Cremos
na família realmente como agente da ação evangelizadora ou meramente como
“receptáculo” passivo? Estamos dispostos, como Igreja, a também beber dessa
fonte, ou apenas a pensá-la e a utilizá-la como “receptáculo” passivo de uma
“transmissão”? Talvez seja justamente do nosso modo de pensar e de dizer o
“evangelho da família hoje” que advenham as maiores incompreensões e,
principalmente, desafios.
A
opinião é do jornalista Moisés Sbardelotto,
doutorando em Ciências das
Comunicação pela Unisinos.
O artigo foi publicado na revista O Mensageiro de Santo António, de
setembro de 2014.
No
fim de junho, foi divulgado o “instrumento de trabalho” (Instrumentum laboris)
da III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, que será realizada
em outubro sobre o tema Os desafios pastorais da família no contexto da
evangelização. Trata-se de um texto muito relevante para toda a Igreja, por ser
a síntese de uma “vasta resposta eclesial por parte do povo de Deus” sobre a
questão da família hoje, que será debatida pelos bispos do mundo inteiro, em
Roma, gerando grandes expectativas em todas as comunidades.
O
instrumento de trabalho quer ser um “primeiro ponto de referência para o
diálogo sinodal”, para “favorecer o confronto e o aprofundamento” (n. 158)
durante o Sínodo. O documento nasceu da contribuição de toda a Igreja, em nível
mundial, graças ao questionário enviado pela Santa Sé em novembro de 2013.
Enriquecido com todas essas contribuições, o texto se divide em três partes
centrais: 1) “Comunicar o evangelho da família hoje”, 2) “A pastoral da família
face aos novos desafios”, 3) “A abertura à vida e a responsabilidade
educativa”.
Mais
do que refletir sobre a temática central, quero propor aqui uma reflexão sobre
a linguagem utilizada especialmente na primeira parte do documento, em que se
aborda a “comunicação do evangelho da família hoje”. Muitas vezes, o modo de
pensar e de dizer a importância da família pode contradizer a nossa missão como
Igreja.
O
documento parte da constatação de que “a comunicação e a recepção dos
ensinamentos da Igreja relativos à família se dão em modalidades bastante
diversificadas, segundo as experiências familiares, o tecido eclesial e o
contexto sociocultural” (n. 8). É importante que essa diversidade seja
reconhecida e valorizada, pois isso faz com que o diálogo intra e extraeclesial
possa avançar.
Mas,
depois, a apresentação dos desafios pastorais fica obscurecida por uma
linguagem que trai essa complexidade eclesial e sociocultural, reduzindo a
evangelização a uma mera “transmissão da fé”, em que, de um lado, há “pessoas
sensíveis à doutrina cristã” e, de outro, “muitos cristãos que ignoram a
existência destes ensinamentos” (n. 8). Mas será que essa separação entre
“sensibilidade” e “ignorância” é tão clara assim? A compreensão do panorama não
deveria ser um pouco mais complexa?
O
instrumento de trabalho afirma que “um bom número de Conferências Episcopais
observa que, onde é transmitido em profundidade, o ensinamento da Igreja com a
sua genuína beleza, humana e cristã, é aceito com entusiasmo por grande parte
dos fiéis” (n. 13). Ao falar do escasso conhecimento dos documentos da Igreja
por parte dos fiéis, o mesmo artigo diz que, quando esse ensinamento é conhecido,
“muitos cristãos manifestam dificuldade em aceitá-lo integralmente”.
Nas
entrelinhas, portanto, diz-se que uma “transmissão em profundidade” ocorre
quando os fiéis “aceitam com entusiasmo” ou “integralmente” o que é
transmitido. Isto é: quase nunca! E isso não se deve a uma “dificuldade” dos
fiéis, porque, de fato, a aceitação (passiva) é quase impossível. Sempre há
negociação e reconstrução criativa daquilo que é “transmitido” e recebido. Por
outro lado, “aceitar integralmente” pressupõe abrir mão do que é central na
comunicação: a apropriação criativa daquilo que é transmitido por parte de quem
o recebe. Qualquer processo comunicativo envolve um certo grau de “não
aceitação integral”, no sentido de fazer coisas novas com o que é
“transmitido”.
“Transmitir”
é fazer chegar a alguém exatamente aquilo que se emitiu, independentemente do
contexto. Como criticava Paulo Freire, “transmitir” é uma compreensão
mecanicista, estática e domesticadora da comunicação – eu transmito “algo”
coisificado que um “receptor” passivo deve aceitar e que, ao aceitá-lo, irá se
sobrepôr aos seus conhecimentos pessoais. Mas a comunicação está a anos-luz
dessa compreensão – é ir (muito) além do que foi transmitido, é apropriação, é
negociação, é reconstrução, é transformação de todo o “meio” comunicacional
(incluindo os agentes, a mensagem, o contexto, as mediações).
