Sociedade de famílias



Nós não existimos sem os outros e aos outros devemos quase tudo do que somos, do que fazemos, do que seremos, e do que quase não formos quando já não produzirmos.

Cristina Sá Carvalho| 27-05-2014

Há uns bons anos atrás fiz uma descoberta que me deixou perplexa. Observando um grupo de miúdos que brincava com os meus filhos verifiquei, com surpresa, que jogavam “às mães e aos filhos”. Inicialmente pensei que se devia à composição daquele grupo de crianças de 1°ciclo em que todas as raparigas eram as mais velhas. A representação da minha infância evocava que se brincava “às famílias”, mesmo no colégio católico feminino, em que alguma rapariga, na falta de másculo exemplar, fazia o papel de pai, pelo menos momentaneamente, até este ser enviado de viagem ou para um trabalho interminável, numa gestão eficiente de modelos e conveniência operacional. Depressa fui apurar os factos e, durante umas semanas, circulei metodicamente por recreios escolares, fortalecendo a descoberta inicial: as brincadeiras de famílias, frequentes, mantinham o padrão. Agora, todas estas crianças são jovens em idade casadoira e muitos não desejam ter filhos. De facto, essa posição de muitos amigos adolescentes, com argumento enraiza o em experiências de fragilidade familiar racionalizadas no desejo de poupar outros a um risco semelhante, também já tinha sido relatada lá em casa. O argumento usado invoca outra experiência minha com o mundo infantil, quando foi preciso analisar com detalhe uma turma de 5°ano cujos alunos mostravam grandes dificuldades de interacção. Parte da resposta veio ao verificar-se que metade dos alunos eram filhos únicos e dos demais, raros eram os que viviam com o pai e a mãe. Trabalhar com esta turma ensinou-me que o credo que me tinha sido transmitido com convicção nos anos de preparação universitária sobre a evolução da estrutura familiar estava errado: de facto, nem tudo o que pode ser bom para os adultos é necessariamente bom para os seus filhos. Inúmeras famílias depois, também percebi que muitas decisões de ruptura tomadas pelos pais  acabam por vitimá-los, e pode não ser uma descrição popular e pra-frentex, mas quando se rompe uma família, os preços emocionais e financeiros que se pagam são brutais e, muitas vezes para  ambas as partes, irrecuperáveis. E para não falar dos custos pessoais astronómicos que enfrentam um pai ou uma mãe que educam sozinhos. Há aqui, certamente, muitas modulações complexas, que exigem respeito, seriedade e realismo na análise, mas grande número de filhos dessas cisões familiares cresceram para se tornar os adolescentes que alegavam, aos doze e treze anos e, pelos vistos, agora a caminho dos trinta, que não queriam ter descendência.

Claro que os gurus do marketing devem lançar foguetes, imaginando novos produtos para consumo do substituto canídeo, mais fiel e fácil de deseducar, e toda a miríade de possibilidades de investimento que têm os adultos solteiros ou casados sem filhos. Mas do ponto de vista de uma sociedade, compreendida no seu todo, talvez não nos baste aceitar a imaginativa designação de família unipessoal. Cada habitante do mundo deve a sua vida, a sua educação, os seus recursos materiais, as suas possibilidades de existir, à sociedade que o gerou, o educou, lhe permitiu herdar e/ou trabalhar, adaptar-se, progredir, criar, vender, ter um mercado. Nós não existimos sem os outros e aos outros devemos quase tudo do que somos, do que fazemos, do que seremos, e do que quase não formos quando já não produzirmos. De facto, temos o dever, para com a sociedade, de assegurar a sua sobrevivência, de correspondermos ao valor que investiu em nós para nos ser permitido existir. E esta não é apenas uma questão para a filosofia ou o credo religioso, é uma questão política e económica essencial que deve ser considerada, por exemplo, em termos de fiscalidade, pois, devem ou não, pagar os mesmos impostos os casais sem filhos e os que asseguraram descendência? Os que escolhem não ter filhos podem argumentar que não devem pagar as escolas, as maternidades, os subsídios que apoiam as crianças, de que nunca usufruirão. Os que têm filhos defenderão que devem ver descontado o esforço que fazem para rejuvenescer a sociedade, para alimentar, educar e proteger os braços e as cabeças que trabalharão para sustentar a reforma de todos e para manter viva a cultura comum. Claro que tudo isto é, até certo ponto, calculável do ponto de vista do deve e do haver, mas até aí se faz prova da razão pela qual as sociedades mais evoluídas devem favorecer a construção de famílias e colaborar na criação de condições que favoreçam a sua estabilidade e progressão. A fragilidade da família tem custos financeiros elevados, alimentando o circuito da pobreza e a degradação da classe média, assim como refreando a mobilidade social e a igualdade, enfraquecendo as condições de educação das gerações mais jovens, num mundo dominado pela ganância das grandes corporações, completamente alheadas das necessidades que não coincidam com o lucro imediato e a soma dos seus poderes. A problemática das famílias, e do que é uma família, é uma questão seríssima. Não devíamos brincar às casinhas quando uma geração em idade fértil se alheia voluntariamente da função parental.

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