Depois de termos considerado a ligação da vocação com os sentidos mais nobres da visão e da audição, passamos agora aos demais. Comecemos pelo gosto.
Por: P.e MANUEL JOÃO P. CORREIA, Missionário Comboniano,
Que pontos de contacto pode haver entre a vocação e o sentido do gosto? Eu diria que a escolha de uma vocação não é só questão de qualidades e de aptidões, de limites e de sensibilidade da pessoa, mas também de... gosto. De bom e de mau gosto! Com efeito, este sentido está implicado desde o início nas escolhas do homem.
O sabor primitivo
Que sabor tinham os frutos das árvores do Paraíso que Deus dera em alimento ao homem? Não o sabemos. Era certamente «muito bom», como tudo quanto Deus tinha criado. Mas também «o fruto da árvore no meio do jardim» que Deus lhe proibira de comer além de ser «atraente aos olhos», «parecia agradável ao paladar» (Génesis 3,6). Comendo-o, o sabor amargo deixado por aquele fruto acabou por deteriorar o paladar do homem. Desde aquele momento, todas as escolhas do homem seriam condicionadas pelo sabor da desobediência que faria perder a inocência a Adão e Eva; pelo sabor da inveja que levaria Caim e Lameque ao ódio e à violência (Génesis 4); pelo sabor da impiedade que conduziria ao Dilúvio (Génesis 6); pelo sabor do orgulho que suscitaria a confusão de Babel (Génesis 11)...
O gosto do «fruto proibido» perdura até hoje. Todos nós o conhecemos. Mas ele predomina especialmente na pessoa que se regula pelos instintos. Aparentemente livre, é em realidade escrava dos seus caprichos e condicionada pelas suas necessidades. Este tipo de «vocação» ligado à dimensão instintiva do homem – um «chamamento» vindo «desde baixo» – produz os frutos que S. Paulo chama «obras da carne»: «adultério, fornicação, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedeiras, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus» (Gálatas 5,19-21).
Vidas sem sabor, vidas perdidas
À primeira vista, tais frutos parecem satisfazer o apetite que nos devora interiormente, de vida e de prazer, mas bem depressa se revelam envenenados. Eles conduzem a uma existência insípida, vazia, frustrada. Infelizmente, hoje em dia abundam as vidas sem sabor, não obstante a corrida desenfreada para satisfazer todos os apetites. Uma consequência disso é o alto índice de suicídio juvenil que se verifica nas sociedades industrializadas. O binómio «jovens e felizes» tornou-se pura e simplesmente uma ilusão.
Os adolescentes e jovens aparecem frequentemente deprimidos e com tendência ao suicídio. Recentemente a OMS (Organização Mundial da Saúde) numa pesquisa sobre a saúde dos adolescentes (10-19 anos) evidenciava que a depressão é a causa predominante de doença e de desadaptação nesta idade e apontava o suicídio como a terceira causa de morte entre os adolescentes, depois dos acidentes de viação e da sida (em 2012 foram no total 1,3 milhões, mais do que todos os mortos em conflitos e tragédias naturais). Nos últimos anos, a percentagem de suicídios tem crescido bastante, especialmente entre os jovens. A nível mundial situa-se entre as três primeiras causas de mortalidade para as pessoas com uma idade entre os 15 e 44 anos. Isto sem ter em conta que as tentativas de suicídio são 20 vezes mais que os suicídios efectivos.
O psicoterapeuta Victor Frankl, que experimentou a dureza do campo de concentração, disse que, quando temos uma razão para viver e a vida é preciosa para nós, qualquer circunstância, por difícil que seja, torna-se mais facilmente tolerável: «Se uma pessoa encontrou um sentido para a própria vida, estará pronta a sofrer e a sacrificar-se e, se necessário, até a dar a própria vida por amor do seu ideal. Pelo contrário, se não encontra tal sentido existencial, a pessoa tenderá ao suicídio e será capaz de o actuar, não obstante tenha tudo quanto possa desejar para satisfazer as suas necessidades.»
As 10 profissões mais felizes
São Paulo contrapõe à existência conduzida segundo o gosto carnal, a vida que saboreia os frutos do Espírito: «amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio» (Gálatas 5,22-23). Trata-se da vocação cristã com o sabor das bem-aventuranças que tornam o cristão em «sal da terra» (Mateus 5). Tal vocação nasce do Alto e é enriquecida continuamente com novos sabores que só o «homem espiritual» conhece. A vida adquire um sabor especial que a torna particularmente bela e sempre digna de ser vivida.
