NATÁLIA FARIA | Público | 14.05.2014
Quase 15 % das famílias
são constituídas por um pai ou uma mãe sós. A ruptura conjugal é o principal
factor que explica a monoparentalidade.
Famílias perdem na
dimensão institucional, mas afirmam-se cada vez mais enquanto lugar de afectos.
Recompostas,
monoparentais, sem papel passado, voláteis, com filhos mas cada vez mais em
versão mini: as famílias portuguesas são o espelho perfeito das mudanças
registadas na sociedade portuguesa nas últimas décadas.
Desde logo, porque o
casal, apesar de continuar a ser a figura predominante de organização familiar,
tem vindo a perder terreno para as famílias monoparentais. Em 2011, 14,9% das
famílias eram constituídas por pai ou mãe sós com filhos. Dez anos antes, em
1991, havia apenas 9,2% de famílias nesta situação.
Os dados divulgados nesta
quarta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), a propósito do Dia
Internacional da Família que se comemora amanhã, mostram ainda que, entre 1991
e 2011, a monoparentalidade por ruptura conjugal (divórcio ou separação) subiu
de 21,9 para 43,4%. Algumas décadas antes, os núcleos monoparentais existiam
também, mas decorriam sobretudo de situações de viuvez ou emigração de longo
prazo.
Não quer isto dizer que a
família esteja em crise. Quer apenas dizer que na promessa do “felizes para
sempre”, caiu o “para sempre”. “As pessoas continuam a considerar a família a
primeira prioridade das suas vidas”, enfatiza a socióloga Anália Cardoso
Torres, para quem “há até uma revalorização dos laços familiares”.
Recuperando os dados do
European Social Survey, cujos inquéritos se têm repetido de dois em dois anos,
Anália Torres recorda que, na escala de prioridades dos inquiridos, surge a
família em primeiro lugar, depois o lazer e depois o trabalho. “Primeiro vêm os
afectos, depois o tempo para curtir esses afectos e só depois o trabalho,
porque é preciso pagar isso tudo”, brinca a socióloga.
Longe de considerar o
crescente número de divórcios e separações como sinal de crise da família, a
socióloga entende que aqueles representam quase sempre uma insistência na
família enquanto lugar de afectos. “As pessoas não suportam que essa dimensão
das suas vidas corra mal precisamente porque ela é central. E por isso é que os
primeiros casamentos descem, dando lugar a outras formas de viver em
conjugalidade, mas os segundos casamentos de divorciados tendem a aumentar”,
sublinha.
Efectivamente, os núcleos
de casais reconstituídos (com pelo menos um filho não comum) representavam em
2011 6,6% do total de casais com filhos. Dez anos antes, o seu peso era de
2,7%, o que, segundo o próprio INE, “evidencia que a recomposição familiar após
um divórcio ou separação se tornou uma prática mais comum nas famílias
portuguesas”.
Ainda sobre as famílias
de pais ou mães sós, o INE mostra que as famílias de mães sós representam 86,7%
dos núcleos monoparentais. E, se estivermos a falar só dos núcleos
monoparentais com filhos menores de 18 anos, a proporção dos núcleos femininos
sobe para os 89,2%.
Quanto à dimensão
institucional, aqui sim, pode-se dizer-se que a família se precarizou. Nos
últimos 20 anos, o peso dos casais em união de facto quase quadruplicou. Passou
de 3,9%, em 1991, para 13,3%, em 2011.Esta crescente informalização dos laços
familiares acompanha quer as famílias sem filhos, quer as famílias com filhos.
Sem surpresas, as
famílias numerosas continuam a perder importância numérica. Em 2011, apenas
7,4% das famílias tinham três ou mais filhos (eram 16,8% em 1991). Em
consonância, e sem surpresas também, numa altura em que a queda na natalidade
se assumiu como emergência nacional, o número médio de filhos por mulher em
idade fértil desceu para um mínimo histórico (1,35 filhos em 2011 para 3,2
filhos em 1960).

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