«A composição do Sínodo dos Bispos sobre a família é decepcionante», diz Thomas Reese, jesuita, jornalista, ex-diretor da revista America
O Vaticano divulgou na terça-feira, 9 de setembro, a lista dos participantes da 3.ª Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, que acontecerá de 5 a 19 de outubro, com o tema "Os desafios pastorais da família no âmbito da evangelização". Entre os 253 presentes, estão os cardeais brasileiros: Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida e presidente da CNBB; João Braz de Aviz, prefeito da Congregação Pontifícia para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica; Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo; Orani João Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro; acompanhados do Monsenhor Edgard Madi, bispo de Nossa Senhora do Líbano, em São Paulo. Também participará do evento, como auditores, o casal de brasileiros Arturo e Hermelinda Zamberline, responsável pela “Equipe Notre-Dame” para a super região do Brasil.
De acordo com informações do Vaticano, estarão presentes representantes de cinco continentes, sendo: 114 presidentes de conferências episcopais, 13 chefes de igrejas Católicas Orientais "sui iuris", 25 chefes de dicastérios da Cúria Romana, nove membros do Conselho Ordinário de Secretaria, o secretário geral, o subsecretário, três religiosos eleitos pela União de Superiores Gerais, 26 membros nomeados pelo papa, oito delegados fraternos, 38 auditores, dos quais 13 casais, 16 especialistas.
Durante as duas semanas da assembleia sinodal, os participantes irão refletir sobre o Documento de trabalho publicado em junho. Conforme recordou o secretário geral do Sínodo, cardeal Lorenzo Baldisseri, o objetivo é “propor ao mundo de hoje a beleza e os valores da família, que emergem do anúncio de Jesus Cristo que dissolve o medo e sustenta a esperança”. Como anunciado, os trabalhos seguirão uma nova metodologia interna, visando favorecer uma participação mais dinâmica dos padres. Não está previsto um documento final na conclusão da assembleia. Trata-se apenas da primeira etapa de um percurso que se concluirá no próximo ano, quando entre os dias 4 e 15 de outubro de 2015, se realizará o 14º Sínodo Geral Ordinário, que tratará do tema “Jesus Cristo revela o mistério e a vocação da família”.
Este é o terceiro Sínodo extraordinário da história da Assembleia Sinodal. Os primeiros aconteceram em 1969 e em 1985, respectivamente, sobre Conferências Episcopais e colegialidade dos bispos e sobre a aplicação do Concílio Vaticano II.
Segue-se um comentário de Thomas Reese, jesuita, jornalista, ex-diretor da revista America, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 10-09-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
A lista dos que participarão no Sínodo dos Bispos sobre a
família é decepcionante para os que esperam por reformas da Cúria e os que
desejam que os leigos sejam ouvidos durante os dias de encontro.
A nomeação de 25 autoridades da Cúria para o Sínodo sobre a
família é um sinal de que o Papa Francisco ainda não compreende o que uma
reforma verdadeira da Cúria Romana requer. Esta nomeação me fez temer que
quando tudo estiver dito e feito, ele poderá fechar ou fundir alguns
departamentos, rearranjar algumas responsabilidades, mas não realizar nenhuma
mudança profunda.
Segundo a lei vigente, o moto proprio Apostolica
Sollicitudo, um sínodo extraordinário é composto pelos principais líderes
episcopais das igrejas católicas orientais, pelos presidentes das conferências
dos bispos e por três religiosos escolhidos pela União dos Superiores Gerais. A
lei também afirma: “Os cardeais que presidem os escritórios da Cúria Romana
também participarão”.
O papa também pode nomear bispos e padres adicionais bem
como observadores leigos.
Ter autoridades curiais como membros de um sínodo não permite
reconhecer que, antes, deveriam estar a serviço, e não atuando como
formuladores de políticas. Estas autoridades poderiam participar do sínodo como
funcionários, mas não deveriam ser membros com direito a votos. No mais,
deveriam ser observadores, e não oradores. Estes participantes têm todas as
demais semanas do ano para assessorarem o papa. Os sínodos constituem um
momento para que os bispos de fora de Roma tornem conhecidas as suas opiniões.
Se o Papa Francisco e o Conselho de Cardeais não estiverem
dispostos a mudar o Sínodo dos Bispos em sua composição, será difícil acreditar
que eles irão, de fato, consertar a Cúria Romana.
Os prelados americanos no Sínodo serão o arcebispo de
Louisville (no estado do Kentucky), Dom Joseph Kurtz, e os cardeais Timothy
Dolan, Donald Wuerl e Raymond Burke. Kurtz irá participar por ser o presidente
da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA. Dolan e Wuerl se farão presentes
como membros do conselho do sínodo ordinário. E Burke participará porque é o
prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica.
Além dos bispos componentes do Sínodo, há os colaboradores
(especialistas) e auditores (observadores). A metade dos especialistas são
padres, o que parece estranho para um sínodo sobre a família. Nenhum dos 16
especialistas é estadunidense; 10 são da Europa (incluindo cinco da Itália),
três da Ásia; e um do México, outro do Líbano e, por fim, um da Austrália.
Há mais leigos entre os 38 auditores, incluindo 14 casais,
dos quais dois são dos Estados Unidos. Grande parte dos observadores são
funcionários da Igreja Católica ou líderes de organizações católicas, incluindo
organizações de planejamento familiar natural.
Por exemplo, um casal dos EUA é composto por Jeffrey
Heinzen, diretor de planejamento familiar natural na diocese de La Crosse, no
estado do Wisconsin, e Alice Heinzen, participante do Conselho Consultivo de
Planejamento Familiar Natural, da Conferência dos Bispos Católicos americana.
O outro casal americano é composto por Steve e Claudia
Schultz, membros do International Catholic Engaged Encounter, grupo que
trabalha no ministério de preparação para o casamento católico.
Teremos que esperar e ver se os auditores vão apresentar aos
bispos as opiniões dos leigos católicos, mesmo assim é difícil sustentar que
estes representem, em geral, os católicos. Com certeza, aqueles que pensam que
o planejamento familiar natural seja o grande presente da Igreja para os leigos
não representam os católicos da base. E os que são funcionários da Igreja
poderão ter medo de perder seus empregos caso falarem a verdade.
No Sínodo de 1980 sobre a família, os participantes leigos
constituíram um fator importante para a total falta de contato com a realidade
que os participantes demonstraram. Receio que estejamos prestes a ver isso
acontecer novamente.
A maioria dos colaboradores e auditores foi escolhida sob a
recomendação das conferências episcopais, e esta é a contradição fundamental do
papado de Francisco. Ele quer mudar as coisas, mas igualmente quer a
participação dos bispos locais em muitas delas.
Há também uma ironia nisso tudo. Nas décadas seguintes ao
Concílio Vaticano II, os católicos progressistas pediram, constantemente, pela
descentralização na Igreja. Hoje, quando estão gostando do que o papa está
fazendo, eles querem que o líder da Igreja faça as coisas via ordem executiva.
Enquanto isso, os conservadores estão começando a enxergar as vantagens da
subsidiariedade na Igreja. Deus tem, mesmo, um senso de humor incrível.

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