«Ao definir os seus objectivos, a Fraternitas privilegia a disponibilidade dos seus membros para colaborar na causa eclesial»
A principal qualidade de um ser vivo é a sua
adaptabilidade às circunstâncias envolventes. É a necessidade que faz
destravar, quer no indivíduo quer na sociedade, as evoluções necessárias.
Talvez esta necessidade de adaptação possa até
fazer emergir capacidades minhas ainda não descobertas, porventura muito ricas,
que teriam ficado inexploradas por nunca terem sido excitadas, Seriam talentos
enterrados agora trazidos à luz do dia para enriquecimento meu e da comunidade.
Muitas vezes, são os acasos fortuitos que vão
determinar alterações na nossa vida.
Temos ouvido na televisão testemunhos de pessoas que, por acidente, viram truncadas carreiras promissoras, fazendo-as voltar à estaca zero e obrigando-as a reaprender tudo como se tivessem nascido naquele momento. Algumas não conseguiram, outras sim. Estas descobriram em si mesmas capacidades novas e conseguiram voltar a dar sentido à própria vida. Conseguiram realizar-se, ser úteis, render e ajudar os outros. Uma afirmação do valor da vida.
Os padres que, casando, abandonaram o
exercício do ministério, estão um pouco na linha destes ressuscitados. Votados
ao anonimato por parte das instituições eclesiásticas, que os consideraram como
traidores, infiéis às promessas feitas, folhas secas, seres falhados e
aconselhados a abandonarem os lugares onde eram conhecidos como padres, eles,
quase sem se darem conta, venceram essa fase difícil da transição duma carreira
clerical para uma profissão normal, eclesialmente anónima.
Foi dessa base que tiveram de refazer a
própria vida, o que conseguiram com muito esforço e muita capacidade, mas,
naturalmente, também com êxito.
Por falta de padres as dioceses recorrem a
colaboradores leigos para o exercício de muitas funções paroquiais há bem pouco
tempo da exclusiva responsabilidade dos padres. Essa prática é de aplaudir
porque os leigos têm o seu lugar na Igreja Povo de Deus.
Devemos dar graças a Deus por esta actual
crise de padres, porque ela obriga a hierarquia a recorrer ao serviço de
membros da assembleia, entregando-lhes responsabilidades e suscitando, assim,
vocações generosas e carismáticas que, noutras circunstâncias, nunca veriam a
luz do dia. E isto independentemente de serem jovens ou adultos, casados ou
solteiros, novos ou velhos, homens ou mulheres. Para uma doação ao serviço
eclesial a tempo inteiro é irrelevante se se é casado ou não, como a
experiência abunadantemente documenta, p. ex., em termos de missões ad gentes:
médicos, professores, enfermeiros, etc. O Espírito sopra onde quer. Mas o
espírito de doação é muito mais exercitado no seio de uma família do que no
estado celibatário.
Temos ouvido na televisão testemunhos de
pessoas que, por acidente, viram truncadas carreiras promissoras, fazendo-as
voltar à estaca zero e obrigandoas a reaprender tudo como se tivessem nascido
naquele momento. Algumas não conseguiram, outras sim. Estas descobriram em si
mesmas capacidades novas e conseguiram voltar a dar sentido à própria vida.
Conseguiram realizar-se, ser úteis, render e ajudar os outros. Uma afirmação do
valor da vida.
Em termos objectivos, os padres que, casando,
abandonaram o exercício do ministério, estão um pouco na linha destes
ressuscitados. Votados ao anonimato por parte das instituições eclesiásticas,
que os consideraram como traidores, infiéis às promessas feitas, folhas secas,
seres falhados e aconselhados a abandonarem os lugares onde eram conhecidos
como padres, eles, quase sem se darem conta, venceram essa fase difícil da
transição duma carreira clerical para uma profissão normal, eclesialmente
anónima.
Foi dessa base que tiveram de refazer a
própria vida, o que conseguiram com muito esforço e muita capacidade, mas,
naturalmente, também com êxito.
Por falta de padres as dioceses recorrem a
colaboradores leigos para o exercício de muitas funções paroquiais há bem pouco
tempo da exclusiva responsabilidade dos padres. Essa prática é de aplaudir
porque os leigos têm o seu lugar na Igreja Povo de Deus.
