teólogos para uma ilha, para discutirem
entre eles. A teologia ortodoxa é muito rica. E penso que eles têm atualmente
grandes teólogos. A sua visão da Igreja e da sinodalidade é maravilhosa.
Dentro de alguns anos a China será a maior
potência mundial, com a qual o Vaticano não tem relações. Matteo Ricci era
jesuíta, como o senhor.
Estamos próximos da
China. Enviei uma carta ao presidente Xi Jinping quando foi eleito, três dias
depois de mim. E ele respondeu-me. Há relações. É um grande povo ao qual quero
bem.
Porque é que o Santo Padre nunca fala da Europa? O
que é que não o convence no projeto europeu?
Lembra-se do dia em que
falei da Ásia? O que é que eu disse então? Eu não falei nem da Ásia, nem da
África, nem da Europa. Só da América Latina quando estive no Brasil e quando
devo receber a Comissão para a América Latina. Não é ainda a ocasião para falar
da Europa. Ela virá.
Que livro está a ler atualmente?
“Pedro e Madalena”, de
Damiano Marzotto, sobre a dimensão feminina da Igreja. Um livro belíssimo.
E não consegue ver nenhum filme, que é outra das
suas paixões? “A grande beleza” venceu o Óscar [para melhor filme em língua
estrangeira]. Vai vê-lo?
Não sei. O último filme
que vi foi “A vida é bela”, de Benigni. E antes revi “A estrada” (“La strada”),
de Fellini. Uma obra-prima. Também gostava de “Wajda”…
S. Francisco teve uma juventude livre de
preocupações. Pergunto-lhe: nunca namorou?
No livro “Papa Francisco
– Conversas com Jorge Bergoglio” conto que tive uma namorada aos 17 anos. E
digo o mesmo no livro “O céu e a terra”, que escrevi com [o rabi] Abraham
Skorka. No seminário uma rapariga fez-me voltar a cabeça durante uma semana.
E como acabou, se não é indiscrição?
Eram coisas de jovens.
Falei disso com o meu confessor. (Grande sorriso)
Obrigado Padre Santo.
Obrigado eu.

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