Depois que a Éditions du
Cerf reeditou dois dos seus livros (Eu vos chamo de amigos e Que a vossa
alegria seja perfeita), o grande teólogo dominicano concedeu uma entrevista
exclusiva ao Le Point: "Notre époque souffre du mal de la banalité", a 19-04-2014.
A tradução é de
André Langer.
O senhor conversou
longamente com o Papa Francisco em privado. Como o encontrou?
Como alguém que está bem.
Eu fiquei impressionado com sua disponibilidade. Ele nunca olhou no relógio
durante toda a nossa conversa. E ele não procurava ter o controle sobre mim.
Este elemento é muito importante para compreender sua espiritualidade e sua
ação. O Ocidente, em todo o caso a França e a Grã-Bretanha nos últimos quatro
séculos, foi marcado por uma cultura do controle, e a Igreja foi afetada por
isso. E é lutando por sua liberdade, de Constantino ao comunismo, que o
Vaticano tornou-se uma monarquia. Uma monarquia que o Papa Francisco hoje quer
desfazer, reduzindo ao mínimo os mecanismos de controle no interior do Vaticano.
É por isso que nomeou esse grupo de oito cardeais para ter alguma
independência.
Sob Bento XVI, o senhor
deplorava o “problema de governança na cúpula da Igreja”, pedindo para “mudar o
funcionamento do Vaticano” (Ler Le Point n. 1939, de 12 de novembro de 2009).
Chegamos a isso hoje?
Há menos descontinuidade
entre Bento XVI e Francisco do que se diz. O primeiro realizou etapas
teológicas que o segundo coloca em prática. Mas o Papa Francisco fez exatamente
o que eu esperava. O que ele proporciona, nós esperamos desde o Vaticano II!
Ele não quer mais que o Papa viva como um monarca rodeado de uma corte. Ele se
apresenta como o Bispo de Roma. Em cada nível da Igreja, ele quer introduzir
mais debates e partilhar mais as responsabilidades. Ele trabalha para dar mais
autoridade às Conferências Episcopais nacionais e fazer com que os Sínodos não
sejam mais apenas estúdios de gravação, mas fóruns onde se discute e onde se
toma decisões. Ele quer dar espaço ao Espírito Santo para introduzir
respirações. A Igreja tem necessidade de espontaneidade. Chega de paralisia!
Francisco é o “salvador”
da Igreja?
Não! Seria horrível dizer
isso. Francisco não procura impor sua vontade à Igreja. A mídia sempre pensa
que os papas são como políticos, que chegam com um programa de partido
político, para “salvar” o país. Mas não é assim que as coisas funcionam entre
nós. Nós respondemos à vontade de Deus discernida na oração e na discussão.
Todo o mundo fala do Papa Francisco, mas ele, eu posso lhe garantir, só deseja
uma coisa: desaparecer. Ele deseja que o Papa ocupe um lugar menos importante.
É o paradoxo da sua situação.
Ele provocou muitas
expectativas, e as reformas correm o risco de levar muito tempo. Não assumiu o
risco de que as decepções cheguem à mesma altura das expectativas que suscitou?
Francisco sempre disse
claramente que a verdadeira reforma é demorada. Devemos ser pacientes e deixar
as coisas acontecer. Se o Papa procurasse forçar o caminho, provocaria divisões
no interior da Igreja. Vivemos num mundo de comunicação instantânea que exige
respostas instantâneas, mas isso não resolve nada. Nós caminhamos numa direção
desconhecida, o que gera, e podemos compreender isso, medos. Mas eu creio que
Francisco pensa que não precisamos saber tudo previamente, pois seria um erro
querer controlar tudo e que devemos estar abertos ao Espírito Santo.
Ter as rédeas soltas para
tocar nos fundamentos da doutrina católica?
Mas os fundamentos desta
doutrina nos oferecem muito mais liberdade do que podemos pensar! Eu não vejo a
doutrina como algo que atrapalha; a ortodoxia, na minha opinião, não fecha as
respostas; pelo contrário, ela abre um grande espaço. Devemos desconfiar do
preconceito doutrinário contra as doutrinas que existe atualmente em nossa
sociedade.
Ao mesmo tempo, muitos
católicos esperam evoluções, sobre os divorciados recasados, por exemplo.
