Em determinada freguesia rezou-se muito pelas
vocações sacerdotais, numa «Semana Vocacional». Talvez se tenham esquecido as
indispensáveis vocações dos cristãos para o serviço da pastoral nas famílias e
nas comunidades. Mais do que chorar pela falta de vocações sacerdotais, é necessário
interpretar e responder aos desafios do nosso tempo.
É preciso continuar a desclericalizar a Igreja,
para se corrigir a tendência do passado em que todos os ministérios pastorais apenas
se atribuíam aos sacerdotes. Não era assim no tempo dos primeiros cristãos.
Às vezes a actuação da hierarquia parece transformar
a Igreja numa repartição pública, onde as pessoas, do lado de fora do balcão,
esperam pelo «despacho» do funcionário, se e quando ele se dispuser a isso!...
A falta de sacerdotes veio repor os fiéis nos
campos da pastoral, de onde nunca deviam ter sido retirados. Foi um grande erro
da história da Igreja! E o mesmo erro se repete quando não se aproveitam tantos
que sabem e podiam servir, mas que se marginalizam com desajustadas leis!...
Se não me chamassem herege, eu diria que a falta
de sacerdotes foi uma benção do Espírito Santo!... Certamente um sinal da Sua
presença na Igreja, que todos deviam compreender!...
É verdade que Jesus disse:«A seara é grande,
mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao senhor da seara que mande
trabalhadores para a sua vinha» (Mt 9,37-38). Mas este apelo é dirigido a todos os seus discípulos,
sejam ou não ordenados. Até porque Cristo nunca ordenou nenhum sacerdote!...
Jesus visionava, no seu horizonte, toda a
Igreja, todos os baptizados. O sacerdócio ministerial é, ou deve ser,
indispensável para a salvaguarda e integridade da mensagem evangélica. Mas quem
tem de construir a Igreja são todos os que, pelo baptismo, participam no
sacerdócio real de Cristo. Faltam sacerdotes? E o menos. A falta de cristãos na
pastoral é que é o mais grave!...
A Igreja é um Corpo, do qual todos os baptizados
são igualmente membros. E cada um tem de colaborar na manutenção da vida desse
Corpo. Por outro lado é preciso conhecer o sentido e
o alcance da oração. Pelo que geralmente se observa, fica-se com a errada impressão
de que Deus se mantém tão alheio aos nossos problemas, que é preciso «sacudi-lO»,
para que Ele «acorde»!... Isto é um erro que não se compadece com a misericórdia
e solicitude de Deus! Ele sempre nos procura, mesmo que O esqueçamos!
Foi Santo Agostinho que confessou: «Senhor, eu
não Te teria encontrado se primeiro não me tivesses procurado». Então para que
se reza?!... Olhai: um dia o P. Paulo Guerra escreveu, no seu belo livro
«Celebrar a Festa», que«a nossa oração não move o coração de Deus para dar, mas
dispõe o nosso para receber». O problema está aqui. O que é preciso é estarmos
atentos e abertos ao Espírito de Deus, e deixá-lO entrar na nossa vida...
A oração é para mover e sensibilizar, mais a
nós do que a Deus. É preciso aceitar os Seus convites e transformar os nossos
comportamentos. Quando Cristo nos ensinou o «Pai Nosso», pôs em primeiro lugar
o homem a louvar a Deus na vivência do seu Reino no mundo, e só depois a
petição do «pão de cada dia» para que se possa viver num compromisso com os
outros igual ao que desejamos para nós: «assim como nós perdoamos...». Deus e
os homem num mesmo abraço!...
A Cruz é o sinal do cristão. E ela tem a dimensão
vertical que liga o homem a Deus, mas ficaria incompleta sem a dimensão horizontal
que nos liga uns aos outros. Sem qualquer destes braços não há Cruz, nem
sinal do cristão... A oração, mesmo feita individualmente, nunca é
um acto privado. Temos de ter presentes todas as necessidades dos outros, porque
nenhum de nós é ilha isolada no mundo. De outra maneira a oração não é comunhão
com Deus nem com os irmãos. Não há oração sem comunhão!
Se a oração se reduzisse a petições, não
passaríamos de pedintes. E Deus não nos quis fazer pedintes. Nem Ele é sádico, nem
nós masoquistas!... A oração é muito mais um diálogo comunhão com
Deus, uma acção de graças por tudo quanto d’Ele recebemos. Daí que nos choca
quando alguém diz querer «salvar a sua alma». Acho que salvaremos a nossa só na
medida em que ajudarmos os outros a salvar a sua... Se somos membros do Corpo
Místico de Cristo, não podemos imaginar que um qualquer membro apenas se ajude
a si mesmo! A Natureza nos ensina isso!...
Se nas nossas comunidades se viver uma fé
operativa, com impacto construtivo na vida individual e colectiva, as famílias
e a sociedade se transformarão, abrindo-se às inspirações do Espírito Santo que
sempre sopra «como, quando e onde quer». O que é preciso é que as preocupações
disciplinares, às vezes farisaicas, não impeçam a acção do Espírito de Deus! E então não hão-de faltar vocações a todos os
níveis. Sim, porque é precisa disponibilidade nos indivíduos, nas famílias
Rezar, sim!... Não para «acordar» Deus, mas para abrir o nosso coração à luz do
Espírito Santo e deixá-la entrar livremente. Porque a luz pode chegar aos lugares mais
escuros, mas nunca entra numa casa com as portas e as janelas fechadas.
Então, que a Igreja abra todas as portas e
todas as janelas e, sem ser do mundo, que viva no mundo real, a cada
momento!...
Manuel Paiva, in Espiral n.º 10

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