Há novas formas de família: mais casais sem filhos, mais pessoas a viver
sozinhas e mais famílias monoparentais. É este o retrato português.
Em 2001, os casais que viviam com filhos que não eram comuns aos dois correspondia
a 2,7 % do total de casais com filhos. Dez anos depois, a proporção passou para
6,6 %, refletindo um aumento para mais de o dobro. É essa uma das tendências que
se tem verificado nos últimos anos nas famílias portuguesas: a recomposição
após um divórcio ou uma separação tornou-se uma prática mais comum.
A marcar o Dia Internacional da Família, que se comemora esta quinta-feira,
o Instituto Nacional de Estatística e o Instituto de Ciências Sociais da
Universidade de Lisboa deram a conhecer um estudo que analisa a evolução das
famílias desde 1991, com base nos dados dos censos, sublinhando algumas
tendências: mais casais sem filhos, mais famílias monoparentais e mais pessoas
a viverem sozinhas.
"A família não está em
crise. O que há são novas formas de família que começam a
ganhar visibilidade", aponta Maria João Valente Rosa, demógrafa e diretora
da Pordata. É nessas novas formas que se encaixam as famílias reconstituídas ou
recompostas, resultando das segundas uniões dos casais.
Em 78 % desses casos, os filhos não comuns são da mulher, embora em dez anos
a proporção de filhos do homem tenha aumentado (de 16,5 % em 2001 para 17,3 %
para 2011). Ainda que pequena, é essa a maior variação, como destaca Susana
Atalaia, investigadora do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade
de Lisboa: "Os casais com filhos diminuíram, mas dentro destes aumentou o
peso dos casais recompostos com filhos".
Voltar a partilhar casa
Para além das famílias recompostas, há outra característica: ao longo dos
anos, o número de famílias "complexas", ou seja, constituídas por
vários núcleos - avós, tios ou casais mais jovens a viver com os pais, por
exemplo - foi diminuindo.
Há uma questão colocada por Pedro Vasconcelos, sociólogo e investigador do
ICS. "Será que a crise económica e as políticas de austeridade poderão
levar a um aumento das famílias complexas?", questiona. "É difícil
saber ao certo, mas se se mantiverem as atuais condições, que geram a
diminuição dos recursos e a diminuição da possibilidade de ter autonomia, faz
sentido que esta tendência aumente. Sabe-se que, quanto maior a pobreza
relativa da população, mais estas estratégias tenderão a reforçar-se",
acrescenta.
Também as famílias monoparentais aumentaram: hoje, 15% do total de famílias
são compostas apenas pela mãe ou pelo pai. E neste universo conclui-se que em
87 % dos casos é a mãe que está sozinha com os filhos.
Uma das explicações para esse valor é a entrega dos filhos ao cuidado das
mães a seguir ao nascimento fora do casamento, cada vez mais comum, ou após o
fim da relação. Aliás, os dados apontam para que o fim das relações tenha
estado na origem de 43 % das famílias monoparentais (uma tendência que há vinte
anos era menos comum - acontecia em 22 % dos casos).
Não só as famílias estão mais pequenas, como acabam por se reduzir a apenas
uma pessoa. A tendência de viver sozinho tem aumentado nas últimas décadas:
hoje, em 100 pessoas, 21 vivem sozinhas. Ou seja, mais de um quinto da
população. Dessa parte da população, quase metade tem mais de 65 anos, o que coincide
com a tendência de envelhecimento da população.
Só que é preciso relativizar esse peso da população idosa, que é
tendencialmente visto de uma perspetiva negativa, defende Pedro Vasconcelos.
"É verdade que há situações de isolamento e de afastamento das gerações
mais novas, mas também há situações de autonomia", aponta. "Não
podemos olhar para uma pessoa com mais de 65 anos como olhávamos há 50
anos".
Também Maria João Valente Rosa considera importante olhar para os números
de outra forma. "O que se passa em Portugal não é diferente do que se
passa noutras sociedades", refere.
"A família já não se reduz a quatro ou cinco palavras", aponta,
sublinhando que o que a família é hoje resulta do desenvolvimento da própria
sociedade.
Ler mais: http://expresso.sapo.pt/as-familias-mudaram-mas-nao-estao-em-crise=f870349#ixzz31tIa4UY1

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