Uma vida transbordante de sentidos (1): A vocação nasce do olhar!

Quando nasce uma vocação? Onde situar a sua origem? Qual é o seu primeiríssimo instante? À pergunta poderíamos dar uma resposta de certo modo óbvia: a vocação nasce no coração de Deus! Como e quando, porém, se manifesta ela no coração da pessoa?

 Por: P.e MANUEL JOÃO P. CORREIA, Missionário Comboniano,

Viria espontâneo pensar que, dado tratar-se de um «chamamento» (vocação provém do verbo latino vocare, «chamar»), ela é semeada pela «boca» de quem chama e brota no «ouvido» de quem escuta. Na origem da vocação estaria pois a «palavra».
Eu acho, porém, que antes da palavra (pronunciada e escutada) está o... olhar! Ou melhor, dois olhares que se cruzam, que comunicam e estabelecem uma relação particular.

A vocação nasce de um olhar
Encontramos no Evangelho numerosos exemplos. Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu Simão Pedro e seu irmão André e chamou-os; mais adiante viu os filhos de Zebedeu, Tiago e João, e chamou-os também (Marcos 1). Passando por ali de novo, no dia seguinte, viu Levi, filho de Alfeu, sentado ao posto da cobrança e disse-lhe: «Segue-me»; e este levantou-se e seguiu-o (Marcos 2).
Não sempre este olhar conseguiu o seu intento, como quando Jesus fitou com amor o jovem rico e o convidou a segui-lo. O jovem abaixou os olhos e afastou-se triste, cabisbaixo (Marcos 10). Mas já assim não foi com outro rico, Zaqueu, alcançado também ele pelo olhar de Jesus: «Chegando Jesus àquele lugar e levantando os olhos, viu-o e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, porque é preciso que eu fique hoje em tua casa. Ele desceu a toda a pressa e recebeu-o alegremente» (Lucas 19).
Esta relação entre vocação e visão não aparece só com Jesus que chama, Ele que é a Palavra que se tornou visível (1 João 1). Podemos comprovar que tal sucede também em algumas vocações do Antigo Testamento. Recordemos Moisés, por exemplo: vendo a sarça ardendo, aproximou-se para ver de perto; o Senhor viu Moisés que se aproximava para observar e, do meio da sarça, o chamou: «Moisés, Moisés» (Êxodo 3).
Embora o antigo testamento privilegie a escuta, é dito que no Sinai «todo o povo viu as vozes» (Êxodo 20,18, segundo o texto hebraico). A palavra não se opõe à visão, ela habita também no olhar!

O olhar de Jesus
O Evangelho nada diz sobre o rosto de Jesus, as suas feições, a cor dos seus cabelos ou dos seus olhos, mas fala frequentemente do seu olhar. A sua intimidade passa através do seu modo de olhar. Com efeito, nós falamos e comunicamos com os olhos; até sentimentos e emoções íntimas que, por vezes, a palavra não consegue transmitir. Este olhar de Jesus tinha um efeito singular. Um simples trocar de olhares e tudo muda. Quando Jesus chamou os seus apóstolos, não se diz que tenha dialogado com eles ou tentado persuadi-los. O seu olhar tinha um tal poder de convicção ou de atracção que dispensava palavras ou discursos retóricos. Jesus chamou-os, e eles abandonaram tudo e seguiram-no imediatamente. O seu olhar tocara-lhes o coração e a vida deles mudou para sempre.
O Papa Francisco comentava, há tempos, o impacto deste olhar sobre Mateus. Jesus olha Mateus nos olhos, um cobrador de impostos, um pecador público. O dinheiro é a sua vida, o seu ídolo. Mas agora, afirma o papa, sente «no seu coração o olhar de Jesus dirigido a ele». «E aquele olhar envolve-o totalmente, transformou a sua vida. Nós dizemos: converteu-o. Assim que viu aquele olhar, levantou-se e seguiu-o. E isso é verdadeiro: o olhar de Jesus sempre nos levanta. Um olhar que nos leva para cima, que jamais nos abandona. Jamais humilha. Convida a levantar-se. Um olhar que leva a crescer, a ir em frente, que encoraja, porque nos quer bem» (Santa Marta, 21.9.2013).

Um olhar que interpela
Dir-se-ia que a palavra não basta para suscitar uma vocação. É necessário um olhar que nos «interpele» e dê consistência e força à palavra. Isto tem a sua base antropológica. Nós comunicamos, antes de mais, com o olhar. Uma verdadeira comunicação requer um encontro face a face, um olhar-se nos olhos. Não basta uma simples troca de palavras através do ecrã do iPhone!...
O homem Adão precisa de ter diante de si um interlocutor, alguém que lhe «corresponda» (um «face-a-face», parece indicar o texto de Génesis 2,20) para poder compreender-se a si próprio. O olhar do outro torna-se o espelho em que nos contemplamos. Quando negamos ou suprimimos esse olhar, como no caso de Caim com o seu irmão Abel, o nosso olhar obscurece-se e caminhamos nas trevas.
O nosso olhar é interpelado mas também interpela o mundo e os outros que nos rodeiam. Recebe e exerce uma influência, positiva ou negativa. Um olhar pode fazer desabrochar quanto de melhor existe no coração de quem se olha. Tem o poder de fazer renascer a vida e a esperança, de suscitar potencialidades inimagináveis. Como pode amarfanhar, abater, semear a morte.
Pensemos no olhar enamorado que faz com que a amada ou o amado se sinta uma «fada» ou um «príncipe». Naquele olhar, crescendo, nasce a vocação ao matrimónio. Mas quando aquele olhar começa a redimensionar o outro, vendo-o com olhos que o diminuem até o anular, aí começa a tragédia. Basta que apareça um outro olhar em que uma pessoa se sinta valorizada e estimada para pôr em perigo tal matrimónio.