Devemos dar graças a Deus por esta actual
crise de padres, porque ela obriga a hierarquia a recorrer ao serviço de
membros da assembleia, entregando-lhes responsabilidades e suscitando, assim,
vocações generosas e carismáticas que, noutras circunstâncias, nunca veriam a
luz do dia. E isto independentemente de serem jovens ou adultos, casados ou
solteiros, novos ou velhos, homens ou mulheres. Para uma doação ao serviço eclesial
a tempo inteiro é irrelevante se se é casado ou não, como a experiência
abunadantemente documenta, p. ex., em termos de missões ad gentes: médicos,
professores, enfermeiros, etc. O Espírito sopra onde quer. Mas o espírito de
doação é muito mais exercitado no seio de uma família do que no estado
celibatário.
O velho tem muito medo de experiências novas.
É por isso que uma sociedade gerontocrática anda sempre a reboque da evolução
da sociedade.
As chefias da Igreja não se auto-reformam,
são, por natureza, imobilistas. Enquanto a hierarquia for uma gerontocracia, as
reformas não avançam.
Foi por volta dos anos 1960 que a Igreja
começou a sentir a saída de muitos dos seus padres. Estes, tendo saído pelas
mais variadas razões, na sua grande maioria acabariam por casar. No entanto,
seria demasiado redutor e não verdadeiro dizer que os padres saíram para casar.
Face às medidas de ostracismo e de anulação
eclesiástica de que foram/são alvo, eles sentiram necessidade de se organizarem
para se encontrarem e apoiarem mutuamente. E, não menos importante, para
fazerem em conjunto a análise da situação em que se encontram. Reconheceram que
não fizeram mal nenhum, antes pelo contrário, fizeram o que devia ser feito. E,
partindo desta perspectiva, planear acções para o futuro.
Começando pela afirmação da sua existência, da
sua presença como cidadãos de pleno direito na comunidade eclesial, com
capacidades próprias para poder intervir em actividades eclesiais, assumindo
que estão em condições de poderem preencher lacunas ministeriais, consideram
que a sua situação face à comunidade eclesial pode constituir um incentivo para
as necessárias mudanças no recrutamento dos agentes pastorais ordenados.
Por toda a parte os padres, que deixaram o
ministério, se organizaram. Começaram por aprofundar a história do celibato
obrigatório para os padres. Nunca desvalorizaram o celibato assumido
voluntariamente como valor ao serviço de Deus e dos irmãos, mas distinguiram
muito bem duas coisas que são diferentes: o celibato e vocação sacerdotal,
porque uma coisa não implica a outra. Assim como é contra os direitos humanos
proibir alguém de casar, também ninguém é obrigado a casar.
Desenvolveram a consciência de que “o celibato
não é essencial para o sacerdócio” (João Paulo II). Sabem, por experiência
própria, que a antiga tradição de mil anos de sacerdócio casado é perfeitamente
válida hoje em dia e até mais consentânea com as exigências da natureza humana.
Não podendo ser integrados no exercício do
ministério, os padres casados foram reflectindo onde poderiam exercer a vocação
que Deus lhes deu para o serviço dos irmãos. Os seus olhares voltaram-se para os
pobres e os oprimidos, sendo naturalmente críticos para com os opressores.
Ao definir os seus objectivos a nossa
Fraternitas procurou evitar situações de afrontamento, ou de tensão,
privilegiando a disponibilidade dos seus membros para colaborar na causa
eclesial dentro dos domínios ou temas em que se sintam particularmente habilitados.
Não reivindica a reintegração no exercício do ministério, embora reconheça que
os seus membros estariam em boas condições de poderem ser pastoralmente úteis,
nomeadamente nos domínios da educação e da acção social.
Além disso, a Fraternitas pretende trabalhar
no sentido de que os seus membros se congreguem, entreajudem e actualizem, quer
participando em cursos apropriados quer mantendo diálogo com outros movimentos.
O objectivo é que tenham ânimo para vencer as dificuldades de percurso e, possam,
assim, encontrar a paz e a tranquilidade de quem se sente no bom caminho. Temos
sempre presentes as palavras do Mestre: “quando dois ou três se reunirem em Meu
nome, Eu estarei no meio deles”. Com a ajuda d’Ele não há dificuldades
insuperáveis. As soluções para os problemas acabam por surgir de forma
inesperada.
João Simão, editorial do boletim Espiral, n.º 10, Janeiro / Março de 2003

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