Isso é outro assunto. E
não é uma questão de doutrina, mas de disciplina. Quando digo disciplina, não
se trata de punição, bem entendido, mas da organização da vida de um discípulo.
É preciso mudar esta disciplina. Quando era arcebispo de Buenos Aires, Jorge
Mario Bergoglio testemunhou muita flexibilidade para com os divorciados
recasados; agora, como Papa, penso que ele realizará a abertura nesse ponto. Há
muitas questões que não tem nada a ver com a doutrina, como o casamento dos
padres, para o que temos necessidade de um debate aberto a fim de perceber o
que é o melhor. O mais importante para Francisco não é o que ele pensa, mas o
que Igreja decide.
Atitude muito jesuíta...
Ou dominicana. Ele quer
que a comunidade decida, e esse modo de funcionamento é muito dominicano: a
autoridade suprema da nossa ordem é o capítulo geral. Você sabe o que nós
dizemos de Francisco? Que ele é um jesuíta que usa roupa de dominicano e quer
ser franciscano.
Muitos observadores
notaram que ele falava, especialmente em Lampedusa, como um líder político. O
descrédito político reforça sua influência?
O Papa toca as pessoas
não somente pelo que ele diz, mas pelo que faz. Seus gestos são poderosos. Quando
ele lava os pés de presos, dentre os quais encontra-se um muçulmano, o mundo se
interessa. Quando ele abraça aquele homem terrivelmente desfigurado, o mundo
fica surpreso. Em Lampedusa, não se tratava somente de acentuar a nossa
indiferença em relação ao sofrimento dos migrantes. Ele celebrou uma missa num
pequeno barco perto de onde muitas pessoas pereceram. Este gesto é muito mais
eloquente do que muitas palavras; isso provocou a fome em nossos corações por
um mundo mais justo e compassivo.
Como reage o homem de fé
diante da desconfiança da classe política e, de modo mais geral, da classe
dirigente?
O grande trabalhista
inglês Toni Benn, que acabou de morrer, tinha essa famosa frase: “Toda carreira
política acaba no fracasso. A minha terminou mais cedo que a maioria”. Em
nossos dias, os políticos falam como economistas. Tudo é reduzido à economia, e
nós perdemos um discurso mais humano. Todo político se vê como um salvador, de
modo que a missão é impossível. O Papa tem uma vantagem: para ele, só o Cristo
é salvador! Francisco e todos os líderes religiosos convidam a nos considerar
comunidades de homens e mulheres, de ricos e pobres ligados por um mesmo
destino e pela busca do bem comum. Nossas aspirações são muito mais profundas
que o dinheiro.
O senhor, que viaja
muito, observa essa mesma rejeição em todas as partes do mundo?
Eu viajo muito, mas fico
pouco tempo em um país ou continente, e minhas impressões podem, por isso, ser
superficiais. Mas eu percebo que, no mundo em desenvolvimento – especialmente
na África, uma parte da América Latina e da Ásia –, as instituições ocidentais
como o Banco Mundial ou o FMI pressionam os países para que atentem apenas para
o lado econômico, e ao fazer isso impõem soluções que sabotam o bem comum.
Muitas culturas preservaram um sentido do bem comum que está sendo minado por
esta pressão vinda do Ocidente.
O senhor se apresenta como “amigo dos pecadores”. Qual é, na sua opinião, o maior dos pecados do nosso
tempo?
O pecado mais típico do
nosso tempo é a superficialidade, que impõe apenas pequenas satisfações. Uma
grande parte da nossa cultura contemporânea trivializa os desejos do coração
humano. No meu quarto de hotel, em Los Angeles, de onde venho, passando uma
centena de canais de televisão, não encontrei nada de interessante. É
profundamente deprimente! Hannah Arendt escreveu sobre a “banalidade do mal”, e
a nossa época, penso, sofre do mal da banalidade. O coração e o espírito
humanos são feitos para compreender o sentido da existência, saciar a nossa
sede de compreensão. Como cristão, penso que o objetivo é buscar no amor
infinito o que é Deus. Uma sociedade que anestesia a alma com pequenas
satisfações e distrações triviais se afundará no tédio.
Comentários
Enviar um comentário