Um olhar que ama
Ver não é uma tarefa fácil. Hoje vivemos na época do show planetário, com um dilúvio contínuo de imagens que nos submergem com o seu poder de sedução. É preciso aprender a ver, pois podemos «ter olhos e não ver» (como diz Jesus dos seus discípulos, a certa altura). Isto implica uma caminhada espiritual de purificação do nosso olhar para evitar uma visão superficial, utilitária, manipuladora...
A pureza do olhar está ligada à do coração. «Os puros de coração verão a Deus», diz Jesus. Esta pureza é a do Amor. O «bem ver» é uma questão de «bom coração». Citando O Principezinho de Antoine de Saint-Exupéry, «Só se vê bem com o coração». É o coração que dá profundidade ao olhar, porque «o essencial é invisível aos olhos».
Para purificar o nosso coração precisamos de nos ver na pupila dos olhos de Deus. Só eles reflectem a imagem do que somos realmente: «Tu és precioso a meus olhos, porque eu te aprecio e te amo» (Isaías 43,4). Só assim descobrimos a nossa verdadeira identidade e a nossa vocação, no olhar apaixonado do coração de Deus. Por isso os pequenos e os humildes, os pecadores e as prostitutas se sentiam acolhidos e estimados pelo olhar de Cristo. Fora de tal olhar o homem desce à fossa: «Não me oculteis a vossa face, para que não me torne como os que descem à sepultura» (Salmo 142,7).
A vocação nasce e cresce na contemplação. Aliás S. Paulo diz que através do olhar nos transformamos em espelho de Cristo. A sua imagem impregna o nosso coração e transforma-nos n’Ele. Grande é o poder desta Imagem! «Todos nós, a rosto descoberto, reflectimos como num espelho a glória do Senhor e nos vemos transformados nesta mesma imagem, sempre mais resplandecentes, pela acção do Espírito do Senhor» (2 Coríntios 3,18).
Olhar e deixar-se olhar por Cristo, é o segredo de uma vocação cristã vivida com paixão. O Papa Francisco, na tal homilia a que acenámos antes, concluía dizendo: «Todos nós nos encontraremos diante daquele olhar, aquele olhar maravilhoso. E vamos em frente na vida, na certeza de que Ele nos olha. Mas também Ele nos espera para nos olhar definitivamente. E aquele último olhar de Jesus sobre a nossa vida será para sempre, será eterno. Eu peço a todos esses santos que foram olhados por Jesus, que nos preparemos a deixar-nos olhar na vida, e que nos preparemos também para aquele último... e primeiro olhar de Jesus».

Um olhar que vê
Um olhar purificado pelo amor, o olhar do coração, vê o mundo e os outros com outros olhos! Não com um olhar indiferente ou concupiscente mas... com olhos de ver!
Eis um bonito exemplo, que tem algo de fantástico e incrível. Trata-se de uma criança, Vivienne Harr (na foto), uma menina californiana de apenas 8 anos, que deu início a um projecto com o objectivo de acabar com a exploração infantil.
Um dia a sua mãe fez-lhe ver, com comoção, uma foto de duas crianças nepalesas, de mãos dadas, transportando nas costas enormes pedras. Vivienne ficou profundamente chocada. E decidiu «fazer alguma coisa» para mudar tal situação. A única coisa que sabia e podia fazer era… vender limonada! Com a ajuda da família, Vivienne construiu a sua barraquinha de limonada, com a finalidade de amealhar... 100 000 dólares para financiar a libertação de meninos escravos.
Durante semanas, meses, um ano inteiro... levou adiante o seu propósito. O seu olhar de um coração de criança e a sua tenacidade fizeram o milagre.
O seu projecto tornou-se famoso quando um cronista do The New York Times, tendo recebido uma mensagem de Vivienne, a publicou no Twitter: «Olá, sou uma criança de 8 anos e vendo limonada contra a escravidão, todos os dias, até quando alcançar 100 mil dólares.» Em pouco tempo tão insólita notícia ganhou destaque em várias emissoras e jornais. Viajando com a sua barraquinha, convidada a espectáculos e actividades de beneficência…, o sucesso da iniciativa foi tal que em breve alcançou o objectivo que se propusera.
Quando os pais lhe fizeram notar que agora podia dar-se por satisfeita, ela perguntou: «Mas será que acabou a escravidão das crianças?» «É claro que não», lhe responderam eles. «Então também eu não terminei!» Continuou a sua campanha, e chegou a um milhão de dólares. Hoje a sua limonada artesanal é vendida em muitos lugares do país.
Da venda da limonada Vivienne aprendeu uma coisa: «Pensava que o máximo da vida fosse outra coisa, e ao invés sou tão feliz servindo e ajudando: é a coisa mais bela do mundo!»

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