É interessante notar que numa pesquisa feita pela Universidade de Chicago, há uns três anos, sobre «as 10 profissões mais felizes», ou seja, em que as pessoas se sentem mais contentes e realizadas, no primeiro lugar da lista aparece, com certa surpresa, a vocação sacerdotal. A título de curiosidade, em segundo lugar aparecem os bombeiros e em terceiro os fisioterapeutas. As três requerem uma boa dose de altruísmo e de sacrifício.
Os três ingredientes de uma vida com sabor
Eu diria que são três os ingredientes essenciais para tornar uma vocação e uma vida saborosa: o agridoce da GENEROSIDADE, o picante da CORAGEM de arriscar a própria vida, e o sal da PACIÊNCIA quotidiana.
Sem a doçura da generosidade, inseparável do traço agro do sacrifício, a vida sucumbe progressivamente ao enjoo de uma existência adocicada que enche de insatisfação o coração e de amargura os lábios. É a experiência do jovem rico que se afasta triste, incapaz de responder com generosidade ao convite de Jesus.
Uma vida generosa conhece a agrura do sofrimento, que porém se transforma em mel da consolação, como o «rolo» que o profeta Ezequiel (2,8-3,3) e o apóstolo do Apocalipse (10,8-11) são convidados a comer.
Uma vida sem a especiaria da coragem para assumir riscos e desafios, norteada apenas pelo medo ou pela prudência, acaba por ser invadida pelo tédio.
É a experiência vocacional fracassada daqueles que pretendem tomar todas as precauções antes de seguirem Jesus: «Um homem lhe disse: “Eu te seguirei por onde quer que fores.” Jesus respondeu: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça.”» A outro, disse: «Segue-me. Mas o homem respondeu: “Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai.” Jesus lhe disse: “Deixa que os mortos sepultem os seus próprios mortos; tu, porém, vai e proclama o Reino de Deus.”» Um outro, disse: «Vou seguir-te, Senhor, mas deixa-me primeiro voltar e despedir-me da minha família.» Jesus respondeu: «Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus» (Lucas 9,57-62). Só arriscando a vida lhe damos verdadeiramente valor e sabor.
Uma vida sem o sal da paciência que dá sabor ao quotidiano, a cada momento, a cada gesto e a cada acção, acaba por não ter um rumo certo, um sentido seguro e torna-se superficial. Pretende obter tudo e imediatamente. Falta-lhe a paciência do agricultor que espera pacientemente que a semente germine, cresça e dê fruto, antes de lhe meter a foice (Marcos 4, 26-30).
Comboni, um bom cocktail dos três ingredientes
Um bom cocktail destes três ingredientes aparece na vocação de São Daniel Comboni. Por isso o seu testemunho continua a ser tão luminoso e a atrair tantos jovens. Eis aqui três trechos, tirados dos seus Escritos, em que podemos degustar o sabor particular da sua vida e da sua vocação missionária.
«Com tantos pesares a oprimir-me, compreenderá que é um milagre eu poder resistir a tantas cruzes. Porém, eu sinto-me tão cheio de força, de coragem e de confiança em Deus e na Santíssima Virgem Maria, que estou certo de superar tudo e de me preparar para outras cruzes maiores, ainda por vir» (Escritos, 1709).
«Se o Papa, a Propaganda e todos os bispos do mundo me fossem contrários, baixaria a cabeça por um ano e depois apresentaria um novo Plano: mas desistir de pensar na África, jamais, jamais! A mim não me desanimam nem o cum quibus [meios materiais necessários, tradução do editor], nem o santo amor-próprio das congregações a quem estão confiadas as 21 missões de África… As qualidades de um bom empreendedor e mendicante são três: prudência, paciência e impudência. A primeira, falta-me; mas, caramba, compenso-a de sobra com as outras duas e em especial com a terceira» (1071-72).
«Confesso-lhe sinceramente que tais palavras de encorajamento no meio dos contínuos sofrimentos deste trabalhoso apostolado foram para a minha fraqueza um verdadeiro maná do Céu, que consolidaram e duplicaram a coragem e vigor do meu espírito e constituíram um bálsamo salutar para o ânimo de todos os meus companheiros. Quando se tem a plena certeza de estar a fazer a vontade de Deus, todo o sacrifício, todas as cruzes e a própria morte são o mais doce conforto dos nossos corações, a mais grata recompensa para os nossos sofrimentos» (3683).
E para concluir, uma pergunta: QUE SABOR TEM A MINHA VIDA?

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