Testemunhar a alegria do Evangelho, rejuvenescer a Igreja



«Nós notamos como muitas das nossas comunidades, movimentos e fiéis se mostram instalados, fechados e desanimados, sem entusiasmo evangelizador. Respira-se, na Igreja e na sociedade, um ambiente de tristeza individualista.» (D. Manuel Pelino, bispo de Santarém, na nota em que abre uma consulta para a redação da próxima carta pastoral 2014-2015)

D. Manuel Pelino publicou o documento que se segue. Pretende consultar a opinião dos cristãos, em particular diocesanos de Santarém, para preparar a próxima carta pastoral 2014-2015. Agradece que lhe façam chegar comentários e respostas às questões finais. E que os/as façam chegar por email: diocstr@sapo.pt

Testemunhar a alegria do Evangelho, rejuvenescer a Igreja

O papa Francisco, na conhecida Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”, convida toda a Igreja a sair para levar a toda a gente a alegria do evangelho que enche o coração e a vida daqueles que se encontram com Jesus. Na verdade, garante o Papa, é a alegria do evangelho que pode vencer a tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada.

Muitos, também entre os crentes, afirma Francisco, caem no risco de se fecharem nos próprios interesses sem espaço para os outros, sem lugar para os pobres, sem ouvido para a voz de Deus, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida (Cf EG 1 e2). 

Certamente, também nós notamos como muitas das nossas comunidades, movimentos e fiéis se mostram instalados, fechados e desanimados, sem entusiasmo evangelizador. Respira-se, na Igreja e na sociedade, um ambiente de tristeza individualista. 

Esta chamada de atenção do papa Francisco é, portanto, muito oportuna pois nos revela um motivo permanente da crise que se instalou entre nós e que gera queixas e ressentimentos mas não compromete na solução dos problemas. 

Se nós, discípulos de Jesus Cristo, não sairmos desta atitude comodista e lamurienta para nos abrirmos ao caminho de Cristo e ao serviço do evangelho, não damos o nosso contributo para vencer a crise nem alcançamos a vida no Espírito que jorra da Ressurreição do Senhor (Cf EG 2). 

Por isso, a situação que actualmente vivemos convida-nos a interiorizar a alegria que nasce do encontro com Cristo Ressuscitado e a procurar que essa alegria envolva toda a nossa existência, transpareça no nosso rosto e nos leva a sair para levar a boa nova de Jesus ao mundo. 

Somos chamados a testemunhar a alegria do evangelho. Se assumirmos o dinamismo missionário da Igreja para levar a todos os homens a alegria do evangelho, então alcançamos o rejuvenescimento da Igreja e dos fiéis: “Na doação, a vida se fortalece; e se enfraquece no comodismo e no isolamento. 

De facto, os que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança da margem e se apaixonam pela missão de comunicar a vida aos demais…Cristo torna os seus fiéis sempre novos, ainda que sejam idosos…Com a sua novidade Ele pode sempre renovar a nossa vida e a nossa comunidade” (EG 10 e 11). 

Sair para a missão rejuvenesce a Igreja. 
Para viver e irradiar a alegria do evangelho há uma atitude prévia, um passo indispensável que não é fácil pois exige desprendimento e sacrifício: “sair”! A Igreja tem de sair; e cada um que queira seguir este caminho da evangelização também tem de sair de si mesmo. 

O dinamismo da saída aparece constantemente recomendado na Sagrada Escritura, no Antigo Testamento, na vida de Jesus, na Igreja das origens e na vida de todos os que vivem intensamente o evangelho, designadamente dos Papas agora canonizados (João XXIII e João Paulo II). 

Para cultivar esta atitude da saída vamos apoiar-nos em dois textos bíblicos, um de São Marcos e outros dos Actos dos Apóstolos Marcos 1, 29-31. 38: «Saindo da sinagoga, foram para casa de Simão e André, com Tiago e João. A sogra de Simão estava de cama com febre, e logo lhe falaram dela. Aproximando-se, tomou-a pela mão e levantou-a. A febre deixou-a e ela começou a servi-los(…); “Todos te procuram. Mas Ele respondeu-lhes: «Vamos para outra parte, para as aldeias vizinhas, a fim de pregar aí, pois foi para isso que Eu vim.» E foi por toda a Galileia, pregando nas sinagogas deles e expulsando os demónios. Neste texto descobrimos como o encontro com Deus vivido no templo (sinagoga), leva a sair para levar o amor de Deus à vida quotidiana, à família, aos outros. 

A proximidade de Deus na oração traduz-se num estilo de vida caracterizado pela proximidade dos outros, pelo encontro, pelo acompanhamento e pelo serviço. Ensina-nos que “a Igreja em saída toma a iniciativa para ir ao encontro, (…) para se envolver e entrar na vida diária dos outros, (…) assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo” (EG 24). 

Mas a “saída” não termina nas pessoas próximas nem na família. Não se instala no êxito ou entusiasmo das multidões nem se limita aos grandes centros. Leva também às periferias, aos afastados e perdidos: ”Vamos para as aldeias vizinhas a fim de pregar aí”.

Vemos assim o dinamismo da missão: adoração de Cristo que muda o coração de cada um; saída para levar o amor de Deus aos outros, à família e à sociedade; ir às periferias. 