O
documento também diz que os textos do Magistério da Igreja “não parecem permear
profundamente a mentalidade dos fiéis” (n. 11). Ora, pensar que temos o poder
de fazer com que nossos textos possam “permear profundamente a mentalidade” de
alguém é considerar esse alguém um ser ignorante, não pensante, não reflexivo,
inerte. É assim que pensamos o “outro” na evangelização?
O
instrumento de trabalho continua dizendo que, “em geral, são mencionados [nas
respostas recebidas pela Santa Sé] elementos parciais da doutrina cristã, mesmo
se relevantes, onde se observa uma resistência, em diversos graus” (n. 13).
Resistência? É óbvio que haverá: faz parte da ação comunicativa, como prática
transformadora e ação crítica sobre a significação do mundo. Ninguém comunica nem
se comunica “passivamente”.
Mas,
logo em seguida, o instrumento de trabalho explica que algumas Conferências
Episcopais observam que o motivo de tal resistência “é a falta de uma autêntica
experiência cristã, de um encontro pessoal e comunitário com Cristo” (n. 15).
Aqui está o maior problema: culpabilizam-se os fiéis – teologicamente – por
algo que é intrínseco ao agir comunicacional. A resistência não é privilégio
dos “hereges” contemporâneos. Antes de buscar o motivo da resistência ou de
julgá-la moralmente como “falta de uma autêntica experiência cristã”, seria bom
entendê-la na sua expressividade: o que significa “resistir aos ensinamentos da
Igreja”? Há uma forma de comunicação central nesse gesto dos “resistentes”. Tal
resistência não poderia ser até mesmo, ao contrário, fruto da experiência e do
encontro com Cristo, como expressão autêntica e sincera do sensus fidei
fidelium, o senso da fé por parte dos fiéis, em diálogo com toda a Igreja?
No
documento de trabalho do Sínodo, explicita-se ainda uma “unanimidade nas
respostas também em relação aos motivos de fundo das dificuldades na aceitação
do ensinamento da Igreja: as novas tecnologias difusivas e invasivas; a
influência dos mass media; a cultura hedonista; o relativismo” (n. 15). Tal
constatação reaparece na segunda parte do documento, em que se afirma que as
mídias têm um “impacto negativo sobre a família”, porque “transmitem valores
errados e desviantes” (n. 68). Diz-se que “a televisão, o smartphone e o
computador” podem alimentar “relações fragmentadas e alienação” e que “acaba-se
assim por viver relações virtuais entre os membros da família, onde os meios de
comunicação e o acesso à internet se substituem cada vez mais às relações”, com
o “risco da desagregação e da desunião familiar, mas também a possibilidade que
o mundo virtual se torne uma verdadeira realidade substitutiva” (idem).
Como
de praxe em certos documentos da Igreja ou mesmo no linguajar eclesial em
geral, a culpa pelas “dificuldades na aceitação” da doutrina está no “outro”: na
cultura, na tecnologia, no mundo. Mas não seria necessário repensar melhor?
Muitas vezes, os motivos de fundo, quase via de regra, estão no próprio agente
emissor, que não reconhece o “outro” na sua alteridade e, assim, coisifica
tanto o receptor quanto a mensagem, querendo “transmitir” (mecanicamente)
“algo” (coisificado) a “alguém” (apassivado), dando de ombros ao contexto
sociocultural específico. Isso não é comunicação, muito menos evangelização.
Mas
há pontos relevantes, que deixam algumas brechas de esperança. O documento
informa, por exemplo, que “algumas intervenções constatam a importância de
valorizar elementos das culturas locais, que podem ajudar a compreender o valor
do Evangelho” (n. 14). Esse é o eixo de toda evangelização entendida como processo
de comunicação: a inculturação. Como diz o Papa Francisco na Evangelii gaudium,
“pela inculturação, a Igreja ‘introduz os povos com as suas culturas na sua
própria comunidade’” e assume “os valores das diversas culturas” (n. 116). Sem
reconhecimento, compreensão, valorização e acolhimento do “outro” e do seu
contexto específico, é impossível comunicar. O instrumento de trabalho acena
para isso, quando defende que é preciso “integrar os ensinamentos da Igreja
sobre a família com os valores sociais e morais do povo”, ressaltando “a
importância da interculturalidade no anúncio do Evangelho da família” (n. 14).
Que assim seja!
A
questão é: cremos na família realmente como agente da ação evangelizadora ou
meramente como “receptáculo” passivo? Como indica a Premissa do instrumento de
trabalho, “a família constitui um recurso inesgotável e uma fonte de vida para
a pastoral da Igreja”. Não se trata apenas de recurso, mas também de fonte de
vida para a Igreja. Estamos dispostos, como Igreja, a também beber dessa fonte,
ou apenas a pensá-la e a utilizá-la como “receptáculo” passivo de uma
“transmissão”? Talvez seja justamente do nosso modo de pensar e de dizer o
“evangelho da família hoje” que advenham as maiores incompreensões e,
principalmente, desafios.

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