A carta escrita ao Papa Francisco por 26
mulheres que afirmam viver relações sentimentais com padres voltou a acender os
refletores sobre a “fuga do sacerdócio”. “Calcular o número exato não é nada
fácil; existem números oficiais, divulgados pelo Vaticano, mas trata-se apenas
de números aproximativos devido à objetiva dificuldade de reunir os dados”,
explicou o estudioso Davide Romano, que fez um estudo sobre o tema.
O Annuarium Statisticum Ecclesiae, publicado
anualmente pela Santa Sé, oferece os números relacionados aos abandonos por
parte do clero: o setor inclui os que renunciaram à batina por diferentes
motivos. Em 1998, por exemplo, houve um total de 618 abandonos. O L’Osservatore
Romano fez um cálculo, em 1997, comparando os dados de 1970 a 1995, e obteve um
número aproximado de 46 000 sacerdotes que abandonaram o ministério.
De acordo com o canonista Vincenzo Mosca, os
sacerdotes que abandonam seu estado cada ano seriam mais de mil em todo o
mundo. Um de cada oito novos sacerdotes abandona seu ministério. Os sacerdotes
reduzidos ao estado laico em todo o mundo, segundo Mosca, seriam mais de 50 000.
Mauro Del Nevo, presidente da associação de
presbíteros com famílias Vocatio, não concorda. Segundo sua opinião, seria
preciso duplicar esse número. “Somente na Itália – indicou – os sacerdotes
casados são entre 8000 e 10 000 e são 120 000 em todo o mundo”. Os anos
durante os quais chegaram mais pedidos de dispensa do exercício do ministério
foram 1976 e 1977: entre 2500 e 3000. Atualmente, são concedidas entre 500 e
700 dispensas por ano.
Amar a Deus e ter um amor terreno: a Igreja
católica os condena, mas os religiosos que vivem uma relação sentimental são
uma realidade, e são cada vez mais importantes. É verdade: consagraram-se a
serviço divino, fizeram votos de castidade e de obediência, mas em um
determinado momento a solidão foi mais forte.
Atualmente, são milhares os que pertencem ao
clero católico e, apesar de conservarem a fé e de darem testemunho, vivem uma
história de amor entre as tempestades da frustração, da consciência do pecado e
de estar “fora da Igreja”, do sofrimento diante da situação que vivem como uma
injustiça. Porque em uma sociedade laica na qual tudo é permitido, a vida
sexual dos religiosos parece ser o último tabu. Pode uma Igreja pregar o amor e
impedir que seus ministros amem? Pode obrigá-los a viver a sexualidade na clandestinidade
e na hipocrisia? Muitos deles são protagonistas de histórias dramáticas que
oscilam entre a paixão humana e a intensidade de uma vocação. E suas vozes de
dor, de remorsos, mas também de fé, de alegria e esperança impõem uma reflexão.
“Durante séculos a Igreja considerou a mulher
um demónio tentador. Mas, nunca como desde quando estou casado compreendi o
sentido da revelação cristã”, afirmou Giovanni Franzoni, teólogo e escritor de
fama mundial, um manifesto vivo contra o celibato eclesiástico. “Melhor
sacerdotes casados do que os missionários católicos que vivem no Terceiro Mundo
‘more uxório’ com suas companheiras”, disse o abade beneditino de São Paulo
Extra-muros, um dos últimos protagonistas vivos do Concílio Vaticano II e que
há 40 anos se opõe às posturas oficiais da Santa Sé: desde o referendo sobre o
divórcio até a beatificação de Karol Wojtyla.
O ex-prior do mosteiro de Claraval, em Milão
(na Itália), Alberto Stucchi, deixou a ordem por uma mulher. E não obteve
nenhum apoio por parte de seus irmãos da ordem cisterciense, que lhe teriam
dito, “faça o que quiser, mas às escondidas”. Carlo Vaj, ex-sacerdote e
psicoterapeuta, autor do livro O Totem e o safado, considera que o procedimento
que a Igreja segue para exonerar o sacerdote das obrigações contraídas é “um
processo kafkiano no qual se violam os direitos humanos mais elementares, como
o direito à defesa ou o direito de escolher livremente o domicílio e no qual a
psiquiatria é usada como instrumento de tortura”.
Em 1971, o teólogo Joseph Ratzinger previu que
teria chegado o dia em que as ordenações de “cristãos maduros” casados seriam
uma realidade; a questão segue aberta.
Reportagem de Giacomo Galeazzi, publicada no sítio Vatican Insider, 18-05-2014.
Muito bom artigo.
ResponderEliminarMuito bom artigo!
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