Uma vida transbordante de sentidos (1b): Que olhos tem uma vocação?



Uma vocação que empenha uma vida só pode nascer de um grande amor. Só podemos dar a vida, toda a vida e para sempre, ao Amor. Só um coração verdadeiramente apaixonado é capaz de chegar a tanto. A vocação começa de um olhar que ama, de um olhar que seduz.

Por: P.e MANUEL JOÃO P. CORREIA, Missionário Comboniano,

A vocação nasce de um olhar intenso que entra em misteriosa sintonia com o sentir profundo do coração humano, onde convivem necessidades instintivas, abismos de vazios incomensuráveis e anelos infinitos, ambições de sonhos inimagináveis.
Tal é o olhar de Cristo que chama os seus discípulos a segui-lo. Que os liga progressivamente ao Seu destino. Que torna suportável qualquer calvário. O jovem rico abisma-se na tristeza de não tê-lo recolhido, Pedro desfaz-se em lágrimas ao tê-lo renegado, Judas sucumbe ao remorso de tê-lo perdido.
Mas qual é o olhar do discípulo de Jesus? Qual efeito provoca nele a experiência de ser «olhado»? Como vê os demais e o mundo ao seu redor?

A coragem de olhar bem: de perto!

O olhar do discípulo é um olhar iluminado por aquele de Jesus (Luz do mundo), que se modela ao do Mestre e que acaba por ver como ele. Um olhar luminoso, capaz de ver porque se deixa interpelar. Não fecha os olhos à realidade. Vai ao encontro dos demais e deles se torna próximo. Como o Bom Samaritano.
Ao contrário do olhar do rico gastador, incapaz de ver à sua porta o pobre Lázaro que em vão espera as migalhas da sua mesa opulenta. Uma imagem terrivelmente actual da nossa sociedade. Quantos ricos milionários vivem tranquilamente ao lado de populações na extrema miséria! Ou, se tal visão é demasiado incómoda, erguem barreiras para ignorar a presença «escandalosa» dos pobres!
O relatório de uma organização internacional (Oxfam) sublinhava recentemente que as 85 pessoas mais ricas do mundo concentram a mesma riqueza que a metade da população mais desfavorecida do planeta. «É chocante que no século xxi metade da população do mundo – 3,5 mil milhões de pessoas – não tenham mais do que o minúsculo escol cujos números podem caber confortavelmente num autocarro de dois andares», afirmou a directora executiva da Oxfam.
Tal relatório dizia ainda que um por cento da população possui uma fortuna 65 vezes maior que a riqueza total da metade mais pobre da população mundial. Nos últimos vinte e cinco anos, a riqueza ficou cada vez mais concentrada nas mãos de poucos. Este fenómeno global levou a uma situação na qual um por cento das famílias do mundo são donas de quase metade (46 por cento) da riqueza do mundo. Muitas vezes as leis são distorcidas para favorecer os ricos. Tal estudo fala de «sequestro democrático» que está a separar cada vez mais as pessoas, o que torna inevitáveis «as tensões sociais e o aumento do risco de ruptura social».
Portugal não foge à regra. Com efeito, é um dos países onde o peso dos rendimentos dos mais ricos duplicou nas últimas décadas. Além de o número de «super-ricos» ter aumentado, o montante das suas fortunas também cresceu durante este tempo da mais profunda recessão desde 1975.
O Papa Francisco denunciava esta situação na sua recente exortação apostólica A Alegria do Evangelho, condenando os «mecanismos sacralizados do sistema económico reinante» que desenvolveram a «globalização da indiferença». Anestesiados pela cultura do bem-estar, «já não choramos à vista do drama dos outros» e as vidas ceifadas «nos parecem um mero espectáculo que não nos incomoda de forma alguma» (n.° 50).
Neste contexto, não poderia aplicar-se a tantos cristãos – e a nós próprios! – a recriminação de Jesus: «Também vós tendes olhos e não vedes?»

Para purificar o olhar: ir às periferias!

