Tentativa de dar uma explicação a uma estranha omissão no Evangelho de Lucas, por Rogério Carpentier



Procurando aprofundar a compreensão do Evangelho de Lucas, fizemos o levantamento das omissões e dos textos exclusivos do terceiro Evangelho e encontrámos algo que suscitou a nossa curiosidade.: a seguir ao relato da multiplicação dos pães, todos os outros evangelistas narram o milagre de Jesus que consiste em ser capaz de caminhar sobre o mar. Por isso começamos por analisar a inclusão deste episódio em cada um dos três outros evangelhos e descobrir assim a importância desta omissão.

Em Marcos (6,45-52) encontram-se, nos versículos 49-52, vários pormenores que se relacionam com o relato da ressurreição em 16,5-14: «Mas vendo-o andar sobre o mar, julgaram que fosse um fantasma e começaram a gritar, pois todos o viram e se assustaram. Mas Ele logo lhe falou: “Tranquilizai-vos, sou Eu: não temais!” A seguir, subiu para o barco, para junto deles, e o vento amainou. E sentiram um enorme espanto, pois ainda não tinham entendido o que se dera com os pães: tinham o coração endurecido.». É fácil relacionar o que acabamos de transcrever com várias frases incluídas no relato da ressurreição: «Entrando no sepulcro, viram um jovem sentado à direita, vestido com uma túnica branca, e ficaram assustadas. Ele disse-lhes: “Não vos assusteis! Buscais a Jesus de Nazaré, o crucificado? Ressuscitou; não está aqui.” (v.5-6). (…) «Saíram, fugindo do sepulcro, pois estavam a tremer e fora de si. E não disseram nada a ninguém, porque tinham medo.» (v. 8).
Também podemos relacionar o versículo 6,52 “pois ainda não tinham entendido o que se dera com os pães: tinham o coração endurecido.” com os versículos, 16,9-14,  nos quais são narradas as aparições de Jesus ressuscitado a Maria de Magdala, aos discípulos de Emaús e aos Onze: «Apareceu, finalmente, aos próprios Onze quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e a dureza de coração em não acreditarem naqueles que o tinham visto ressuscitado.» (16,14).

Como acabamos de ver, Marcos insiste muito na incompreensão dos discípulos, por isso ao contrário da narração de Mateus, não figura no relato de Marcos algo de semelhante a Mt 14,33 «Os que se encontravam no barco prostraram-se diante de Jesus, dizendo: “Tu és, realmente, o Filho de Deus!”» mas utiliza outro método literário para pôr em evidência este título divino atribuído a Jesus. Faz uma inclusão de toda a narração da vida humana de Jesus que começa em Mc 1,1 “Principio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.” e termina com a declaração do centurião em Mc 15,39: «O centurião que estava em frente dele, ao vê-lo expirar daquela maneira, disse: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus!”»          

Mateus é o evangelista que dá mais relevo a este episódio; escrevendo para uma comunidade de judeus convertidos ao cristianismo, tem um bom conhecimento do Antigo Testamento e por isso sabe o significado de Jb 9,8 «Ele sozinho formou a extensão dos céus e caminha sobre as ondas do mar.» só Deus pode caminhar sobre o mar. Se Jesus pode caminhar sobre o mar é porque é Deus.  
Em 14,22-27, Mateus não acrescenta nada de novo ao texto de Marcos e no versículo 33 encontramos uma declaração de fé na divindade de Jesus. «Os que se encontravam no barco prostraram-se diante de Jesus, dizendo: “Tu és, realmente, o Filho de Deus!”». A nota do v. 33 ajuda-nos a ver neste versículo uma prefiguração da Igreja em tempos de perseguição.
Os versículos 28-31 fazem parte de um grupo de situações narradas exclusivamente por Mateus que põem evidência a importância do apóstolo Pedro «Pedro respondeu-lhe: “Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas.” “Vem” - disse-lhe Jesus. E Pedro, descendo do barco, caminhou sobre as águas para ir ter com Jesus. Mas,   sentindo a violência do vento, teve medo e, começando a ir ao fundo, gritou: “Salva-me, Senhor!” Imediatamente Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o e disse-lhe: “Homem de pouca fé, porque duvidaste?”» ver Mt 16,17-20 e 17,24-27 para os outros factos que  dão especial relevo a Pedro.

Em João 6,16-21, no v. 19, João refere a atitude de medo tal como nos dois sinópticos e a nota do v. 20 que relaciona o texto com uma prefiguração da Igreja, poderia também ser transferida para os dois primeiros Evangelhos. João também omite aqui um reconhecimento do seu carácter messiânico e da sua natureza divina. João coloca esta afirmação no capítulo oitavo no final de uma grande discussão com os judeus terminando com a mais forte afirmação da sua divindade: «Jesus respondeu-lhes: “Em verdade, em verdade vos digo : antes de Abraão existir, Eu sou!”» (Jo 8, 58)

Problemas suscitados pela omissão de Lucas
Ao eliminar esta cena, se não introduzisse um trecho próprio, Lucas iria omitir uma prefiguração da ressurreição; uma afirmação da filiação divina de Jesus e uma prefiguração da Igreja.
Por isso, procurámos no texto de Lucas, em primeiro lugar, motivos para excluir esta narração do seu evangelho; depois um texto exclusivo de Lucas que incluísse as mensagens teológicas presentes nos outros evangelistas.

