Adverso às expectativas humanas dominantes dos
prazeres imediatos e dos poderes mal distribuídos, o cristianismo, não
desejando apoderar-se da linguagem da publicidade e do consumo religioso,
progride nas consciências vacilantes pela convicção e pela alegria balsâmica
derramada sobre os sofrimentos que resultam da perda endémica do ideal e da
esperança.
Essa capacidade de testemunho necessita de uma
âncora forte, já que os cristãos partilham a carne dolorida de todos e os
efeitos da ampla democratização da falibilidade das soluções modernas. Tal
âncora é, inequivocamente, a família, cuja erosão é a mais ameaçadora derrota
do cristianismo. Não é possível fazer uma iniciação cristã sem a família ou
contra a família, e quando a família natural não é possível, é sempre
necessário encontrar uma outra. A recuperação da família e a evangelização em
família não terão um caminho fácil, já que uma Igreja excessivamente clericalizada
perdeu, para o medo, a culpabilização e o romantismo, a noção exata do que a
família é e de como esta deve ser tratada na sua unidade e multiplicidade de
relações internas, pedra angular da classe média, apanágio da estabilidade e da
transmissão de valores, agora em violenta transformação por obra da austeridade
e das várias crises sociais. Mas por alguma razão Jesus entregou os apóstolos a
Maria.
Nas famílias, há que contar com os desafios
que são colocados à sua autoridade educativa, a mobilidade social que as mães
estão a alcançar, a importância da felicidade destas e da normatividade
vigilante que deve vir da figura do pai, quando os jovens casais não têm
ninguém com quem aprender a ser educadores e de como preservar os
indispensáveis laços de união. Mas as comunidades de fé podem ser a família
alargada que as famílias, hoje, não têm: um espaço que acolhe, que aceita, que
ensina, que acompanha, que facilita, que celebra. Um espaço onde a pessoa é
relevante e, por isso, pode ser ajudada a responsabilizar-se pelo seu percurso,
pelo dos outros, pelo crescimento de uma sociedade fundada na justiça e na
fraternidade, aprendidas na experiência do viver em comum cristão, à maneira,
atualizada, das primeiras comunidades.
Também há que considerar a educação formal e a
produção do conhecimento: a Igreja tem um passado de excelência educativa e
respondeu às crises históricas mais rebeldes com inteligência, com meios e com
constância na procura da verdade. É indispensável que se entregue dedicadamente
a este caminho de salvação da humanidade quando a pessoa parece condenada aos
rudimentos da informação que a habilitam para o trabalho e numa época em que a
investigação científica é manipulada pelos interesses comerciais e políticos
mais espúrios.
Finalmente, a evangelização, para ter futuro,
deve ser mais equilibradamente feminina: mais comunicativa, mais acessível,
mais próxima, mais doméstica, mais interessada, mais realista, mais acolhedora,
mais dedicada, mais paciente e mais persistente. É necessário abraçar a fé,
comprazer-se com a sua beleza, alimentá-la colherada a colherada, vitaminá-la
com sumo, curar-lhe as feridas, abrigá-la das ventanias, acreditar que tem
potencial para crescer. Tal como fazem as Mães: gratuitamente, arriscando,
errando e aprendendo umas com as outras.
Cristina Sá Carvalho
(Este artigo integra a edição n.º 21 do
“Observatório da Cultura”.)
Psicóloga, responsável pelo Departamento de
Formação do Secretariado Nacional de Educação Cristã
© SNPC | 20.05.14

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