Outro texto significativo da missão é o arranque da evangelização para além das fronteiras de Jerusalém narrado em Act 8, 1-8: “No mesmo dia, uma terrível perseguição caiu sobre a igreja de Jerusalém. À excepção dos Apóstolos, todos se dispersaram pelas terras da Judeia e da Samaria. Entretanto, homens piedosos sepultaram Estêvão e fizeram por ele grandes lamentações. Quanto a Saulo, devastava a Igreja: ia de casa em casa, arrastava homens e mulheres e entregava-os à prisão. Os que tinham sido dispersos foram de aldeia em aldeia, anunciando a palavra da Boa-Nova. Foi assim que Filipe desceu a uma cidade da Samaria e aí começou a pregar Cristo. Ao ouvi-lo falar e ao vê-lo realizar milagres, as multidões aderiam unanimemente à pregação de Filipe. De facto, de muitos possessos saíam espíritos malignos, soltando grandes gritos, e numerosos paralíticos e coxos foram curados. E houve grande alegria naquela cidade”. 

É a perseguição à Igreja de Jerusalém que conduz à dispersão e a dispersão promove a difusão do evangelho. Na origem encontramos o martírio de Estêvão, o luto por este mártir, a fúria persecutória de Saulo que ia de casa em casa prender homens e mulheres, ou seja, a primeira grande perseguição inicia a evangelização.

A perseguição não deixa a Igreja instalar-se mas estimula-a a revigorar o dinamismo missionário que lhe vem do seu Senhor e do Espírito Santo. É como se a perseguição provocasse um novo Pentecostes. A prova purifica e fortalece a identidade missionária da Igreja. Assim, do luto por Estêvão vem a alegria dos novos convertidos; do martírio o nascimento de novos crentes na Samaria; da diáspora o crescimento da Igreja. É pelo caminho da cruz que se alcança a alegria pascal. Quem temos para levar o evangelho?

“Os que tinham sido dispersos”. Não é uma tarefa de alguns especialmente dotados. É de todo o povo de Deus. Implica outra saída: da Igreja entendida a partir do binómio clero-leigos (Igreja docente e Igreja discente) para a Igreja povo de Deus em que todos são enriquecidos com carismas para a missão. E pede ainda outra saída: do perfil do cristão tradicional, praticante passivo, ao discípulo missionário, que participa com alegria e zelo na missão. “Igreja em saída” para levar a todos a alegria do evangelho tem sido a preocupação predominante do Papa Francisco.

Já antes de ser eleito Papa, o cardeal Bergoglio vivia intensamente este dinamismo da Igreja que sai para levar o evangelho às periferias. Nas reuniões gerais que os cardeais realizaram em Roma, antes do Conclave, entre 4 e 11 de Março, para uma reflexão conjunta sobre a situação interna da Igreja e o perfil do novo Papa, o Cardeal de Buenos Aires apresentou a sua reflexão onde se encontra já esta orientação: “A Igreja é convidada a sair de si mesma e ir para as periferias não só geográficas mas também existências. Uma Igreja auto-referencial adoece… O futuro papa deve ser um homem que, a partir da adoração e da contemplação de Jesus Cristo, ajude a Igreja a sair de si mesma ”. Queremos adoptar esta recomendação do Papa Francisco como opção prioritária do nosso programa pastoral para 2014-2015. 

A Igreja renova-se e rejuvenesce quando sai em missão (EG 23, 24, 25, 27, 34…). Precisamos sair dos nossos grupos ou círculos habituais de convivência e de actividade pastoral, de sair dos acampamentos seguros e ir pelos caminhos do mundo levar Jesus aos de fora. Não podemos fechar Jesus nas nossas paróquias, grupos, igrejas ou sacristias. Devemos abrir-Lhe as portas para que seja luz e salvação para os que ainda não O encontraram. Nesse sentido, devemos partir da adoração e da contemplação de Cristo e caminhar com Ele para testemunharmos o que vemos, contemplamos e vivemos. Como discípulos que vivem com o Senhor e missionários que partilham com todos a alegria do Evangelho. “Todos os que se encontraram com o amor de Deus em Cristo (…) são discípulos missionários” (EG 120).

QUESTÕES PARA REFLECTIR E PARTILHAR 
1. Como formar cristãos “discípulos missionários”? 
2. Como sair de si mesmo para se abrir à realidade, a Deus e aos outros? Como sair da tristeza lamurienta para cultivar a alegria do evangelho? Como levá-la aos outros? 
3. Como delinear e promover, nesta perspectiva, o perfil do ministério ordenado? E da família? 
4. Como imprimir o dinamismo da “saída” às nossas comunidades tradicionais, muitas vezes fechadas em si mesmas? E aos nossos Movimentos Eclesiais de apostolado também frequentemente instalados? 
5. Como imprimir idêntico dinamismo de “saída” às actividades pastorais fundamentais e aos grupos que as realizam: à catequese? à liturgia? À acção social e caritativa? À relação com a sociedade (com as associações culturais e políticas)? À gestão do património cultural da Igreja?
6. Que periferias é hoje importante alcançar?
7. Que outras questões lhe parecem oportunas?


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