Motivos de exclusão
No evangelho de S. Lucas, a omissão do que é narrado nos três outros evangelhos logo a seguir à multiplicação dos pães (Mt 14,22-33; Mc 6,45-52; Jo 6,16-21) pode explicar-se pelo facto que S. Lucas escreveu para as Igrejas da Grécia, onde a filosofia platónica considerava o corpo como um peso do qual a alma tinha de se libertar ao contrário do pensamento judaico que via o ser humano como um composto de matéria e espírito (ver a nota em Lucas 24,43. Para entender a complexidade deste assunto convém referir que, para muitos exegetas, a cena não é real mas simbólica; ela manifesta a divindade de Jesus (só Deus é capaz de caminhar sobre o mar.) 
“Caminhar sobre as águas” é uma prerrogativa divina (ver Jb 9,8) «Ele sozinho formou a extensão dos céus e caminha sobre as ondas do mar.»
- Lucas tem muito apreço pela virtude da humildade (ver “Convite à humildade” Lc 14, 7-11e a parábola intitulada “O fariseu e o cobrador de impostos” Lc 18,9-14, textos exclusivos de Lucas). Ver também (Lc 1, 38.43.48.52) texto no qual, por quatro vezes, Lucas faz alusão à humildade.
- Caminhar sobre o mar não é muito diferente de se atirar do pináculo do Templo abaixo e Lucas coloca esta tentação em último lugar no seu evangelho; trata-se de facto de uma tentação mais subtil do que as duas outras.
- Lucas é também o único a narrar o envio de Jesus a Herodes por parte de Pilatos. (Lc 23, 6-12). Herodes esperava que Jesus fosse realizar milagres diante dele mas Jesus permanece calado e Herodes, depois de o ridicularizar, devolve-o a Pilatos.

Texto exclusivo de Lucas que soluciona o problema: Lc 7,11-17

«Em seguida, dirigiu-se a uma cidade chamada Naim, indo com Ele os seus discípulos e uma grande multidão. Quando estavam perto da porta da cidade, viram que levavam um defunto a sepultar, filho único da sua mãe, que era viúva; e, a acompanhá-la, vinha muita gente da cidade. Vendo-a, o Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: «Não chores.» Aproximando-se, tocou no caixão, e os que o transportavam pararam. Disse então: «Jovem, Eu te ordeno: Levanta-te!» O morto sentou-se e começou a falar. E Jesus entregou-o à sua mãe.
O temor apoderou-se de todos, e davam glória a Deus, dizendo: «Surgiu entre nós um grande profeta e Deus visitou o seu povo!» E a fama deste milagre espalhou-se pela Judeia e por toda a região.» (Lc 7,11-17)     

Entre as respectivas notas, destacamos as seguintes: 13 «O Senhor. Lc dá este título a Jesus cerca de vinte vezes, sem contar as invocações dos seus personagens. Sublinha, assim, a realeza misteriosa de Jesus. Mt e Mc só uma vez chamam a Jesus o Senhor (Mt 21,3; Mc 11,3)»; 14 «Levanta-te é um verbo que exprime a ressurreição dos mortos (Dn 12,2) e Lc utiliza-o, como os outros autores do NT, para designar a ressurreição do último dia (20,37), as ressurreições operadas por Jesus (v.22; 8,54) e a ressurreição do próprio Mestre (9,22; 24,6.34). Na mensagem pascal primitiva, o termo aparece muitas vezes sob a dupla forma: levantar-se (Act 3,15; 4,10; 5,30) e levantar (8,55; 18,33; 24,7.46). Tocar no caixão tornava impuro. Além das notas, podemos acrescentar que é Jesus que toma a iniciativa; ninguém implorou a sua intervenção. Do mesmo modo, além da evocação dos milagres de Elias e de Eliseu é bom tomar consciência que Jesus, depois da sua morte na cruz, também é “o filho único de uma viúva” que será enterrado. A continuação do texto de Lucas (v. 18-23) relata a resposta de Jesus aos enviados de João Baptista e, pelo facto de estar colocado logo a seguir ao relato do milagre, reforça o sentido messiânico do texto de Lc 7, 11-17.

Comentário ao versículo 16.
«O temor apoderou-se de todos, e davam glória a Deus dizendo:”Surgiu entre nós um grande profeta e Deus visitou o seu povo!”» Esta frase que evoca primeiro uma reacção de medo e, a seguir, vê em Jesus um  “grande profeta” atribui ao acontecimento a realização de um facto milagroso devido a uma intervenção divina.  As ultimas palavra: “Deus visitou o seu povo” são exclusivas de Lucas em todo o NT. No evangelho de Lucas só aparecem em 1, 68 e nesta passagem no v. 16. Isto mostra a importância que Lucas atribui a este relato, dando lhe assim, uma importância equiparada ao cântico de Zacarias após o nascimento de João Baptista.


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