O remédio que o papa propõe para purificar os nossos olhos e torná-los capazes de ver é de «ir às periferias»! É um convite que ele dirige com frequência aos pastores e aos cristãos empenhados no apostolado da Igreja.
O contacto com a «periferia» pode mudar a visão do mundo e da realidade. Tal é a experiência de Chris Arnade, de quem falaram muito os jornais a propósito de um artigo que escreveu no The Guardian de Londres, na véspera de Natal, e que recolheu mais de 2300 comentários de leitores: «As pessoas que mais desafiaram o meu ateísmo foram drogados e prostitutas.» Chris trabalhou durante vinte anos como comprador e vendedor de aplicações financeiras em Wall Street. Em 2012, desgostado, decidiu deixar o mundo da finança. Pegou numa máquina fotográfica e foi para o mal-afamado bairro do Bronx (Nova Iorque) e começou a documentar, com artigos e fotos, este mundo de rejeitados, de vidas à margem da sociedade, vítimas da prostituição e do crime. Diz ele:
«Quando eu trabalhava em Wall Street, nos anos 90, viajei de negócios para o país natal do Papa Francisco, a Argentina… Nós, os banqueiros, andávamos de táxi, passando ao largo das barracas que circundavam o centro de Buenos Aires. Nenhum banqueiro lá punha os pés. Dizia-se que era demasiado perigoso. Em vez disso, mexíamo-nos entre os números das folhas de cálculo, números que representavam pessoas. O Papa Francisco ia realmente às barracas. Regularmente. Viu aquilo que nós não vimos. Como escreveu na sua exortação apostólica: os seres humanos são considerados bens de consumo para serem usados e depois descartados… Não se consegue fazer dinheiro se começarmos a perguntar como é que ele é feito, quem é ferido e quem fica para trás.»
Definindo-se ateu desde os 16 anos, Arnade acabou por pôr em questão as suas ideias, ao confrontar-se com a fé daqueles que, na sua perspectiva, deveriam ser os mais convictos defensores da não existência de Deus, dado o inferno em que viviam. Com efeito, «Sarah, 15 anos passados na rua, traz sempre uma cruz ao pescoço. Sempre. Michael, 30 anos nas ruas, traz um terço no bolso. Sempre. E em cada casa de consumidores de crack, no prédio mais abjecto e desolado, pode encontrar-se uma Bíblia aberta entre seringas, isqueiros e cachimbos de crack.» Takeesha, com uma infância de abusos e uma vida que acabou no mercado do sexo, pediu ao seu entrevistador para ser apresentada assim: «Prostituta, mãe de seis filhos e filha de Deus».

A coragem de olhar bem: olhos nos olhos!

O discípulo de Jesus, o cristão, é chamado a ter um olhar penetrante, de águia, como o de João que reconhece Jesus no estranho das margens do lago, numa manhã de Páscoa: É o Senhor! E como Pedro, sentir o ímpeto entusiasta de lançar-se ao mar ao encontro dele. Mas sobretudo ter a coragem de deixar-se fixar, olhos nos olhos, enquanto Jesus lhe pergunta: Simão, filho de João, tu me amas?
Este é o duplo teste do discípulo. Em primeiro lugar, ter olhos iluminados pela luz da Páscoa, de maneira a reconhecer no «estranho» o Senhor Jesus. Como bem ilustra a história do rabino que, no decorrer dos seus ensinamentos, perguntara aos seus discípulos: «Quando é que começa o dia?» Um após outro, todos tentaram responder, mas ninguém foi capaz de satisfazer o rabino, que acabou por dizer: «Quando vires um estranho na escuridão e nele reconheceres o teu irmão, naquele preciso momento começa o dia. Se não reconheceres no estranho um irmão ou uma irmã, o Sol pode ter nascido, os pássaros cantar, a Natureza ter despertado à vida... mas continua a ser noite e as trevas estão ainda no teu coração!»
Mas a prova suprema posta ao discípulo é a de não fugir ao olhar desse «estranho» quando nos interroga: amas-me deveras? Servir não basta. Tudo é pouco, se falta o amor. E o pouco é muito, se sabe a amor. Os pobres que mendigam o pão são sobretudo famintos de amor, de o dar e de o receber. O «outro» toma consciência de ser reconhecido como irmão quando vê nos nossos olhos que é verdadeiramente amado. Dar tal prova não é fácil, especialmente quando nós mesmos não nos sentimos amados. Ou quando as nossas feridas nos impedem de olhar de caras as fraquezas dos demais.

Para iluminar o olhar: empenhar o coração!

Jean Vanier, o carismático fundador das comunidades da «Arca» que acolhem os «últimos dos últimos», conhece bem tal olhar, que ele descortina nos rostos desfigurados: «Amas-me?» Eis um dos seus muitos testemunhos a este propósito.
«O Armando é muito pequeno, extremamente frágil, com um corpo muito franzino, não pode falar, não pode comer sozinho e desde há dois anos não pode comer com a boca. É alimentado directamente através de uma sonda. Sinto-me sempre emocionado quando vejo o Armando. Ele tem um olhar de tanta beleza! Quando nos aproximamos dele e lhe dizemos: “Armando”, os seus pequenos olhos, o seu rosto explodem num sorriso. Sempre me toca profundamente. O Armando não pede dinheiro, não pede saber, não pede poder, não pede um lugar ou uma função; tudo o que ele pede é simplesmente: “Amas-me?” Isto atinge-nos nas profundezas do coração, um coração feito de ternura e de vulnerabilidade. Este coração que talvez nos incute um pouco de temor, porque todos temos medo de amar. Talvez para esconder a nossa vulnerabilidade... Na Marinha e nos estudos, eu tinha erguido à volta do meu coração todo um sistema de defesa. Tinha de aparecer forte, não sabia tornar-me vulnerável e deixar-me tocar nas profundezas do meu ser. É aqui que o Armando me toca, porque me diz: “Larga as tuas defesas, tira a máscara, sê tu mesmo e entra numa relação de comunhão comigo”… A comunhão é um “ir e vir” do amor através dos olhos, dos gestos, da fala... Comunhão é este olhar recíproco, baseado na confiança, pelo qual o Armando pode dizer-me: Eu confio em ti, e eu posso dizer-lhe: Tenho confiança em ti, tu és um templo do Espírito Santo, tu és presença de Deus».

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